*Por Grazielly Alessandra Baggenstoss
Na época em que o Twitter era o Twitter, havia algum padrão de comunicação que era entendido como “reclamar muito” naquela rede social. Confesso que fiz certo uso desse tipo de comunicação, já que era uma forma de conexão entre pessoas que pensavam parecido e que se ajudavam a refletir melhor determinadas questões. Naquele contexto, um dos arranjos para votação da Reitoria na UFSC, escrevi em 140 caracteres o quanto considerava contraproducente ataques pessoais e narrativas forjadas para conquistar eleitorado.
Em resposta ao meu desabafo, um ex-querido servidor riu-se e, apontando minha ingenuidade de acreditar que uma universidade é produzida com projetos político-científicos, asseverou textualmente que aquilo – ataques pessoais e criações de narrativas – era exatamente o fazer da “política universitária”.
Ali, curiosa, fiz o que uma pesquisadora social faz: observa. Observei que aquelas dinâmicas eram mesmo um tipo de modo de se fazer aquela política universitária das eleições. Percebi que as pessoas que disputavam aquele lugar de poder também tinham inclinações outras que não somente um projeto educacional coletivo; e que, talvez, a existência de um projeto educacional coletivo fosse, tão somente, a justificativa para outros objetivos de cunho político-partidários alheios à própria universidade.
Observar, naquele momento, foi uma ótima escolha. Notei, também, que aquela rede social não seria um bom local para compartilhar inquietações honestas (ou ingênuas?), e, atualmente, nenhuma outra rede social o seria, apesar de o algoritmo se alimentar (e nos alimentarmos) com o ragebait.
Lendo os textos Quebrando o teto de vidro (publicado em 26/02/2026) e Quebrar o teto de vidro: conquista histórica em processo (publicado em 02/03/2026), voltei a esse episódio e me lembrei daqueles anos pré-pandêmicos, em que comecei a estudar gênero e feminismos. E, como um bom método feminista, parto de um alinhavo particular para conversar com vocês.
Os anos pré-pandêmicos foram, de fato, tempos complicados para entender em que se confiar institucionalmente.
Apesar disso, durante as minhas orientações de estágio, algumas alunas e alunos confiaram em mim para perguntar sobre procedimentos institucionais de investigação e acolhimento em caso de assédio. Em apoio a elas e a eles, fiz a intermediação de contatar setores administrativos para saber sobre o protocolo de tratamento de violência. Uma servidora ocupante de cargo administrativo de um dos setores responsáveis por questões de diversidade, interrogou-me, em tom fofocalesco: “mas quem do Direito assediou quem?”, seguido do “aluna?! mas tem certeza?!”. Não era o caso, mas, ora, cadê o profissionalismo?
Bem, em resumo, fui atrás para buscar entender como esses eventos eram tratados na e pela instituição. Não era. E isso me era já considerado um absurdo porque, vamos lá: é uma instituição pública, deve ser regida e obedecer a leis; e há leis específicas sobre procedimentos administrativos disciplinares. Cadê o cumprimento de convenções internacionais e interamericana de direitos humanos? Mas, de alguma forma, todo esse “dever ser” ainda estava chegando ainda na UFSC: veja-se que somente por volta dos anos 2015 e 2016 que foram instauradas a Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidade (SAAD) e a Corregedoria, que, inclusive, deu início aos processos administrativos disciplinares de investigação de assédios.
Nessa mesma época, reuni algumas alunas de graduação e pós graduação e começamos a estudar Direito das Mulheres e, posteriormente, Direito e Feminismos. Tivemos força coletiva de produção, extensão e intervenção administrativa, inclusive de participação e capacitação em outras instituições, como IFSC, Hospital São José, OAB, TJSC, dentre outros. E, claro, tivemos parcerias muito frutíferas na própria SAAD e na Corregedoria. Fizemos eventos, cinedebates, capacitações e instruções a docentes e corpo técnico. Fui conhecendo pessoas que, a despeito daquele fazer política universitária, estavam construindo, com fôlego, competência e fé (por quê não?!) um projeto de universidade com diálogo e político-científica.
Em tal fluxo, fui inserida em grupos feministas de pesquisas e extensão e expandindo contatos dentro da universidade.
Por esses contatos, fui incentivada pela minha professora orientadora e pelo meu professor coorientador, no meu segundo doutorado (em Psicologia), a estudar política institucional, especialmente a universitária (além dos processos de subjetivação, que foram nucleares na pesquisa). Esse mesmo incentivo também me orientou a direcionar os estudos para apresentar à universidade uma política de gênero, ou alicerces para a sua construção.
Aí já estávamos na pandemia e, como todas e todos, eu estava cansada, com a minha carga horária bem abastecida, sem a redução de carga horária. E eu também estava na Comissão Temporária para estruturação de planos para equidade (Portaria de 22 de janeiro de 2021), em que achei pertinente me manter, dados os meus estudos.
Ali pelo final do primeiro ano da pandemia, sou contatada por uma professora de um dos grupos feministas institucionais. Ela me orienta a assumir uma demanda administrativa de uma das diversas atividades do grupo. Perguntei qual seria a carga horária e que, dependendo, poderia negociar para o próximo semestre com minha chefia. Para minha surpresa, ela informou que não tinha carga horária. E reforçou que, caso eu quisesse me manter naquele grupo, deveria assumir algum encargo, com ou sem carga horária. Agradeci o contato, e neguei qualquer atribuição de atividade administrativa – o que, nesses moldes, caracterizava assédio moral.
Obviamente fui retirada dos quadros de pesquisadoras e meu núcleo, também, dos coletivos de grupos de pesquisas vinculados àquele grupo. É o preço do jogo, ok.
Pulo para 2022, que foi uma loucura: retorno ao presencial, 3 semestres por ano, final da tese, minha mãe com metástase. A Comissão Temporária passou a ser Comissão Permanente de Equidade, vinculada à SAAD (Portaria Normativa Nº 412/2021/GR, De 14 de outubro de 2021, que dispõe sobre a criação da Comissão Permanente de Equidade, vinculada diretamente à Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidades), e eu tinha sido nomeada, com muita satisfação (Portaria n° 003/SAAD/2022, de 09 de fevereiro de 2022).
Naquele ano, houve outra mudança: votação para Reitoria, mudança da gestão do Professor Doutor Ubaldo para a gestão do Professor Doutor Irineu e da Professora Doutora Joana. Pareciam que bons ventos nos sopravam depois de anos (pareceram décadas) de sofrimento, injúrias e ódios proliferados dentro e fora das redes sociais contra a universidade e a ciência. Havia, enfim, uma esperança de nos fortalecermos enquanto instituição e, finalmente, minha tese poderia compor um plano de equidade para a mesma.
Conversei com as membras da Comissão que haviam sido nomeadas comigo e decidimos começar os trâmites das funções administrativas, mesmo sem convocação da nova gestão. Ora, precisávamos iniciar os diálogos. Fizemos três reuniões com servidoras da nova gestão: apresentamos nossos pontos e nossas ideias, mas nada resolutivo, pois queríamos a parceria daquela equipe. Ouvimos o famoso “vou ver e te aviso”. Não fomos avisadas.
No segundo semestre de 2022.2, saí de licença para os cuidados paliativos da minha mãe e, após, pelo seu falecimento. Ao retornar, deparo-me com fotos da gestão e com outras professoras também de relevância em estudos de gênero, com a legenda: reunião para a formação da Política de Equidade na UFSC.
Bom. Nitidamente, algo que errado não estava certo. Contatei as colegas da Comissão Permanente e percebemos que nenhuma de nós havia sido notificada para os trabalhos. Provocamos, assim, via email, uma reunião para os encaminhamentos, a qual fora chamada somente no final de janeiro de 2023.
Naquela reunião, foi-nos explicado que a Comissão de Equidade havia sido extinta e que, ali, estávamos sendo convidadas a participar de um Grupo de Trabalho – GT. E que não havia carga horária. Insistimos em entender o que seria esse GT e qual a institucionalidade dele, já que havia sido extinta uma Comissão com muito potencial e fruto de um trabalho hercúleo de um ano de diversas pesquisadoras de gênero, inclusive decanas da universidade. Ouvi da ex-vice-Reitora, em um tom que eu não entendi, “mudanças não se fazem somente dando aulas”. Confesso que não entendi essa frase, nem o seu contexto específico. Enfim.
Na segunda reunião (e última) que participei, foi-nos explicado que o GT era temporário, com foco específico em determinadas atividades, e que não tinha carga horária porque se caracterizaria em uma “ajudinha” nossa. Ali, eu já não estava com tanta graça, informei que estava admirada por uma equipe com a proposta temática do GT não entender a gravidade e a caracterização de assédio moral na oferta de um trabalho (a) não remunerado e (b) qualificado como “ajudinha”. A universidade merece muito mais que ajudinha; assim como toda a sua comunidade merece reconhecimento devido e simbólico pelo seu trabalho.
O preço desse jogo foi o fechamento progressivo de portas dentro da instituição. Encerraram-se as parcerias institucionais, cinedebates e espaços de diálogo formal dentro da universidade. As interlocuções passaram a ocorrer, sobretudo, em âmbitos interinstitucionais, fora da UFSC. Diante disso, comecei a compartilhar, com outros colegas docentes e pesquisadoras, se a tentativa de intervenção institucional, ancorada em pesquisas sérias e consolidadas, ainda valeria a pena quando confrontada com práticas reiteradas de deslegitimação e precarização do trabalho acadêmico (que é estrutural nessa lógica neoliberal que vivemos).
O que essa trajetória evidencia não é um conflito pessoal nem uma divergência pontual de gestão, muito menos o estabelecimento de defesa de um lado ou de outro. Essa trajetória evidencia um modo recorrente de funcionamento da política universitária. Convoca-se trabalho altamente qualificado, especialmente de mulheres, sem reconhecimento formal, sem carga horária e sem institucionalidade. Quando há recusa a essas condições (que configuram exploração e assédio moral, seguem-se o silenciamento, a exclusão dos espaços outrora reconhecidos e nomeados e o fechamento simbólico e material de reconhecimento e oportunidades. E isso não é somente praticado por homens, mas é também praticado por mulheres que negociam um projeto que não subsiste em nenhum projeto sólido de universidade.
Esse modo recorrente é, portanto, uma dimensão de teto de vidro institucional. A excelência acadêmica é bem-vinda enquanto legitima discursos, projetos e imagens públicas; torna-se incômoda quando se impõe um reconhecer profissional, compartilhamento de lugar político e compromisso efetivo com a construção de uma universidade pública que respeite, valorize e institucionalize o trabalho de seus próprios quadros. Não há como sustentar entusiasmo, pertencimento ou compromisso coletivo diante do desrespeito institucional. E aqui falo da instituição enquanto estrutura organizacional, e não apenas de gestões transitórias; uma instituição que insiste, via homens e mulheres em cargo de gestão, em tratar como “ajudinha” aquilo que exige responsabilidade, qualificação e trabalho efetivo.
Aqui, de certa forma, concordo com a Profa Joana que não se faz mudanças somente dando aula (repito, concordo em parte porque não entendi as intenções dela naquele momento). Não se faz mudanças efetivas somente com pesquisa também1. É necessário um trabalho de reflexão pessoal e coletiva tão complexo que, honestamente, creio que muitas pessoas não o façam e prefiram cooptar pautas tão viscerais como a questão de gênero para criar narrativas e projetar gestões que vão patinar na estrutura organizacional, repetindo mais do mesmo.
Dentro dessa estrutura com tal cultura organizacional, o que é possível fazer, portanto? Da minha parte, reconhecendo-se como uma jovem senhora latino-americana, professora que completará 13 anos de instituição, sendo, desses, 10 anos com pesquisa em Estudos de Gênero e Feminismos, insisto que mudanças se fazem dando aula; e se levando a sério o compromisso da docência, com respeito a cada vida e a cada realidade em seu projeto de formação profissional que nos é apresentado; insisto que mudanças se fazem na pesquisa, com investigações que realmente façam algum sentido social. Insisto, ainda, para que, malgrada a ausência de reconhecimento pelo qual nós, docentes, passamos nos últimos anos, dentro e fora da instituição, tenhamos fôlego para esses e outros trabalhos, com seriedade, cientes da relevância de nosso trabalho, comprometido com os pressupostos educacionais de uma universidade pública.
A minha escrita aqui, então, é uma fé naqueles cansados e naquelas exaustas, que muitas vezes não conseguem nem nomear por quais dinâmicas institucionais estão passando, mas que sabem que tudo, de alguma forma, poderia ser diferente – tanto interpessoal, quanto institucional e estruturalmente.
É meu registro também para que a pauta de gênero não seja, mais uma vez, sugada como pauta moral para ataque pessoal ou narrativa forjada para conquistar eleitorado do fazer desse tipo de fazer a política universitária que muitos nunca vão entender, porque acreditam em um trabalho que saiba aliar exercício de poder com relações profissionais sóbrias e com aproveitamento de talentos.
E vamos lá: todas e todos têm teto de vidro e o fomentam diuturnamente, entrando ou saindo gestão. Partindo dessa realidade e alcançando alguma maturidade, acredito que podemos fazer algo. Mas, como diria a Pitty: “Bem certos que a verdade cabe na palma da mão; mas isso não é uma questão de opinião […] E isso é só uma questão de opinião”.
- Lembrei-me de um causo em uma capacitação dentro da universidade. Ao apresentar algumas dados relacionados a abusos contra alunas em instituições universitárias, uma pesquisadora de um dos grupos feministas da instituições, apavorada com aquelas estatísticas, perguntou-me por que eu (por ser inicialmente do Direito) não havia feito nada. E eu falei: “eu estou fazendo, aqui, com vocês”. E perguntei “por que vocês, com tantos anos de pesquisas em estudos feministas, ainda não fizeram nada aqui?”. Era uma pergunta sincera, pois ainda não tinha entendido que não é porque uma pessoa pesquisa sobre feminismos ou qualquer tema que se proponha antidiscriminatório ou igualitário, que as práticas dessa pessoa, inclusive suas publicações, terão algum condão emancipatório. ↩︎
*Grazielly Alessandra Baggenstoss é professora do Departamento de Direito e do Programa de Pós Graduação em Psicologia da UFSC
Artigo enviado às 21h59 de 2 de março e publicado às 10h20 do dia 3 de março de 2026
