*Por Adriano Duarte
É preciso dizer não!
Toda vez que se aproxima uma nova eleição para o cargo mais importante da universidade, eu me pergunto: o que seria necessário para ser um bom reitor? Com certa dose de pretensão arrisco uma reflexão, que fui modificando ao longo do tempo: em primeiro lugar, é fundamental ser capaz de compreender a complexidade dessa instituição. Entender que temos muitas universidades operando e interagindo ao mesmo tempo; temos uma cujo vínculo com o mercado é sua razão de ser; mas temos outra que, por não servir aos interesses imediatos do mercado, de modo geral, fica relegada a uma espécie de segundo plano. A primeira, encontra recursos mais facilmente; a segunda, depende daquilo que se chama poder público e os recursos são sempre muito escassos, porque mais disputados. Mas ambas são partes inseparáveis desse complexo chamado universidade. Um reitor precisa entender essa interação complexa, difícil e nem sempre justa. Em segundo lugar, o reitor precisa compreender o papel da universidade na cidade em que se situa. Numa cidade como Florianópolis, o orçamento da universidade está próximo do orçamento do município e sua importância como instituição deveria estar à altura dessa condição (simultaneamente econômica e política), porque nela estão os melhores quadros técnicos e humanos da cidade. Saber posicionar a universidade nesse quadro local, é uma questão fulcral. Em terceiro lugar, ao reitor é necessário também ser capaz de enxergar o significado da universidade no estado. O que significa ser a maior universidade federal do estado de Santa Catarina? Qual relação deve ser estabelecida com deputados, senadores e governador? Afinal, são também os elementos de conexão da instituição com o governo federal, com o congresso, com o orçamento da união. Em quarto lugar, o reitor também precisa saber como deve se posicionar diante de outros reitores e outras universidades, como deve conversar com eles, como apresentar e representar sua universidade. Em quinto lugar, é fundamental a capacidade de articular, como gestor, a visão ampla da universidade e seu papel na ciência, no ensino de graduação e pós-graduação e na extensão.
A capacidade de articular, simultaneamente e no mesmo grau de competência e profundidade, os cinco níveis: interno, local, estadual e nacional não é uma tarefa simples nem uma tarefa fácil. Do reitor se espera, portanto, no mesmo grau, capacidade de gestão, visão acadêmica, argúcia técnica e capacidade política encarnadas. Claro, o gestor nunca está sozinho, tem uma equipe de pró-reitores e, no caso da UFSC, o melhor corpo de servidores, em termos comparativos, de qualquer outra instituição no estado de Santa Catarina, mas é preciso sabedoria para escolhê-los. Mas é ele, o reitor, que deve dar o norte e estabelecer o rumo que todos devem seguir. Afinal, nenhum vento é favorável quando não se sabe a direção a seguir!
Findando seu mandato, o atual reitor não demonstrou ter nenhuma das qualidades acima referidas. Apresentou-se, na última campanha eleitoral, como um gestor capaz. Aos quatro ventos, sempre repetia que o problema da universidade não era falta de verba, era falta de gestão. Mas, ao assumir a função, revelou-se um gestor pífio e num giro mágico de 180 graus passou os últimos três anos responsabilizando o governo federal pela falta de recursos, incapaz de reconhecer o papel da sua gestão na produção dessas mazelas. A conclusão não é difícil: errou em 2022 e tenta nos iludir há três anos.
Mas, talvez, o pior de tudo seja sua gigantesca inexpressividade política. Dentro ou fora da universidade, não parece ter opinião e posicionamento claro sobre nada a não ser quando a questão já esteja decidida; aí, ele sai do seu mutismo e se posiciona (basta lembrar da sua posição sobre a mudança de nome do campus, quando a mudança já havia sido decidida). Lembremos também da sua vergonhosa atitude na última greve: depois de uma assembleia e uma votação legítima, os professores decidiram encerrar o movimento. A direção da Apufsc-Sindical enviou ao gabinete do reitor e à agência de comunicação da UFSC um ofício informando o fim da greve. Muito diligentemente a Agecom cumpriu seu papel e informou a comunidade o fim da greve. Insatisfeito com as regras da democracia, um grupo de estudantes, servidores e professores ocupou o gabinete do reitor exigindo que ele retirasse a nota das páginas oficiais da universidade. Ele não apenas acatou a exigência dos ocupantes como afastou o diretor da agência, esse simples gesto – que em condições normais seria tomado como um escândalo – estendeu uma greve democraticamente encerrada por mais trinta dias. Difícil não lembrar aqui a Macunaíma “o herói sem nenhum caráter.” Numa total ausência de coluna vertebral, se verga para o lado que grita mais, que pressiona mais. Impossível, nesse e em muitos outros tantos episódios, não evocar os Mizaru (o macaco que cobre os olhos), Kikazaru (o macaco que tapa os ouvidos) e Iwazaru (o macaco que cobre a boca).
De figura tão opaca não se pode esperar que tenha alguma inserção política na cidade, no estado ou no país. Não é difícil concluir que seu melhor momento nacional tenha sido a foto ao lado do deputado federal Tiririca. Gostaria de ser capaz de apontar duas ou três coisas positivas sobre essa gestão, mas mesmo que me esforce não consigo. Mas, facilmente seria capaz de apontar muitos equívocos. Eu poderia elencar momentos indizíveis, porque como membro da diretoria do sindicato dos professores, assisti pessoalmente a muitos momentos vexaminosos, mas vou poupar os colegas de repetir o já sabido.
Agora estamos em face do inimaginável: a mesma figura anódina como gestor e insustentável da perspectiva política se apresenta para mais quatro anos de gestão. É possível que seja eleito. Afinal, se tem uma coisa na qual ele se destaca é nas estratégias para fazer uma carreira não baseada no mérito ou no talento, mas no uso certeiro das regras, leis e dispositivos de ascensão funcional.
A cada aparição pública sua como candidato, a cada novo vídeo, a cada nova mensagem de campanha (está em campanha há quatro anos, embora ela tenha se intensificado nos últimos três meses), eu fecho os olhos e imagino como estará o campus depois de mais quatro anos dessa inépcia, desse descalabro, desse desdouro, dessa agonia? Quantos programas de pós-graduação serão rebaixados na próxima avaliação Capes? Qual será a altura do mato? Ainda teremos aparelhos de ar-condicionado? Em qual posição no ranking das universidades federais a UFSC estará? Quantas baratas terão sido servidas no RU? Quantas luminárias cairão nas cabeças de estudantes e professores? Quantas promessas não cumpridas terão sido feitas constrangedoras visitas aos centros?
Duvido que o candidato se importe com isso.
Para defender a universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada é preciso dizer NÃO à continuidade desse projeto nefasto!
*Adriano Duarte é professor no Departamento de História e ex vice-presidente da Apufsc-Sindical
Artigo recebido às 11h30 do dia 27 de fevereiro de 2026 e publicado às 12h07 do mesmo dia
