*Por Ubirajara F. Moreno
A universidade é tradicionalmente compreendida como um repositório de conhecimento. Ser repositório do conhecimento implica também preservar a memória, não apenas a memória intelectual produzida ao longo do tempo, mas a memória institucional, feita de decisões, conflitos, escolhas e trajetórias que moldaram a própria universidade.
Não há identidade universitária sem memória. E, quando essa memória se torna seletiva, a própria identidade institucional se fragiliza.
Nos debates recentes sobre participação feminina na gestão universitária, muitas vezes tem-se a impressão de que esse é um fenômeno novo na Universidade Federal de Santa Catarina. A narrativa corrente sugere que a presença de mulheres nos mais altos cargos administrativos seria um marco recente, quase inaugural.
Aos discentes e aos professores mais jovens da UFSC, cabe uma pergunta simples: vocês sabiam que, entre 2012 e 2016, a universidade foi dirigida por duas mulheres?
Vocês sabiam que a Reitoria foi exercida pela professora Roselane Neckel, do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), tendo como vice-reitora a professora Lúcia Helena Martins Pacheco, do Centro Tecnológico (CTC)?
Vocês sabiam que essa composição simbolizou uma convergência institucional entre áreas tradicionalmente vistas como antagonistas, as Humanidades e a Tecnologia, demonstrando que a universidade se constrói na pluralidade de seus campos?
Contrariando muitos prognósticos da época, aquela chapa venceu uma eleição altamente competitiva e assumiu a condução da universidade propondo mudanças estruturais. Como toda gestão universitária, teve acertos e erros.
Durante aquele período, foram concluídas ou impulsionadas obras importantes de infraestrutura, como o Prédio II da Reitoria. Houve a implantação do campus de Blumenau, no contexto de expansão pactuada com o MEC, bem como a consolidação institucional dos demais campi fora de sede, que passaram a ocupar de forma mais estruturada seu lugar na universidade. Foi também naquela gestão que se instalou a Comissão da Verdade e Memória da UFSC, iniciativa cujos desdobramentos tiveram grande repercussão institucional recentemente.
Este artigo não é uma defesa daquela gestão. Como em qualquer administração universitária, não faltaram críticas, tensões e discordâncias legítimas. Universidades são, por definição, espaços de conflito de ideias e projetos.
Ao tensionar estruturas consolidadas e enfrentar práticas institucionalmente sedimentadas, a gestão das professoras Roselane e Lúcia provocou reações intensas. O preço político foi alto: houve ataques internos e externos, alguns dos quais carregavam componentes claramente misóginos. O exercício da liderança feminina encontrava resistências que ultrapassavam o debate estritamente administrativo — e esses tensionamentos deixaram marcas que, em certa medida, ainda hoje produzem reflexos na vida institucional da universidade.
Mas o que chama atenção é outra coisa: o silêncio.
A raridade com que aquela experiência é mencionada nos debates atuais. A ausência quase completa de referência a essa gestão quando se fala da trajetória das mulheres na administração da universidade. A impressão, por vezes, de que esse período simplesmente não existiu.
O silêncio institucional não é neutro. Quando experiências de liderança feminina deixam de ser reconhecidas como parte da história da universidade, perde-se também a oportunidade de aprender com elas. A memória não serve apenas para registrar feitos; serve para iluminar padrões, revelar excessos e corrigir distorções.
Ao não resgatar com clareza os ataques e resistências enfrentados naquela gestão, inclusive aqueles marcados por vieses de gênero, corre-se o risco de naturalizar comportamentos que deveriam ter sido superados. Talvez, se tivéssemos elaborado institucionalmente o que aquelas professoras enfrentaram, hoje fôssemos menos tolerantes com ataques que ultrapassam o debate administrativo e resvalam para dimensões pessoais ou marcadas por desigualdades históricas.
Instituições amadurecem quando reconhecem seus conflitos e aprendem com eles. O esquecimento, ao contrário, tende a perpetuar padrões.
A história da participação das mulheres na gestão da UFSC passa, necessariamente, pela Reitoria exercida pelas professoras Roselane Neckel e Lúcia Helena Martins Pacheco. Essa é uma página da história institucional da universidade, e páginas da própria história não podem ser simplesmente ignoradas ou apagadas.
Reconhecer isso não significa uniformizar avaliações nem eliminar divergências. Significa preservar a integridade da memória institucional.
E, olhando para a próxima eleição, que não haja retrocessos. Que a presença de mulheres nos principais cargos da gestão, na Reitoria ou na Vice-Reitoria, seja compreendida não como exceção ou novidade, mas como parte legítima da trajetória que a UFSC já construiu.
*Ubirajara F. Moreno é professor do Departamento de Engenharia de Automação e Sistemas da UFSC
Artigo recebido às 7h26 do dia 27 de fevereiro de 2026 e publicado às 9h38 do mesmo dia
