(Mais um) Esclarecimento ao Prof. Daniel sobre o que supostamente não está explicado

*Por Fábio Lopes

Ser um intelectual público não é o mais simples dos ofícios. A gente se expõe o tempo todo. Como respondemos aos acontecimentos no calor da hora, estamos muito mais propensos ao erro do que ao acerto. Pior ainda é fazer isso em meio à barafunda política em que a UFSC e o Brasil se encontram. Os inspetores de quarteirão estão por toda parte, ávidos por nos submeter às suas classificações estanques, que sobretudo os dispensa de ter que pensar por si mesmos. A universidade, em troca do mesmo salário, oferece planos de carreira bem menos desagradáveis do esse. 

Por falar em expor-se à crítica, o Prof. Daniel Castelán acaba de escrever um artigo em que, de passagem, menciona negativamente meu nome. Louvo-o por isso. Ao menos ele se dirige a mim em letra impressa, no que se distingue da imensa maioria de meus detratores, que prefere me difamar pelos corredores, aos sussurros.

Diz ele que diverge de mim eticamente. Isso não me incomoda nem um pouco. Nem o conheço, e trinta anos de divã me ensinaram a me livrar do Complexo de Blanche Dubois: não dependo da caridade de estranhos. A mim basta saber que minha esposa, meu filho e uns poucos amigos me consideram alguém que, mesmo cometendo lá meus equívocos, acumula nota suficiente para passar nos exames morais.

O problema é que, como prova de minha suposta infidelidade aos seus parâmetros de conduta, afirma o Prof. Daniel que “nas discussões sobre o nome do Campus, o ex-diretor [eu, no caso] aproximou-se de lideranças de extrema direita da cidade – reunião que nunca foi bem explicada e comprovada em fotos que circularam nas redes.”

Achei a passagem curiosa. Embora eu me dê ao trabalho de revelar semanalmente o que penso em artigos neste e em outros espaços, o colega Daniel parece considerar que o que faço ainda não é suficiente, de modo que eu ainda precise me explicar.

Na verdade, como se pode verificar na sequência de prints abaixo, ele está simples e descaradamente mentindo. De modo cabotino, tenta vender a narrativa de que eu teria ido sorrateiramente à tal reunião e, ato contínuo, sido descoberto graças a registros feitos no local que foram parar no Instagram e congêneres. 

O fato, contudo, é que ele desde sempre soube das razões por que eu iria ao evento, e isso porque eu mesmo antecipadamente anunciei minha intenção no grupo de Whatsapp de diretores de centro de centro, do qual o Prof. Daniel, como vice-diretor do CSE, fazia parte.

Vejam lá: algumas horas antes do encontro, digo claramente que lá comparecerei com o propósito de enfim ouvir a advogada da família do Prof. Ferreira Lima, cuja palavra estava até então sendo cassada no Conselho Universitário. Mais que isso: recomendo que todos os colegas diretores me acompanhem.

Devo dizer que conheci pessoas valorosas naquela ocasião. Dialogo com elas até hoje. Não diria que são de extrema-direita, ainda que houvesse pessoas de extrema-direita no recinto. Qual o problema disso? Ao que eu saiba, o Prof. Daniel não é de extrema-esquerda, mas certamente já esteve em muitos ambientes também frequentados pela extrema-esquerda, cujo descompromisso com a democracia não é menor do que o dos fascistas (e ao menos na UFSC, embora não no resto do país, tem produzido nos últimos anos mais degradação institucional do que sua contraparte direitista). Pelo que me lembro, o colega já foi até aplaudido e apoiado por essa extrema-esquerda, sem ligar para os milhões de assassinatos cometidos em nome da salvação da humanidade.

Uma última palavra sobre meus eventuais contatos com a extrema-direita: fui forjado pelo exemplo de figuras como Pier Paolo Pasolini, que, em matéria de compromisso com a esquerda, deixa certos esquerdistas de hoje – que preferem ser chamados de progressistas – muito para trás. Permito-me terminar este breve texto com uma citação do cineasta italiano. O excerto pertence a uma carta em que ele polemizava com Ítalo Calvino, personagem decerto muito mais palatável para os medíocres tempos em que vivemos:

“Nós devemos fazer de tudo para identificá-los [os fascistas] e para encontrá-los. Eles não são os fatais e predestinados representantes do Mal: não nasceram para serem fascistas. Ninguém – quando eles eram adolescentes e ganharam capacidade de escolha, segundo qualquer razão ou necessidade – colocou neles de modo racista a marca dos fascistas. É uma atroz forma de desespero e neurose a que precipita um jovem a uma escolha como essa; e talvez bastasse uma só experiência diversa na vida, um simples e único encontro, para que seu destino fosse diferente.” 

*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC

Artigo recebido às 15h08 do dia 12 de março de 2026 e publicado às 10h52 do dia 13 de março de 2026