Pesquisa da UFSC desenvolve tecnologias para controle de espécie invasora de coral

Espécie reduz o espaço disponível para espécies nativas, alterando a estrutura dos ecossistemas e causando perda de biodiversidade marinha brasileira

Um grupo de pesquisadores liderado por dois professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desenvolveu um projeto de pesquisa para monitoramento e controle da proliferação de uma espécie exótica de coral na Reserva Biológica Marinha do Arvoredo (Rebio Arvoredo). O Plano de Ação para Prevenção e Controle do Coral-Sol na Rebio Arvoredo e Entorno (PACS Arvoredo) proporcionou o desenvolvimento de técnicas e ferramentas de manejo do coral-sol (Tubastraea coccinea), espécie invasora que pode prejudicar a biodiversidade de ecossistemas marinhos no Brasil. Atualmente, o grupo está elaborando um protocolo de monitoramento para sistematização dessas atividades em Unidades de Conservação (UC) federais que enfrentam o problema de espécies invasoras de coral.

A reserva biológica marinha do Arvoredo, localizada entre Florianópolis e Bombinhas (SC), abrange uma área de 17.600 de hectares de superfície e abriga as Ilhas do Arvoredo, Galé, Deserta e Calhau de São Pedro, áreas marinhas biodiversas, espécies ameaçadas, remanescentes de Mata Atlântica e sítios arqueológicos, além de ser fundamental para a reprodução de peixes e a manutenção dos estoques pesqueiros. Na Rebio Arvoredo, essa ameaça é mais preocupante.

“A unidade de conservação abriga ecossistemas únicos, como os recifes submarinos, além de uma diversidade biológica que sustenta elevada produtividade pesqueira no entorno. Qualquer desequilíbrio nesse sistema pode gerar impactos ambientais e socioeconômicos significativos”, afirma a pesquisadora Bárbara Segal, do Departamento de Ecologia e Zoologia (CCB), coordenadora da pesquisa junto com o professor Andrea Piga, do Departamento de Engenharia da Mobilidade (CTC Joinville).

O coral-sol é uma espécie originária do Indo-Pacífico e chegou ao Brasil por volta da década de 1980, provavelmente transportado em cascos de navios e plataformas de petróleo. Desde então, vem se espalhando ao longo da costa brasileira. Na Rebio Arvoredo, as primeiras ocorrências foram constatadas em 2012. Ao dominar o ambiente recifal, ele reduz o espaço disponível para espécies nativas, alterando a estrutura dos ecossistemas e causando perda de biodiversidade marinha brasileira, explica a professora Bárbara. 

“Estamos trabalhando no monitoramento das áreas controladas e na detecção precoce da invasão em áreas em que o coral ainda não foi visto. Além disso, está sendo elaborado, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), um protocolo de monitoramento para sistematização dessas atividades em Unidades de Conservação Federais (UCs) que enfrentam o mesmo problema”.

O PACS Arvoredo foi uma exigência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para emitir uma licença de operação à empresa Karoon Energy para exploração de petróleo no Campo de Baúna, na Bacia de Santos, do qual ela detém a concessão. Entre os principais objetivos do plano de ação estão o de mapear a presença do coral-sol na área da Rebio Arvoredo, aprofundar o conhecimento sobre a biologia da espécie, desenvolver tecnologias e métodos de manejo e controle da espécie invasora e contribuir para a formação de recursos humanos.

A pesquisa foi desenvida entre 2022 e 2025. Em 140 horas de monitoramento (114 mergulhos), foram percorridos 65 quilômetros de costões rochosos. Com isso, os pequisadores fizeram um levantamento de como está a proliferação do coral-sol na área da Rebio Arvoredo. Foi constatado que o coral-sol aparece em maior abundância na Ilha do Arvoredo e em uma área de naufrágio da Ilha da Galé.

A partir disso, os pesquisadores e profissionais envolvidos começaram o trabalho de controle da propagação do coral-sol. Foram desenvolvidos e aperfeiçoados equipamentos para realizar a remoção mecânica dos espécimes, tais como marteletes pneumáticos e elétricos, escova elétrica, pistolas injetoras, disparadores de ar comprimido e dispositivo para aplicação de luz ultravioleta (UV). Com essas técnicas e ferramentas, os pesquisadores conseguem controlar a reprodução e regeneração dos corais.

Manejo adaptativo

A equipe do PACS Arvoredo, além dos professores Bárbara Segal e Andrea Piga, incluiu 13 estudantes de graduação, seis de pós-graduação, três profissionais de apoio e 18 mergulhadores. Sob o aspecto acadêmico, a pesquisa proporcionou a elaboração de três artigos científicos, 14 apresentações em congressos, seis dissertações e monografias e cinco capítulos de livros.

A professora também explica que um dos objetivos alcançados do projeto foi a elaboração de uma estratégia de manejo adaptativo, baseada em evidências científicas. Essa abordagem integra dados biológicos e informações obtidas por meio de monitoramento. “Estamos na fase de levantamento de informações, através do monitoramento das áreas controladas com o uso de diferentes procedimentos e estratégias, desenvolvidos ao longo do projeto”, diz a professora. Atualmente, os pesquisadores acompanham áreas onde o controle foi realizado, avaliando a eficácia das diferentes técnicas aplicadas, além de atuar na detecção precoce da invasão em locais onde o coral ainda não foi registrado.

Esses resultados foram apresentados no dia 27 de novembro de 2025 no escritório da empresa Karoon Energy, no Rio de Janeiro. A empresa fez o aporte dos recursos financeiros, que foram administrados pela Fundação Stemmer para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (FEESC). 

A professora explica que, embora o projeto tenha sido concluído em 2025, o trabalho continua. As atividades de campo e o monitoramento da invasão do coral-sol seguem até março de 2026, em conjunto com o ICMBio. A expectativa é que as soluções e metodologias desenvolvidas no PACS Arvoredo possam ser replicadas em diferentes regiões do país.

Para os pesquisadores, o enfrentamento de espécies invasoras não depende apenas da ciência e da gestão ambiental. A sociedade também tem um papel importante. Desenvolver consciência sobre a importância da ciência, valorizar políticas públicas baseadas em evidências e apoiar decisões pautadas em informações científicas são passos essenciais para o sucesso da conservação ambiental.

No caso do coral-sol, mergulhadores e pessoas que frequentam o ambiente marinho podem contribuir se informando, aprendendo a reconhecer a espécie e registrando ocorrências. A orientação, no entanto, é clara: “nunca tentar remover o coral sem a presença de profissionais capacitados, já que intervenções inadequadas podem agravar o problema”, segundo a pesquisadora.

Fonte: Notícias da UFSC