*Por Daniel Ricardo Castelan
Esta semana, uma amiga da gestão me provocou. Disse-me umas verdades sobre as eleições, ou melhor, sobre mim. Sobre como sou visto quando assumo a posição que assumi – que, por falta de nome melhor, vou denominar “neutro”. Decidi romper a inibição e explicar-me publicamente.
Nessas eleições, decidi pelo que chamo de neutralidade porque, na verdade, guardo apreço e admiração por pessoas de mais de um campo em disputa nas eleições à reitoria. Respeito profundamente o vastíssimo conhecimento do professor Irineu sobre o Ensino Superior. Admiro sua forma ética e gentil de conduzir a política. Ouve, considera e respeita, como ninguém, os TAEs. Sabe o valor disso, que nós docentes dificilmente vemos ou entendemos, pois são eles que guardam o conhecimento da gestão universitária. São doutores e mestres em gestão ou suas áreas, titulados como nós, docentes. Irineu, em muitos aspectos, é um mestre para mim. Sua arte política será importante em tempos de guerra e de autoritarismo.
Receio, contudo, que para suprir o vácuo deixado pela saída do campo progressista de sua gestão, Irineu recorra a forças que tenham laços muito próximos com um passado autoritário.
Durante o processo de mudança do nome do Campus, observei que entre o atual quadro de servidores há talvez centenas que nutram uma enorme gratidão pelo professor João David Ferreira Lima, primeiro reitor da UFSC. São pessoas que realmente se beneficiaram com a construção do Campus Trindade e da alocação de recursos financeiros e simbólicos, ou que simplesmente admiram o primeiro reitor pelo realmente importante trabalho de edificar a Universidade, junto com outros como Henrique Fontes. Alguns desses servidores, hoje, são ligados às elites da cidade que administravam a Universidade em 1964 ou seus descendentes. Naquela época, a cúpula da elite dirigente da UFSC entregou aos policiais encarregados da censura e repressão ofícios denunciando os ‘subversivos’. Ou seja, usou a autoridade do cargo para colaborar com um regime que, sem consultar o Congresso Nacional – aliás já havia ‘limpo’ com a cassação de mandatos -, inventou o crime de ‘subversão’ para intimidar e perseguir servidores como nós – professores e técnicos – de campos políticos distintos do seu. João David matou assim, o pensamento livre e a pluralidade na Universidade que nascia. Esse quadro atual de servidores que guardam respeito, gratidão pelo professor João Davi, devem ser respeitados em sua lembrança afetuosa pelo primeiro reitor, e também devem ser compreendidos em sua tristeza por ver o orgulho público por alguém que respeita e admira ser questionado. Mas precisamos continuar com o trabalho pedagógico em favor da democracia, o que implica continuar com os trabalhos de verdade histórica, memória, justiça e reparação. Essa é parte de uma uma dura herança autoritária do passado, que caberá à nova gestão conduzir. Confio que o professor Moretti guarda, em si, memórias fortes o bastante para lhe renovarem as credenciais democráticas.
Faço um apelo ao professor Irineu, ao professor João e Amir – aos três candidatos -, que saibam arbitrar em nome da justiça, memória, democracia e verdade. E faço esse apelo porque há, na Universidade, forças que não sabem o peso que pode ter a repressão. Ou sabem, mas permitem-se usá-la em nome de ideais mais altos, legitimados em alguns casos por uma fé cega em uma ideia distorcida de Deus e negando a ciência (Se deuses e deusas há, elas agradecem a Universidade pela nossa teimosia custosa em salvar vidas e melhorar o mundo que alguma divindade terá criado). Faço esse apelo aos candidatos porque, no longo processo de memória e verdade que levou à revisão do nome do Campus, houve lideranças da Universidade que se reuniram com políticos locais da extrema direita que agridem a universidade e negam a ciência. Essas lideranças da Universidade devem explicações públicas: que costuras são feitas com tal campo político?
Eu confio no compromisso do professor Irineu e do professor João com a autonomia da Universidade, a liberdade de expressão e a democracia, e essa é uma bandeira que nos une. Confio que ambos não tergiversarão em ensinar sobre democracia às forças autoritárias que se manifestam em nossa universidade, sem reproduzir a violência que combatem.
Além da fé democrática que confio ver em ti, Irineu, sei que encontrará reforço na pró-reitora de graduação, Dilceane, no Raphael, do DEN/PROGRAD, na pró-reitora Simone, entre outros. Ambos têm um compromisso firme com a democracia e encontram apoio de outros tantos servidores e servidoras técnicas e docentes que fazem vigília pela democracia. Caso o Irineu ganhe, tenho certeza de que a professora e pró-reitora de extensão Olga irá trabalhar incansavelmente para os mais desfavorecidos, com uma habilidade de conduzir sua equipe de forma harmoniosa, doce, gentil, que nunca vi igual. A pró-reitora Marilise fará um trabalho impecável na Proafe, como sempre fez, com sua equipe, dando continuidade à revolução que foi o trabalho das ações afirmativas que a ex-vice-reitora Joana liderou. E o Roberto Carlos, do DME, continuará lidando com a infraestrutura externa do campus de forma competente e incansável, como faz desde o tempo em que atuava no CSE como chefe de expediente.
Mas houve um racha na gestão Irineu/Joana. Penso que o professor Irineu, ao longo de 2025, na medida em que se aproximaram as eleições, abriu-se a novas alianças, e isso diminuiu o peso das antigas que haviam composto a chapa Irineu/Joana em 2021. Ou essa expansão de alianças levantou suspeitas, pelo menos, nos aliados que deram início à gestão. O campo da Joana, antevendo a redução da sua presença na gestão e nas decisões futuras da Universidade, decidiu organizar uma nova candidatura. Imagino que pensaram que, nas eleições de 2030, sua ‘vez’ de disputar a reitoria seria atropelada por outras lideranças convidadas a compor a nova base do professor Irineu. São interpretações minhas, que compartilho em busca de respostas. As lideranças que o professor Irineu trouxe para sua base não assumiram qualquer compromisso com a Joana e seu campo em 2021, nas negociações eleitorais. As novas forças não hesitariam, portanto, em 2030, de pleitear-se como candidatos. E teriam muito apoio. Assim, em vez de perderem o bonde em 2030, o campo da Joana decidiu apear hoje e construir uma nova candidatura. Certo ou errado, o racha torna um pouco mais difícil a sustentação de um projeto democrático e progressista de universidade.
A candidatura do professor João e da Luana representa meu ideal de Universidade. Uma Universidade que está de mãos dadas com os vulneráveis, as pessoas de rua, não só como caridade, mas incentivando-os a confiar eu sua força e se organizar politicamente, autonomamente, em busca de seus direitos. Quando estive no Conselho Universitário, tinha o professor João e o professor Paulo Pinheiro Machado como professores. Aprendi muito sobre política e sobre o Brasil. Paulo me ensinou muito sobre história quando tive o prazer de dividir com ele a Comissão da Memória e Verdade. A Luana Heinen, candidata a vice-reitora, fez um trabalho brilhante, com inteligência e coragem, em defesa da memória e verdade, que reforçaram, na UFSC, um dique de consciência democrática para os tempos difíceis que virão. Sei que eles, como ninguém, sabem o peso da repressão. Eu aprendi a chorar, com eles, pelas vítimas da repressão. Choro ao escrever. Foram famílias inteiras despedaçadas. Aprendi a chorar lendo a carta do nosso estudante Marcos Cardoso, depois da tortura a que foi submetido nos anos 1970 (a carta foi publicada no lindo e intenso trabalho da Comissão da Memória e Verdade). A Comissão da Memória e Verdade foi também uma oportunidade para me aquecer na força da fé democrática da professora Carmen Müller, que participou da construção da campanha do João e Luana, junto com o Paulo Pinheiro. Com a professora Carmen, eu já havia participado da redação da Resolução de Curricularização da Extensão, em 2021, conversando com cada centro de ensino, junto com Valdir Alvim do CSE e outros parceiros de comissão. Carmen me ensinou, na prática, como fazer uma Resolução realmente democrática, construída a partir do diálogo. Sempre me disse que na democracia, o método importa muito. Então eu tenho que dizer: o professor João tem todas as credenciais para dirigir uma das maiores Universidades do país. Foi reitor duas vezes (daí talvez o conhecimento que me inspirava nas sessões do CUn) e carrega consigo as lideranças que trabalham por uma universidade democrática, inclusiva, que dá a mão aos mais pobres e não solta. Lideranças que têm longa experiência prática com políticas públicas, fortes alianças nacionais, e uma visão de universidade necessária aos dias de hoje. O professor João foi presidente da Andifes, que reúne os reitores das Instituições Federais. Nessa posição, dialogou constantemente com a burocracia e a cúpula político-administrativo do MEC. Esses laços vão ser muito necessários em um momento de corte de gastos e carestia. E contribuiu com a construção do Campus de Blumenau – acumulando a experiência na gestão da UFSC – embora isso não tenha lhe dado tanta visibilidade no campus de Florianópolis.O professor Amir, eu respeito muito. Foi extremamente gentil nas ocasiões que nos encontramos. Muito perspicaz, inteligente, atento e comprometido. É excelente gestor, eficiente e educado. Minha história consigo é curta, então menos tenho a dizer. Mas receio o apoio que Fábio Lopes, ex-diretor do CCE com quem tenho divergências éticas, lhe devota. Nas discussões sobre o nome do Campus, o ex-diretor aproximou-se de lideranças de extrema direita da cidade – reunião que nunca foi bem explicada e comprovada em fotos que circularam nas redes. Receio que, caso um regime de extrema direita se instale nas novas eleições presidenciais, e cobre da UFSC a indicação de subversivos, como aconteceu quando a extrema direita assumiu o poder em 1964, haja uma pressão para atos de censura. Sei que Fábio Lopes é um defensor da liberdade, pelos textos que escreve, por isso apelo também a ele que, caso mantenha diálogos políticos com a extrema direita, seja em defesa de nossas liberdades, e exercite a práxis. O contrário mataria a liberdade de pensamento mais uma vez na Universidade. Então apelo também para seu compromisso, professor Amir, em neutralizar as tendências autoritárias de eventuais aliados e a comprometer-se publicamente com a liberdade de expressão que talvez precisemos ter nos próximos anos. E espero que as eleições na UFSC sejam um exemplo de democracia para o estado de Santa Catarina, que muito merece. Teremos anos difíceis pela frente, e a sociedade espera de nós uma tarefa que só cumpriremos unidos e em diálogo democrático.
*Daniel Ricardo Castelan é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais (CSE/UFSC) e vice-diretor do CSE
Artigo recebido às 10h33 do dia 12 de março de 2026 e publicado às 10h55 do mesmo dia
