*Por Débora de Oliveira
Recebi com alegria – e também com senso de responsabilidade institucional – a confirmação da aprovação da Rede BRIDGES no resultado final do Edital nº 13/2025 do Programa CAPES Global.Edu. Trata-se de uma conquista da Universidade Federal de Santa Catarina, construída com base em um processo que merece ser exaltado.
Embora todas as etapas estejam registradas e publicizadas nos canais institucionais da Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PROPG), considero importante compartilhar, de forma clara, a trajetória que nos trouxe até aqui – da construção da proposta ao resultado final – porque ela revela aspectos fundamentais sobre o funcionamento, os desafios e a responsabilidade da universidade pública.
Essa trajetória começou muito antes da submissão. A construção da Rede BRIDGES foi fruto de um esforço coletivo, cuidadosamente articulado, que mobilizou pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento da UFSC, em diálogo permanente com instituições de ensino superior parceiras, no Brasil e no exterior.
Junto com a UFSC, participaram da concepção e estruturação da proposta a Universidade do Estado de Santa Catarina, a Universidade Federal da Fronteira Sul, a Universidade Estadual do Norte Fluminense, a Universidade Federal do Amazonas e a Universidade Federal do Vale do São Francisco. A complementaridade das realidades regionais, dos estágios de internacionalização, e dos campos de conhecimento entre essas instituições foi determinante para a robustez do projeto.
A rede foi estruturada a partir da convergência de competências científicas, da diversidade de abordagens e da capacidade de atuação em contextos distintos — elementos que conferiram à proposta densidade, consistência e relevância internacional inequívocas.
Internamente, a construção da proposta iniciou por articulação institucional integrada pelas pró-reitorias de Pós-Graduação (PROPG) e de Pesquisa e Inovação (PROPESQ), pela Secretaria de Relações Internacionais (SINTER), e por docentes indicados pela Câmara de Pós-Graduação. Esse grupo inicial definiu as linhas estratégicas da proposta, garantindo alinhamento institucional, integração de competências e de experiência internacional para a construção de um projeto consistente de uma verdadeira plataforma de internacionalização constituída a partir de uma rede de universidades do país.
A propósito, o envolvimento de docentes de diversos centros foi decisivo na elaboração da proposta, com representantes do CCB, CCE, CCS, CTS (Araranguá), CTJ (Joinville), CDS, CFH, CFM, e CTC, que atuaram em seis grupos de trabalho com participação de contrapartes de todas as universidades associadas à rede BRIDGES, em trabalho colaborativo de alta intensidade. Não se trata, portanto, de uma iniciativa pontual, mas da materialização de um compromisso institucional sólido – estruturado, intencional e conduzido com responsabilidade e visão estratégica – que se consolida como política permanente e orientadora da internacionalização das IES participantes do projeto.
O grupo responsável pela proposta sempre teve plena convicção de sua qualidade. Essa convicção não se baseava em expectativa, mas em evidência: na trajetória da UFSC, na consistência metodológica do projeto e na solidez da rede formada com UDESC, UFFS, UENF, UFAM e UNIVASF.
O resultado preliminar, que não contemplou a proposta, não refletiu esses elementos. O parecer emitido apresentou limitações claras na apreciação técnica do projeto, desconsiderando aspectos centrais de sua estrutura, de sua relevância e de sua inserção estratégica.
Diante disso, a UFSC e suas parceiras agiram como se espera de instituições públicas maduras: não se aceitou passivamente uma avaliação inadequada. Foi interposto recurso técnico consistente, detalhado e fundamentado, evidenciando as fragilidades do parecer e reafirmando, com base objetiva, os méritos da proposta. Paralelamente, foram realizadas ações institucionais junto à Capes, no âmbito do diálogo legítimo, transparente e responsável que deve caracterizar a relação entre universidades e agências de fomento.
Esse movimento – técnico e político – não apenas foi necessário, como reafirma o compromisso da UFSC com a defesa qualificada de seus projetos estratégicos.
O resultado final confirma isso: a proposta foi aprovada.
Debate institucional: pluralidade com responsabilidade
A universidade pública é, por definição, um espaço de pluralidade. No entanto, pluralidade não pode – e não deve – ser confundida com ausência de rigor.
O debate acadêmico exige responsabilidade. Exige conhecimento de causa. Exige análise técnica.
Ao longo de todo esse processo, a PROPG atuou de forma contínua, estruturante e orientadora, assumindo seu papel institucional na concepção, articulação e qualificação da proposta. Não se tratou de um apoio periférico, mas de uma atuação central, comprometida com a construção de um projeto inclusivo e estratégico para a UFSC, conduzido com responsabilidade pública, rigor técnico e visão institucional.
É precisamente nesse contexto que se torna ainda mais necessário afirmar que parte das críticas dirigidas à proposta – inclusive no momento de sua não aprovação preliminar — configurou-se como crítica desprovida de fundamentação consistente, que não dialogava com o conteúdo efetivo do projeto, tampouco com o processo institucional robusto que o sustentou.
Em alguns casos, tais manifestações podem ser compreendidas como expressão de posicionamentos de natureza política; em outros, como resultado do desconhecimento acerca da complexidade, da articulação e do nível de comprometimento institucional envolvidos na construção da proposta. Em qualquer hipótese, o que se evidencia é a ausência de base analítica qualificada.
É preciso afirmar com clareza: crítica, na universidade, não é exercício de opinião desinformada. Crítica exige leitura, exige compreensão e exige responsabilidade com o impacto institucional do que se afirma.
Quando não atende a esses critérios, a crítica deixa de cumprir seu papel acadêmico e passa a produzir efeitos nocivos – fragiliza processos institucionais, deslegitima o trabalho coletivo e pode comprometer a confiança necessária ao funcionamento do sistema universitário.
A aprovação da Rede BRIDGES, nesse contexto, não apenas reconhece o mérito da proposta – ela também reafirma, de forma inequívoca, a correção do processo conduzido, o comprometimento institucional da PROPG e a centralidade do rigor técnico como único parâmetro legítimo de avaliação.
O Programa Capes Global.Edu tem como objetivo fortalecer redes internacionais de pesquisa, ampliar a mobilidade acadêmica e projetar a ciência brasileira no cenário global. A inserção da UFSC nesse programa representa um avanço concreto na consolidação de uma internacionalização com propósito — aquela que articula formação de excelência, produção científica relevante, compromisso com desafios globais e capacidade de diálogo interinstitucional para consolidação, de forma democrática e participativa, de uma rede de universidades solidária e comprometida com redução de assimetrias regionais.
Mas essa trajetória deixa um aprendizado ainda mais importante.
A universidade pública precisa não apenas produzir conhecimento de excelência, mas também ser capaz de reconhecê-lo, sustentá-lo e defendê-lo – interna e externamente.
A Rede BRIDGES é uma conquista. Mas é, sobretudo, uma afirmação institucional.
A afirmação de que a UFSC tem densidade acadêmica, maturidade institucional e compromisso público para construir projetos de alto nível, enfrentar avaliações inadequadas quando necessário e afirmar, com base no mérito, o lugar que ocupa na ciência nacional e internacional.
Seguimos, assim, construindo pontes – entre saberes, instituições e países – e reafirmando aquilo que não pode ser relativizado: a excelência, o rigor e a responsabilidade que definem a universidade pública.
Sim, estamos muito felizes.
Felizes pelo reconhecimento do trabalho coletivo e solidário de todas as universidades da rede, pela validação de uma proposta construída com seriedade, pela liderança e, sobretudo, pelos desdobramentos que a execução desse projeto trará para a UFSC – na formação de recursos humanos, na qualificação da pesquisa, na solidariedade acadêmica com as parceiras nacionais, na ampliação de sua inserção internacional e, por fim, na consolidação da liderança acadêmica de nossa Universidade.
Mas essa felicidade vem acompanhada de uma responsabilidade à altura.
A UFSC assume, com a Rede BRIDGES, o papel de instituição propulsora da internacionalização de cinco importantes instituições de ensino superior brasileiras, consolidando uma atuação em rede que amplia oportunidades, fortalece capacidades institucionais e projeta, de forma mais integrada, a ciência produzida no país.
É esse o sentido maior desta conquista: não apenas avançar, mas fazê-lo coletivamente – com responsabilidade pública, compromisso institucional e confiança na força transformadora da universidade.
*Débora de Oliveira é Pró-Reitora de Pós-Graduação da UFSC
Artigo recebido às 17h58 do dia 23 de março de 2026 e publicado às 9h22 do dia 24 de março de 2026
