Uma filosofia transdisciplinar, sistêmica e teísta

*Por Raul Valentim

A realidade vivenciada pela humanidade é essencialmente transdisciplinar e a vida existente na Terra mostra-se sistemicamente organizada, propiciando interações, entre seres vivos e materiais inorgânicos apropriados, para assegurar uma permanente e diversificada coexistência ecológica das diferentes espécies, que aqui vivem ou já viveram, cujo total é estimado em vários milhões. 

Nos ambientes universitários de pesquisa avançada, observa-se um fracionamento da realidade observada para facilitar a obtenção de conhecimentos científicos aprofundados. Neste contexto, advogo que a filosofia pode e deve assumir um posicionamento transversal, aglutinante e holístico capaz de reassumir o papel de vanguarda que ocupou nos primórdios da humanidade.

A ciência começou com pensadores questionadores que passaram a desvendar saberes existentes na realidade terrestre e cósmica. Assim, as leis da física e suas expressões matemáticas foram descobertas. Também na química e na biologia foram constatadas propriedades e adequados relacionamentos qualitativos e quantitativos. As matemáticas inerentes a todos esses campos sempre estiveram vinculadas a uma lógica apropriada.

Especialmente durante o iluminismo, pensadores famosos propuseram o deísmo como uma doutrina que, utilizando a razão e considerando as constatações científicas conhecidas, chegava à conclusão que deveria existir uma Entidade criadora e organizadora do universo e da vida na Terra. O avanço extraordinário dos conhecimentos científicos torna este posicionamento bem melhor fundamentado na atualidade.

Assim, por exemplo, as gestações, com as respectivas lactações, observadas em mais de 5 mil diferentes espécies de mamíferos já criam enormes problemas de viabilidade racional destes processos sem a inclusão de intervenções adequadas de um Ente idealizador e criador. A troca periódica de carapaças nas cerca de 7 mil diferentes espécies de caranguejos, nos respectivos processos de crescimento, com a adequada absorção de materiais, coloca-se como outro enorme desafio racional no contexto do ateísmo.

Os desafios lógicos impostos pelos cabrestos dogmáticos do ateísmo se acentuam perante as modernas teorias vigentes da mecânica quântica e da genética biológica. Partículas elementares com quarks, bósons e gluons constituem todas as formas da matéria, incluindo, por exemplo, ossos e hormônios. Os genes detêm todos os saberes da biologia, incluindo aqueles ainda não descobertos pelos cientistas humanos. Neste contexto, um conciliador posicionamento agnóstico já seria suficiente para criar uma extraordinária área de maior liberdade acadêmica.

Os sistemas digestivos dos animais, novamente como exemplo, processam diferentes alimentos e, comandados por diferentes cérebros, extraem as substâncias e elementos químicos com especificidades apropriadas para cada uma das cerca de 8 milhões de espécies de animal. Estes nutrientes são levados e absorvidos pelos órgãos em diversas partes do respectivo organismo. No corpo humano adulto, em cada momento estão ativas mais de 30 trilhões de células que precisam absorver, dentre uma grande multiplicidade de substâncias, oxigênio e glicose. 

Os 206 ossos do corpo humano têm localizações e formatos específicos, sendo conectados, entre eles, por ligamentos e com os músculos através de tendões. Estas ligações são essenciais para as locomoções e para a estabilização das articulações. Formam assim complexos sistemas que, especialmente durante o crescimento, exigem avançados saberes de física, de química e de matemática que são integralmente disponibilizados pelos genes que compõem o genoma humano. Da mesma forma, outros animais, como elefantes, apresentam diversificados sistemas locomotores integralmente criados, acionados e comandados pelos respectivos genes.    

Os processos de reprodução de animais, envolvendo comportamentos, geneticamente incorporados, bastante diferenciados, como acasalamentos, construção de ninhos e proteção de filhotes, geram também múltiplos desafios para as possíveis explicações não teístas. Diferentes espécies de baleias, controladas por informações genéticas, deslocam-se para águas mais quentes para que suas crias tenham condições de sobrevivência enquanto não adquirem uma suficiente proteção de gordura. 

O professor brasileiro de física e astronomia, Marcelo Gleiser, que atua nos Estados Unidos e que é membro da Academia Brasileira de Filosofia, concluiu sua entrevista, publicada em 08/02/2026, afirmando que: “Um agnóstico é aquele que é aberto ao não saber. Não é o cara que dogmatiza e diz que Deus não existe. Afirmar isso viola o método científico porque você não tem evidência empírica para provar a não existência.”

 Vale acrescentar que a grande maioria dos humanos, de alguma forma, acredita na existência de um “Deus”, especialmente entre os nossos vizinhos da América Latina. Para Marcelo Gleiser, “As respostas para as grandes perguntas da humanidade vêm de quatro pernas da cadeira existencial humana: a ciência, a filosofia, a espiritualidade e as artes. Se você não tem diálogo entre essas quatro dimensões, a cadeira cai.”

*Raul Valentim é professor aposentado do CTC/UFSC

Artigo recebido às 00h14 do dia 9 de fevereiro de 2026 e publicado às 8h10 do mesmo dia