O primeiro dia de aula a gente não esquece!

*Por Adriano Duarte

Quinta-feira, dia 12, o primeiro dia de aula na disciplina de pós-graduação. Como não havia sala disponível no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, fui alocado para o Espaço Físico Integrado I, sala 202. É um pouco irônico que esse espaço seja denominado de espaço integrado. Antes da pandemia, salvo engano, havia uma lanchonete no térreo, o que trazia algum elemento integrador. Não há um café em todo o prédio e para chegar a ele temos que atravessar uma mata cerrada, cuja altura chegava ao meu joelho. E o prédio, embora relativamente novo, parece estar em avançado estado de desintegração.

Antes da primeira aula perguntei na secretaria do programa de pós-graduação se eu teria computador e datashow disponíveis; a resposta foi que sim. Chegando na sala, percebi que não havia computador – precavidamente – eu havia levado o meu, mas havia sim um datashow. Não havia aparelhos de ar-condicionado, ou melhor, havia dois, um com muitos decibéis acima do tolerável, mas nenhum do dois funcionava, deixando o ambiente insuportavelmente tórrido.

Afinal, três anos e onze meses depois da posse da atual gestão não foram suficientes para produzir um edital para instalação e conserto dos aparelhos de ar-condicionado. “Tudo a seu tempo”, diria o “ágil” gestor! Haveríamos de suportar o calor.

Liguei o computador e o datashow, mas os dois equipamentos não se comunicaram. A sala tinha doze jovens estudantes muito mais capacitados do que eu para lidar com as modernidades técnicas e foram se sucedendo um a um, mas nenhum deles conseguiu sequer entender qual era o problema. Nos restava descer ao térreo e pedir ajuda ao servidor, torcendo para que não estivesse em teletrabalho. Felizmente, ele estava lá, foi muito solícito e gentil e me emprestou uma pequena extensão, informando que muitos equipamentos estavam com mal contato por falta de manutenção.

Aproveitei para ir ao banheiro e, claro, não havia nem papel toalha, nem papel higiênico… Nem limpeza havia nos banheiros, evidentemente.

Voltei à sala e fiz a conexão. Aleluia! Enquanto o suor escorria em todos nós, apresentei meu programa. Terminada essa etapa eu planejava exibir um breve documentário. Felizmente, mais uma vez eu havia levado uma caixa de som. Passados cinco minutos da exibição ouvimos uma pequena explosão. Concluímos que a lâmpada do datashow havia explodido. Desce novamente ao térreo do prédio, novamente torcendo para o servidor estivesse em sua sala. Estava e com sua gentileza habitual me informou que não tinha um novo datashow para me emprestar. A solução então foi me entregar três chaves de três salas diferentes que estavam vazias naquela hora para eu testar em qual deles computador e datashow combinassem de manter um diálogo profícuo.

Teste daqui, teste dali, conseguimos uma nova sala. Mas por alguma razão a caixa de som deixou de funcionar. Nesse caso, salvo engano meu, não há nenhuma responsabilidade da atual administração. Ufa! O som do documentário era o som que saía do próprio datashow. Paciência, o documentário era legendado.

Em resumo, de uma aula que deveria ter começado às 14h e terminado às 18h, eu ocupei exatamente 1h50min tentando solucionar problemas técnicos de ar-condicionado, datashow, má conexão dos cabos, chaves extras, investigação de salas vazias, subidas e descidas num prédio cujos elevadores não funcionam ou são um perigo extra etc…

Na sala havia uma estudante estrangeira que a cada evento desconcertante arregalava mais os olhos, imagino que pensasse: “onde diabos eu vim parar…”

Ao encerrar a aula, muito desanimado com tantos dissabores logo no primeiro dia, encontrei dois colegas, não tive ânimo de contar como havia sido meu primeiro dia de aula, preferi ficar em silêncio, meio envergonhado, meio constrangido.

Eles conversam sobre suas experiências: um havia voltado de uma universidade nos EUA e o outro de uma universidade na China. Ao ouvir seus relatos ficava claro porque estamos tão atrasados em termos de educação. E, se nos EUA as coisas já pareciam boas, a China parece estar décadas à frente dos EUA. Nem ousei comparar o que ouvi deles com a miserável aula que eu acabara de tentar ministrar.

Quem é o responsável por tantos problemas que experimentei nesse primeiro dia de aula e, imagino, outros colegas também viveram? Claro, as verbas para a universidade pública hoje são menores. Basta lembrar que o congresso nacional se apropriou de R$ 60 bilhões do orçamento, no primeiro ano da atual gestão com as emendas secretas, não há mágica que invente dinheiro.

É evidente que esse congresso não se preocupa com a educação pública e é claro que a herança maldita recebida pelo atual governo não foi resolvida.

A pergunta que devemos nos fazer é óbvia: nada poderia ter sido feito nesses últimos quatro anos de gestão local para, ao menos em parte, amenizar esses problemas? É razoável consumir metade de uma aula tentando resolver problemas técnicos? É aceitável atribuir a culpa de todas as nossas mazelas locais à falta de verba? Sabendo, há quatro anos, que não teríamos as verbas suficientes para manutenção e custeio nada poderia ter sido feito em termos de planejamento?

Nenhuma estratégia criativa poderia ter sido implementada? Nenhuma ação com deputados federais e senadores de Santa Catarina poderia ter sido posta em prática, uma vez que muitos deles estudaram e lecionaram na instituição? É aceitável continuar com essa miséria institucional?

*Adriano Duarte é professor no Departamento de História e ex vice-presidente da Apufsc-Sindical

Artigo recebido às 8h39 do dia 18 de março de 2026 e publicado às 10h37 do mesmo dia