Mais uma vez aparece a dicotomia entre pesquisa e desenvolvimento tecnológico, ou entre “produção do conhecimento” e “desenvolvimento tecnológico”, nas palavras do Prof. Philippi. Lamentavelmente, cristalizando uma confusão nos objetivos de uma universidade como a nossa em que convivem professores de artes, humanidades, saúde, ciências exatas e da terra etc. e engenharias. A critica do Prof. Philippi se reduz a dizer que desenvolvimento tecnológico não é ciência. Mas engenharia o que é senão a aplicação de conhecimentos de outras áreas na solução de problemas concretos? Podemos nos utilizar das matemáticas, mas não somos matemáticos, podemos nos valer da física, mas não somos físicos, podemos aproveitar a química, mas não somos químicos. Nós usamos os conhecimentos desenvolvidos nas ciências básicas para resolver problemas concretos, ou ao menos isto deveríamos fazer. A principal função da engenharia é melhorar a qualidade de vida do ser humano usando os conhecimentos produzidos em outras áreas. E isto tem seu valor, pois saber como usar conhecimento disperso para resolver um problema concreto requer criatividade. Mesmo que não exista prêmio Nobel de engenharia.
Claro, para desenvolver tecnologia é necessário dinheiro, geralmente muito dinheiro, tanto que alguns colegas de outras áreas podem pensar que estamos jogando dinheiro fora. Mas não, equipamentos são caros, insumos são caros, manutenção dos equipamentos é cara, e muitos equipamentos precisam de técnicos capacitados para seu uso. O governo não quer fazer investimentos em todas as áreas em que os professores estão interessados em trabalhar, mas algumas empresas sim. Por exemplo, em tecnologias para a área de petróleo em que nitidamente a Petrobras tem como investir e o faz. Quem gerencia estes projetos e quem participa da execução de um projeto assume responsabilidades maiores do que aquele que não participa e isto deve merecer um prêmio, assim como os pesquisadores do CNPq recebem um prêmio pelas publicações em revistas indexadas. Esta faltando um prêmio para aqueles que se dedicam de corpo e alma ao ensino e para muitas outras áreas onde a dedicação não é recompensada. O que me parece hipócrita é defender a bolsa do CNPq e criticar todas as outras formas de aumentar o dinheiro no bolso. Se ao invés disso, fosse proposto que o único provento de um professor em DE seja o seu salário (sem exceções) eu apoiaria, mas isto nunca é proposto.
Institucionalizar os projetos de desenvolvimento com o setor produtivo seria uma idéia interessante, a não ser pelo fato de que alguém vai ter que se responsabilizar se o projeto não der certo por alguma razão. Neste caso o responsável seria o reitor? Se não for ele, mas sim um professor, porque este deveria assumir uma responsabilidade a mais se não recebe um prêmio por isto? E, pior ainda, se for questionado o seu desempenho como professor, pois não se dedica à “produção do conhecimento”? Por que os pesquisadores do CNPq não fazem pesquisa e publicam em revistas indexadas sem receber bolsa? O que aconteceria com a pesquisa na universidade neste caso? Acaso alguém pensa que continuaria tudo igual? Certamente não, pois os critérios de prêmio e castigo moldam as atividades. E um prêmio em dinheiro molda melhor.
Finalmente, como se diferencia o dinheiro do CNPq do dinheiro do Mercado dentro do bolso da calça?
