*Por Fábio Lopes
Entrei na UFSC como professor efetivo há exatos 32 anos. De lá para cá, já vi e vivi muitas coisas, mas nada parecido com o clima de medo e intimidação que hoje reina na instituição. Regra geral, as pessoas permanecem caladas. Se eventualmente abrem a boca, cada palavra dita é mil vezes calculada, medida, filtrada. A ideia de que possam ser alvo de processos, represálias, perseguições e cancelamentos assombra docentes, TAEs e estudantes. Quase ninguém ousa dizer a céu aberto o que realmente pensa.
Isso vale para diversos temas sensíveis. Há, por exemplo, uma insatisfação geral com certos valores hoje dominantes na universidade, assim como com numerosos aspectos de nossa cultura organizacional. Mas poucos são os que se aventuram a verbalizar suas opiniões em artigos e fóruns acadêmicos. Tudo a esse respeito é sussurrado nos corredores. Olhares angustiados vigiam o ambiente ao redor à procura de eventuais delatores e inspetores de quarteirão.
Também o reitor provoca contrariedade, frustração e indignação em muita gente. Mas, de novo, quase ninguém tem coragem de tratar do assunto livremente.
Fiquei, por isso, perplexo com um texto da jornalista Elaine Tavares que tem circulado nas redes sociais.
Argumenta ela que o reitor é vítima de ofensas e ataques inéditos na história da UFSC.
Não sei de onde ela tirou essa ideia absurda. Se há uma coisa que a universidade vem perdendo a olhos vistos nos últimos anos, é precisamente a capacidade crítica, a disposição de chamar as coisas pelo nome, a firmeza em questionar nossas lideranças, em responsabilizá-las por seus erros e limites.
A fim de impingir-nos sua curiosa tese, o libelo de Tavares falsifica impiedosamente o passado.
Onde estava a autora quando a Profa. Roselane era diariamente ofendida, assediada, pressionada? Não leu ela os saudosos Boletins da Apufsc à época em que nosso sindicato colocava o Prof. Rodolfo contra a parede em episódios como a crise do curso de pós em Engenharia de Produção? Esqueceu-se Tavares das ocupações estudantis da Reitoria na gestão do Prof. Lúcio, que por semanas o impediram de ter acesso à sua sala de trabalho? Perdeu ela a memória das denúncias feitas no CUn e dos incontáveis artigos contra o Prof. Paraná quando se descobriu que ele não era DE? E o que dizer da Operação Navalha, que o acusou de compra de votos estudantis? Apagou-se de sua mente a virulência com que um grupo de jovens docentes tocava o terror na cena pública ufisquiana nos anos 1990 e 2000? Até mesmo a metralhadora giratória de Nildo Ouriques – nosso líder na ocasião e até hoje amigo de Tavares e meu também – desapareceu dos arquivos da escriba? Não mais se recorda ela das agressivas interpelações que o Sintufsc perpetrava contra o Prof. Ubaldo? As imprecações endereçadas a seus pró-reitores – devidamente filmadas e publicadas nas redes sociais – se perderam na noite dos tempos?
Não se iludam nem mesmo com o sentimentalismo que escorre do texto de Tavares como mel: até o Prof. Cancellier – cuja morte fez desaparecer seus inimigos históricos e é pela ducentésima vez pranteada por ela – não conheceu tréguas quando ele era reitor. Ouso dizer que, entre os que hoje lamentam o seu funesto destino, não falta gente que no calor da hora comemorou alegremente sua prisão.
Não, Elaine Tavares, o Prof. Irineu não é vítima de nada. Ele é, antes, poupado de um modo que reitor nenhum foi.
Não me venha com essa conversa mole de que o elitismo docente rejeita o datilógrafo que, por seus méritos e amor à instituição, galgou postos até chegar aonde chegou. Se o Prof. Irineu é julgado hoje – e com que pudores e precauções isso acontece! –, é por seus atos como reitor, quer dizer, como o mais poderoso personagem da UFSC, não por seu distante passado de TAE.
Não tente transformar o Prof. Irineu de novo em TAE (dessa experiência longínqua ele guarda apenas a aposentadoria, que, somada ao salário atual, ultrapassa o teto do funcionalismo e só é paga graças a ação na Justiça). Não passe a vergonha de, ato contínuo, reduzir os TAEs a coitadinhos. Não se dê ao ridículo de querer produzir à força uma rivalidade da categoria com os professores malvados. Os TAEs ou ex-TAEs que merecem críticas têm nome, sobrenome e CPF. Ademais, eles não são questionados por serem (ou por um dia terem sido) TAEs mas por fazerem parte da gestão e estarem em posições que os tornam responsáveis pelo que estamos passando. Foi escolha do Prof. Irineu virar reitor, assim como foi escolha de uma dezena de TAEs dormirem sindicalistas e acordarem em cargos comissionados. Que eles assumam o ônus disso.
Ainda sobre o passado de TAE do Prof. Irineu – tão comovidamente invocado por Tavares –, cumpre dizer mais uma coisa: a biografia do atual reitor com efeito tem lá sua beleza, mas não é isso tudo que a autora faz parecer. Seu relato oculta, por exemplo, o fato de que ele teria continuado em posições muito modestas da Administração caso não tivesse feito parte do círculo de aduladores e apaniguados de reitores notadamente conservadores (os mesmos que sempre estiveram na alça de mira da esquerda universitária, o que inclui a própria Tavares).
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Antes de concluir esta réplica a Tavares, quero retornar ao tema de que parti: o medo de dizer as coisas que atualmente prosperam na UFSC. Creio que valha a pena perguntar-nos sobre as causas desse sentimento tão pernicioso.
Por certo, o fenômeno se relaciona a fatores que transcendem a universidade. A pandemia, por exemplo, desequilibrou o psiquismo de muitos de nós, com consequências ainda não suficientemente tratadas. O tempo prolongado de confinamento e os perigos reais e imaginários de ser colhido pela Covid deixaram atrás de si um rastro de ansiedade e angústia que ainda hoje faz muitos desafios parecerem mais assustadores do que são. De resto, rompemos laços sociais, acomodamo-nos a uma vida cada vez menos presencial, corporal, o que deixa as pessoas dispersas, isoladas, perdidas.
As redes sociais completaram esse serviço. Estar nelas é ser bombardeado por postagens em que a hipérbole e o engajamento pela criação de pânico são o pão de cada dia, de cada hora, de cada minuto.
A crise mundial da democracia, por seu lado, desmoraliza formas consagradas de participação política, sem colocar nada de produtivo no lugar.
Mas há também causas locais para essa atmosfera de medo e desamparo vigente na instituição. Uma delas certamente é a personalidade do atual reitor, uma estranha combinação de enorme ambição pessoal com um vazio de ideias e projetos. Ora, a soma dessas duas características aparentemente antagônicas é explosiva. No vácuo intelectual e político que ele deixa, grupos de pressão com pautas corporativas, identitárias ou simplesmente malucas fazem a festa. Ao passo que a maior parte de nós sente pavor de dar um passo fora da linha, esses grupos são movidos por uma certeza moral sem fissuras. Estão absolutamente convencidos de que suas maneiras peculiares de ver o mundo são as únicas possíveis. E porque não têm dúvidas sobre nada, estão sempre prontos a brutalizar os ímpios e infiéis. Essa violência, por sua vez, faz sistema com as pretensões eleitorais do reitor. Quanto mais esses grupos intimidam a dissidência e cooptam os que os temem, mais votos o Prof. Irineu acumula.
Nada disso entra na conta de Tavares. E sabem por quê? Porque ela é uma dessas pessoas convencidas de que estão absolutamente certas em tudo. A colega está tão colada à sua própria visão de mundo que não percebe os grotescos furos em sua narrativa, não percebe as ofensas que seus brothers in arms disparam, não se dá conta da saraivada de adjetivos desairosos que distribuem aos adversários, das violências que cometem com a faca amolada da fé cega em que estão fazendo justiça e construindo uma UFSC melhor.
Ainda não vale tudo na construção dessa UFSC supostamente melhor. Mas estamos claramente descendo a ladeira em termos de destruição de proteções institucionais que já fazem falta a muita gente e podem, no futuro, fazer falta até a quem hoje tem a faca e o queijo nas mãos.
Tavares quer falar de violência? Que olhe, por exemplo, para o que sucedeu ao Conselho Universitário sob o império de multidões gritando, espetando o dedo na cara de conselheiros e os chamando de covardes, canalhas, fascistas, misóginos, racistas.
Ela quer falar mesmo em agressividade inaudita? Que tal mencionar o fato – este sim inédito – de, no microfone da Casa, em manifestação oficial, um conselheiro ligado ao Sintufsc ter feito piadas homofóbicas sobre outro conselheiro, para delírio da plateia que acorreu ao auditório justamente para colocar fogo no circo e ver o circo pegar fogo.
Quer mesmo ela tratar de crueldade ad hominem sem precedentes? Que atente para o que, sob o silêncio cúmplice e eleitoreiro do reitor, fizeram com o Prof. Rodolfo às vésperas de sua morte. Que observe, ademais, o espetáculo em que serviram à turba o Prof. David Ferreira Lima com uma maçã na boca.
Não, o Prof. Irineu definitivamente não é objeto particular da maledicência e brutalidade. Como eu disse, ele é na verdade poupado. Poupado graças ao medo que impera na UFSC. E poupado também porque um sindicalismo que esteve sempre pronto à inclemência com todos os demais reitores hoje silencia vergonhosamente diante dos inúmeros erros do Prof. Irineu.
*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC
Artigo recebido às 17h25 do dia 8 de março de 2026 e publicado às 9h12 do dia 9 de março de 2026
