*Por Carlos Soares
Uma pesquisa de opinião encomendada pela diretoria da Apufsc à Lupi & Associados, em 2000, apontou que:
Éramos um total de 1.568 docentes ativos e 846 aposentados, somando 2.414 sindicalizados.
Do total de docentes da UFSC, 90% eram sindicalizados, e para 83,7% destes, estar filiado ao sindicato era algo importante ou muito importante.
Segundo informações obtidas junto à secretaria da Apufsc e dados fornecidos pela Prodegesp/DAP/UFSC, a evolução temporal do número de docentes da UFSC e de sindicalizados obedeceu à curva abaixo:

Como pode ser observado, o ano de 2010 (após a desfiliação do Andes, em 2009) representa um importante divisor de águas. Hoje, somos 1.265 sindicalizados ainda em exercício na UFSC e 1.501 aposentados (vale ressaltar que “aposentados” é uma denominação muito mais adequada, até porque eles compõem a maioria e são decisivos em uma eleição, não tendo, portanto, nada de “inativos”). O coeficiente de sindicalização evoluiu conforme a curva abaixo:

Os dados aqui apresentados suscitam uma boa discussão. Obviamente, não podem ser avaliados de forma descontextualizada da mudança do perfil dos docentes. Em 1990, a grande maioria dos docentes possuía título de mestre, havendo um número bem menor de doutores. Em 2000, éramos 32% com mestrado, 47,6% com doutorado e apenas 4,8% com pós-doutorado. Hoje, somos mais de 2.400 doutores em um universo de 2.552 docentes. Certamente, os professores mais novos possuem um perfil muito mais acadêmico e voltado à pesquisa do que há algumas décadas. Até porque as condições de infraestrutura evoluíram de maneira a possibilitar essa mudança. Provavelmente, esse perfil diferenciado altera a percepção do trabalho docente e sua relação com a Instituição e com os conceitos de universidade pública e gratuita. Esse é um fato inegável. Porém, fica evidente que a “virada” na formação acadêmica dos docentes ocorreu no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Apesar desse fato, em 2010 tínhamos um coeficiente de sindicalização expressivo — o maior que a Apufsc já teve —, e isso não é mera coincidência.
De qualquer forma, em qualquer cenário, o papel do sindicato é promover a conscientização dos docentes, fomentar as discussões, trazer os dados da conjuntura política nacional e local e apontar com clareza os desafios e quais ações de enfrentamento dos nossos problemas são necessárias. É organizar “a luta”, na linguagem sindical. E, obviamente, atrair o docente para o sindicato.
Até 2009, mesmo com todos os questionamentos e limitações que possam ser apontados, o Sindicato cumpria esse papel. A Entidade era a referência política e “traduzia” a conjuntura para o professor imerso em sua rotina acadêmica. Alertava para as necessidades urgentes de mobilização e organizava o movimento. Porém, foi acusado de ser “político demais”. Veio a mudança e, assim, ficamos até 2018 no limbo, afastados e desmobilizados da conjuntura nacional. Chegamos a ser identificados, novamente, como uma “associação recreativa que promovia excursões e passeios”.
Em uma pesquisa de opinião elaborada pelo Laboratório de Sociologia do Trabalho, do Departamento de Sociologia e Política (CFH), e promovida pela Apufsc/UFSC em 2019, a insatisfação com a atuação do Sindicato ficou bem evidenciada. Apenas 30% dos entrevistados consideraram a capacidade do Sindicato de mobilizar e unificar a categoria como satisfatória (24%) ou muito satisfatória (6%).
A mobilização docente na campanha salarial de 2024 marca uma mudança significativa e muito positiva no quadro geral. Um grupo de docentes mais novos, com muita determinação e bem posicionados politicamente, assumiu o comando e a organização do movimento. E a Diretoria da Apufsc, obedecendo a “comandos” externos à UFSC, fez o que poucas ou nenhuma vez se assistiu por aqui. Promoveu um enfrentamento desleal, tentou de várias formas desmobilizar o movimento e sonegou o uso da infra-estrutura do Sindicato para a mobilização da campanha salarial. O descrédito do Sindicato é expressivo, o que explica a baixa taxa de sindicalização (45%). Quando questionados, os docentes não vêem motivos para se sindicalizarem.
Em 2026, a Diretoria da Apufsc protagonizou fatos inaceitáveis e que “jogam” contra o movimento docente. Por ser ano de eleição para a Diretoria do sindicato e de eleições nacionais, deveríamos ter realizado muitos debates sobre a conjuntura atual, mas não tivemos. Das poucas reuniões do Conselho de Representantes (CR) realizadas, aquela em que o processo eleitoral foi discutido e as regras foram deliberadas terminou de
forma absurda, com manipulações e descumprimento do estatuto. Foi necessária uma ação judicial, impetrada por um grupo de docentes (os mesmos que são sistematicamente caluniados e desqualificados pela atual Diretoria), para fazer o processo ocorrer segundo o estatuto, enquadrando os desmandos da gestão. Não bastasse isso, ainda foram necessárias mais duas decisões judiciais para determinar que o estatuto fosse cumprido. Lembrem-se, o processo eleitoral foi suspenso num constrangimento histórico. Tais fatos expõem de maneira inequívoca que o movimento docente está sendo regularmente sabotado e sufocado naquilo que tem de mais importante: a sua capacidade de organização e mobilização.
O ano de 2026 vai terminando e, se não houver imprevistos, com um final retumbante e feliz. Feliz para quem se indignou, resistiu e foi à luta contra uma tragédia que se anunciava. Feliz para aqueles que cultivam os mais elevados princípios civilizatórios contra o ódio, a discriminação, a misoginia, a intolerância e a desigualdade social.
Aqui em Florianópolis e na UFSC, a mobilização foi intensa, marcante e envolvente… e a Diretoria da Apufsc se omitiu.
Obviamente, a eleição de Lula — para a qual a comunidade universitária trabalhou intensamente — não resolve automaticamente os nossos problemas e obstáculos. Apenas atenua a situação e mantém a porta aberta para uma possível solução. A organização e a mobilização da comunidade universitária continuarão imprescindíveis. O embate de forças políticas dos últimos anos seguirá ativo e, provavelmente, se acentuará. Temos que estar preparados. Um sindicato forte e politicamente sincronizado com as forças e os movimentos nacionais é fundamental. Na UFSC, precisamos sair da “periferia” e nos juntar ao coletivo nacional dos docentes das Universidades Federais.
É preciso mudar a atuação do Sindicato, e essa mudança só será possível com a substituição do grupo político que domina e dominou a entidade na última década. É necessário que os docentes sindicalizados tenham a percepção de que o momento exige uma avaliação crítica das ações das últimas Diretorias.
O raciocínio maniqueísta com que a Diretoria trata os sindicalizados, tentando jogar uma parcela contra a outra, cria um divisionismo que nada constrói, não agrega novos filiados e em nada contribui para a organização do movimento docente. Os números mostram isso.
A confiança nas ações e decisões da Diretoria é um pressuposto básico. Uma Diretoria que manipula e afronta o estatuto, exigindo ação judicial para o seu cumprimento, literalmente não cumpre esses requisitos. Portanto, premiar com o voto de confiança aqueles que expuseram o Sindicato a uma situação tão irregular e desgastante não é uma atitude sensata; é uma péssima sinalização, incompatível com um sindicato de docentes do ensino superior.
Temos eleição para a Diretoria. Vote para mudar. Vote para recuperar a Apufsc com protagonismo sindical, tanto em nível local quanto nacional. Os dados acima demonstram que, com uma taxa de sindicalização de apenas 45%, a Apufsc já não representa a totalidade dos docentes da UFSC, embora legalmente detenha essa prerrogativa. Esse é um fato preocupante. Precisamos — e vamos — mudar essa realidade.
*Carlos Soares é professor do Departamento de Bioquímica (CCB/UFSC)
Artigo recebido às 8h53 do dia 6 de novembro 2026 e publicado às 12h23 do mesmo dia
