*Por Julian Borba
Em junho de 2024 publiquei neste Boletim um artigo sobre a profunda crise vivida pela UFSC. À época, o foco era a greve e a exposição pública das fragilidades institucionais. Hoje, em meio ao processo eleitoral para a Reitoria, aquele diagnóstico se torna ainda mais atual. A eleição não é ou deveria ser apenas uma disputa entre nomes, mas uma escolha entre projetos institucionais, sobretudo, entre a continuidade de um padrão de mediocridade na gestão e a reconstrução da universidade.
A crise da UFSC não pode ser explicada apenas por restrições orçamentárias ou ataques externos. Trata-se de uma crise mais profunda, relacionada ao modo de gestão e à ausência de liderança institucional. Ela se manifesta quando a falta de projeto vira rotina; quando a comunicação institucional se limita à autocelebração; e quando a Reitoria passa a se orientar pelo corporativismo, em detrimento do interesse geral e dos fins da universidade.
Em termos concretos, esses problemas se materializam em prédios degradados, na ausência de contratos básicos, em cursos (e campus) esvaziados, na queda contínua no número de inscritos nos processos seletivos, nas vagas não preenchidas, na estagnação na avaliação dos Programas de Pós-Graduação, na não aprovação (inédita!) em editais de internacionalização e nos índices alarmantes de evasão, para citar alguns exemplos. Mesmo considerando as restrições orçamentárias, esse conjunto de problemas ultrapassa o episódico e conforma um quadro de deterioração do funcionamento institucional.
Defender a Universidade, portanto, não é apenas protegê-la de críticas externas, mas defender a UFSC de um modo de condução que vem corroendo seu desempenho administrativo, sua autoridade moral, sua imagem pública e o orgulho de pertencimento a essa comunidade acadêmica.
A UFSC é um patrimônio público de Santa Catarina e do Brasil. Formou gerações, produz conhecimento relevante e contribui decisivamente para o desenvolvimento científico, cultural e social do estado. Esse legado não pode ser administrado com descaso. Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir, dentro e fora da universidade, sentimentos de constrangimento, frustração e até mesmo de revolta associados à instituição. Perde-se, aos poucos, algo fundamental: o orgulho de ser UFSC. E isso não se recupera com slogans ou discursos autorreferentes, mas com liderança, projeto institucional e compromisso com padrões de excelência.
É nesse contexto que se insere o papel de uma candidatura de oposição. O desafio é construir uma alternativa ao continuísmo de um modelo de gestão que se mostrou incapaz de responder aos desafios centrais da universidade. O fundamento para esse novo projeto deve ser a convicção de que podemos reconstruir essa instituição, enfrentando de frente os desafios políticos, administrativos e acadêmicos que estão colocados, e que não são poucos.
A eleição para reitor é um momento decisivo. Defender a UFSC hoje é recusar a mediocridade como destino, valorizar seu legado e assumir, coletivamente, a responsabilidade por seu futuro.
*Julian Borba é professor do departamento de Sociologia e Ciência Política (CFH/UFSC)
Artigo recebido às 11h15 do dia 3 de fevereiro de 2026 e publicado às 12h18 do mesmo
