Sobre escolhas

*Por Fábio Lopes

Levo a vida que pedi a Deus, com direito a alguns bônus que nem havia incluído em minhas orações. Do que mais eu precisaria além de algum conforto material e uma profissão que me franqueia uma liberdade sem paralelo em toda a Via Láctea? Seria bem fácil para mim me fechar em minha redoma e dar uma boa banana para a brutal crise que assola a UFSC. Para que perder tempo com o que parece não ter conserto? Para que escrever artigos como este? Para que me indispor com os responsáveis maiores por esse estado de coisas? Para que passar pelo constrangimento de ser chamado de incendiário, misógino e racista por gente poderosa que prefere estigmatizar o carteiro a se olhar no espelho e encarar a própria miséria?

O diabo é que não consigo me abster. Vejo-me diante desta UFSC em ruínas e sou impelido a apontar o dedo para a colossal incompetência de nossos gestores.

Convido os colegas a circular pelo campus Trindade durante o recesso escolar. Os prédios e ruas vazios dão-nos a chance de observar com mais nitidez e atenção a impressionante degradação que nos espera no início do próximo semestre. A sensação é a de que estamos diante de uma cidade devastada por um acidente nuclear ou uma peste. O mato cresce por toda parte, como se até o capitão já tivesse abandonado o navio.

Tudo recende a decadência, desamparo. Custo a acreditar que, em um par de semanas, aqueles espaços abrigarão milhares de jovens na flor de seus pecados, como diria o pai de Hamlet. Claro, daremos um jeito de conviver com tanta insalubridade e desmazelo. Os alunos decerto também encontrarão uma maneira de suportar os dias e noites que passarão inter feces et urinam na UFSC. Mas não nos enganemos: isso é coisa muito diferente de uma experiência pedagógica digna desse nome.

Submeter os sonhos de nossos estudantes ao choque de deparar com uma instituição em frangalhos é um convite ao niilismo, à depressão, ao desânimo, ao desespero. A UFSC foi fundada há 65 anos para produzir algo ainda mais precioso do que a arte e a ciência que estão em seu brasão: uma ideia de futuro, uma promessa de que a vida pode ser mais justa, humana e feliz do que é hoje. Ora, é óbvio que esse projeto está atualmente soterrado sob os entulhos da soi-disant quarta melhor universidade do país.

A verdade, no entanto, é que a aparência física do campus é só a ponta do iceberg. A rigor, ela apenas reflete uma destruição muito mais profunda, que atinge em cheio a nossa consistência institucional.

Assistam ao vídeo de alguma das muitas sessões abertas do CUn. O que vocês verão é uma amostra do caos em que estamos mergulhados. Multidões indômitas berram nos ouvidos de conselheiros apavorados. Pautam as discussões os que exibem músculos mais proeminentes e dentes mais afiados. Vencem os debates os que gritam mais alto. A falta de modos e o desrespeito a regimentos e estatutos são aplaudidos como se fossem golaços em um Fla-Flu.

O reitor assiste a tudo com a expressão neutra de um personagem criado pela IA. Ele pareceria inumano em sua passividade, não fosse esta regida por interesses eleitorais muito concretos, que, aliás, ninguém faz a menor questão de esconder.

Quem acha que a balbúrdia no CUn é só um fato distante e isolado que examine as próprias rotinas. Sabe aquele medo que você tem de dizer em público certas coisas? Sabe a sua decisão de não ser notado, de andar rente às paredes, de ficar na sua mesmo quando testemunha absurdos acontecendo bem debaixo de seu nariz? Sabe aquele processo que atrasa, aquele dia em que você precisa de um serviço e não encontra ninguém no setor? Sabe aquele aluno que deveria ser reprovado mas você acaba passando adiante para não se incomodar? Sabe aquele colega docente que falta às aulas com olímpica indiferença sem que você encontre forças para confrontá-lo?

Pois é. Estou há trinta e dois anos na UFSC e posso garantir que não era assim. Não que vivêssemos no Paraíso, longe disso – mas, de novo, não era assim. E agora – muito recentemente, na verdade – ficou assim pelas mesmas razões que explicam por que o CUn está do jeito que está. Pelas mesmas razões por trás da condição deplorável das instalações em que trabalhamos.

A coisa chegou a um ponto tal que nos prostramos até diante dos boletos extorsivos da Unimed. Nada menos do que a nossa saúde e a saúde de nossos dependentes – filhos, pais, companheiros e companheiros – estão ameaçadas por cobranças abusivas cujo valor até agora não sabemos muito bem até onde pode chegar, porque mesmo as explicações a esse respeito nos são sonegadas.

Quem quiser culpar o Capital por isso que o faça. Mas a verdade é que os perpetradores estão bem mais perto de nós, no prédio da reitoria, sob a proteção de gordas CDs. Foram eles que se mostraram incapazes de fazer uma nova licitação. Foram eles que nos meteram nesse beco sem saída com a Unimed. E sabe por quê? Porque eles têm certeza de que até isso você vai aguentar calado. Eles têm certeza de que o seu medo triunfará. Eles têm certeza de que o rolo compressor que eles mantém funcionando é capaz até de fazer com que você vote neles na eleição que acontecerá no início de 2026.1.

Ainda mais deletéria e surreal do que a destruição patrocinada pelos nossos gestores é a imensa cara de pau que eles têm de se recandidatar aos cargos. Em um mundo moralmente normal, essas pessoas deveriam estar usando cilícios nas coxas a pedir perdão ao Senhor por seus pecados. Em vez disso, acham-se no direito de nos submeter a mais quatro anos de pura insanidade.

Como desgraça e desfaçatez poucas são bobagem, dividiram-se em dois grupos que vão gastar os próximos meses a se acusarem reciprocamente pelo desastre que juntos produziram.

Não se engane: para que essa maluquice prospere, eles precisam te deixar maluco também, e isso é uma escolha. Isso ainda é uma escolha.

*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC

Artigo recebido às 14h48 do dia 11 de fevereiro de 2026 e publicado às 8h07 do dia 12 de fevereiro de 2026