Fábio Lopes, o vácuo político e o niilismo de cátedra

*Por Nildo Ouriques

“Há que se mencionar, por fim, que a pobreza política da UFSC contaminou drasticamente a chamada oposição. Nos quatro anos em que padecemos sob a atual gestão, não fomos capazes de produzir uma única liderança digna desse nome, um único quadro apto a inspirar as pessoas e a prometer a elas algo diferente desse clima de vale-tudo e salve-se quem puder em que estamos metidos.  Vem por aí, provavelmente, mais quatro anos de decadência, ausência de projeto e covardia. Shame on us.”
Fabio Lopes, 21 de janeiro de 2026

No final do século passado li com grande interesse a polêmica entre José Guilherme Merquior e Leandro Konder. O primeiro, um liberal acadêmico de estirpe formado na tradição francesa, escrevia em vários idiomas com grande desenvoltura e estilo próprio. No lado oposto, um professor culto, educadíssimo – a própria expressão humana da delicadeza – considerado por gregos e troianos como um “comunista sem inimigos”. 

Eu tive o privilégio de conhecê-los pessoalmente. Um mês após minha formatura, um dos grandes intelectuais brasileiros – Theotonio dos Santos – me convidou para trabalhar na Fundação Escola do Serviço Público (FESP) no primeiro governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro. No embalo carioca, eu subia na barca na Praça XV semanalmente e desembarcava na Praça Araribóia, centro de Niterói, para frequentar como aluno ouvinte as aulas (História da dialética) de Leandro Konder na Federal Fluminense. O encontro com Merquior foi fortuito, somente possível porque ele era embaixador no México quando eu fazia meu doutorado na UNAM. Merquior considerava a atividade cultural como o único caminho da diplomacia, ignorando olimpicamente temas econômicos e políticos; em consequência, sua atividade diplomática estava “reduzida” ao intenso ativismo naquele turbilhão intelectual da Cidade do México. Assim, foi possível ouvi-lo algumas vezes…

A polêmica e a troca de gentilezas entre ambos não ocultava divergências, mas o difícil exercício da cordialidade somente era possível porque o país sempre grávido de conhecidas contradições e antagonismos, ainda não pulsava segundo a lógica de situações extremas. Naquela época ninguém imaginaria que muitos anos mais tarde o “luxo” do confronto intelectual entre o comunista erudito e o embaixador ilustrado, cederia espaço para a popularidade de Olavo de Carvalho que, contra minhas preferências, tornou-se o “filósofo” mais conhecido do país com enorme prestígio nas classes médias e inclusive, populares. A utopia reacionária de uma “nova classe média” nos trópicos não autorizou Merquior ou Konder, mas permitiu manuais de autoajuda e vitrine para Olavo de Carvalho nas livrarias de aeroporto. Um desastre!

Eu recordei àquele antigo e esquecido embate entre o comunista cordial e o diplomata culto ao ler o último artigo de Fábio Lopes em que ele uma vez mais surpreendeu todos nós na defesa do conservadorismo no interior da UFSC. Ademais, temperou seu texto com alguns adjetivos na vã tentativa de me degradar à condição de burocrata sem relevância alguma em nossa universidade. De quebra, pretendeu também desautorizar minha crítica a sua virada conservadora porque, segundo ele, teria eu hibernado por longo tempo e, do nada, o ataquei em defesa do texto da jornalista Elaine Tavares. Por fim, me atribui conduta niilista apoiada numa confortável remuneração e devidamente comissionado; ele não afirmou, mas numa leitura maliciosa de seu texto qualquer desavisado poderia concluir, digamos assim, que me transformei num mercenário acadêmico que finalmente encontrou seu preço numa modesta gratificação na Editora da UFSC.

Creio que não cometo exagero a julgar que Fábio Lopes mede sua influência política na UFSC pela quantidade de artigos publicados na página eletrônica de nosso sindicato; talvez também considere que a presença e intervenções que no passado teve nas reuniões do Conselho Universitário constituam uma prova eloquente de visibilidade, além de influência política e intelectual em nosso rarefeito ambiente.

Longe de mim desvalorizar atividades semelhantes, pois uma rápida pesquisa revelará que jamais hibernei “por uma década” e, mesmo modestamente, sempre opino no Boletim quando considero que tenho algo relevante a dizer. Ademais, meu “longo sono” jamais impediu participação ativa em alguns momentos cruciais em disputa em nossa universidade. Na última greve em defesa de nossos salários acompanhei a maioria de meu departamento até que um plebiscito recusou a continuidade do movimento. Após aquela decisão, voltei às aulas com meus colegas não sem antes participar de viva voz e de maneira constante nas assembleias do sindicato. Fábio Lopes, ao contrário, não pegou no microfone uma única vez e, não bastasse a omissão, indicou no Boletim da APUFSC que não participaria de uma greve com àqueles que em seus tempos de juventude eram considerados “vacilões”. 

Ainda assim, quando ele ainda era Diretor do CCE – exatamente ao contrário do que afirma agora – me convidou para discutir a crise da universidade brasileira sintetizada nos três volumes do Crítica à razão acadêmica que publiquei com Waldir Rampinelli na Editora Insular. Portanto, a conclusão que há “mais de uma década” não sou relevante na Universidade é, no mínimo, apressada e, claro está, ainda estamos bem longe do último capítulo da novela.

Quanto à acusação de que sou um “burocrata de segundo escalão” por ocupar a direção da Editora da UFSC, não posso senão protestar. Protestar e… recordar! O leitor interessado não pode ignorar que Fábio Lopes se sentou orgulhoso na mesmíssima cadeira que atualmente ocupo durante três longos anos (2013-2016) – também regiamente pago e comissionado pela Roselane – e na qual, ao contrário de sua evidente irritação atual, não considerava a EdUFSC um depósito para burocratas irrelevantes, mas “o melhor cargo da Instituição”. De fato, mesmo alguém que não se ocupa do desafiador trabalho editorial sabe que a direção de uma editora é avesso à conduta do burocrata; ao contrário, é atividade intelectual de primeira grandeza e não fosse a disputa eleitoral na qual estamos em campos radicalmente opostos, ele admitiria.  

Ora, um diretor da EdUFSC não pode desprezar eventuais virtudes de um burocrata pois a carga de trabalho para fazê-la funcionar na plenitude do enorme potencial que estamos desenvolvendo – com decisivo apoio do Irineu – exige, de fato, ações e esforços nessa direção que, obviamente, não se assemelham ao prazer de ler Shakespeare deitado numa rede. Portanto, um diretor, estimado leitor, atua 24 horas por dia com atenção no mercado editorial brasileiro explorando possibilidades e… lendo livros: nacionais e estrangeiros, antigos e novos, esquecidos e festejados, malditos e badalados. 

Ademais, é minha função receber professores de distintas áreas e discutir com eles o mérito de propostas literárias, científicas, didáticas. É atividade intelectual do primeiro ao último minuto… Por fim, Fábio Lopes ignora olimpicamente em juízos apressados sob o invólucro moralista de sua lastimável declaração, as reuniões mensais do Conselho Editorial que, a despeito da regularidade, é tudo, menos ordinária. Na verdade, representa valiosa oportunidade para desfrutar do talento e compromisso de muitos professores atuando sem remuneração alguma na quais dedicam valioso tempo para sustentar pareceres e emitir sentenças sobre a linha editorial que não poderiam ser mais prazerosas intelectualmente. É obra perene…

O valor certamente eleitoral e passageiro dos artigos de Fábio Lopes consiste precisamente no alinhamento com o conservadorismo dominante dentro e fora da UFSC. Aos que padecem de amnésia social, recordo o apoio dele à Irineu no segundo turno das eleições passadas e, no meio do caminho, a mudança radical rumo a oposição. Como pode negar legitimidade e honestidade naqueles que estavam na oposição e agora apoiam Irineu? Ora, ele apresenta sua nova orientação política – o abandono de Foucault e Derrida e a adoção da perspectiva liberal de Timothy Snyder – como produto de uma “guinada epistemológica”; a mudança de rumo de seus adversários, ao contrário, é  acusada como a mais reles expressão do “vira-casaca” desprezível! É uma posição insustentável, possivelmente apoiada num simples postulado moral: minha posição é melhor e mais justa!  

Na disputa atual, ele simula independência, mas é, de fato, cabo eleitoral de Amir e Felipa. Como sabemos, a despeito da postulação legítima, essa candidatura emergiu no vácuo da desistência de Edson e ninguém sabe ao certo o que pretendem nem como atuam. É claro que possuem uma perspectiva claramente conservadora porque nasceram no útero do conservadorismo! Contudo, quando analiso a candidatura de Amir e Felipa, penso logo na severa advertência de Fábio Lopes publicado aqui no Boletim há escassos dois meses: “nos quatro anos em que padecemos sob a atual gestão, não fomos capazes de produzir uma única liderança digna desse nome, um único quadro apto a inspirar as pessoas e a prometer a elas algo diferente desse clima de vale-tudo e salve-se quem puder em que estamos metidos.” Não é uma sentença dura para Amir e Felipa?

O contrato da EBSERH: o caos faltou ao encontro I

O esporte preferido da oposição a Irineu consiste em apresentar a atual administração como retrato perfeito do caos. Amir e Felipa entraram na campanha afinados no roteiro e, na data do vencimento do contrato entre a UFSC e a Ebserh – meia noite do dia 16 de março – lá estavam acusando a “falta de gestão e comprometimento da UFSC com a assinatura do novo contrato”, a ausência “de seriedade na gestão” e, finalmente, a “negligência nas negociações”. Na prática ecoavam aqui os interesses da Empresa sacrificando a margem de autonomia que ainda temos e devemos preservar. Entretanto, ao contrário do vaticínio catastrófico da chapa opositora, Irineu não somente recusou a proposta leonina como também a pretensão descabida da Empresa de assinar um compromisso por mais… 20 anos! (o contrato vigente era de 10 anos).

Durante vários meses a Ebserh adiou acordos a despeito de inúmeros contatos pessoais e farta correspondência solicitando uma posição definitiva, mas Brasília empurrava a decisão de olho no calendário eleitoral e com cálculo político elementar: afinal, qual reitor recusaria os termos inaceitáveis do novo contrato em plena campanha sucessória e, em consequência, suportaria o “caos” no HU? No entanto, Irineu manteve firme sua oposição aos termos inaceitáveis enviados no tardio fevereiro, aliás, período de férias para a maioria de nós. O pulso firme do reitor permitirá agora que toda a comunidade universitária, inclusive aos seus adversários e às instâncias competentes – o Conselho Universitário, por exemplo – tome com a devida serenidade a decisão final. 

Caos? Nenhum! Negligência? Jamais! Seriedade e respeito à autonomia sem dúvida! Agora estudantes, professores e Taes poderão analisar em detalhe a função da Empresa no financiamento do HU que jamais teve o apoio real do MEC – por ser considerado serviço de saúde – e tampouco do Ministério de Saúde – sob a alegação que era um hospital escola – razão pela qual o governo Dilma, após anos de austeridade, apresentou em 2011 a milagrosa fórmula que atualmente sofremos. Portanto, nem mesmo o mais entusiasta petista afirmaria que a EBSERH “derramou um rio de dinheiro” no HU, mas temos novidade: o governo não anuncia repasses necessários, mas acaba de mudar a sigla para “HU Brasil”. Não é uma beleza? O sistema de saúde nacional padece de subfinanciamento crônico responsável também pela austeridade de nossos hospitais. Contudo, se a pretensão da Empresa não prosperou, a aposta no caos exibiu a forma como Amir e Felipa trabalham politicamente e em qual direção, revelando comportamento político que não autoriza lealdade nem responsabilidade na disputa de uma questão tão sensível para nossa universidade.  

Há algo valioso para recordar em meio às sucessivas agressões – algo muito distinto da crítica, reafirmo – que Fábio Lopes talvez queira ocultar. Ele parece esquecer que o primeiro contrato com a EBSERH foi assinado nas dependências da Academia de Polícia Militar pois, segundo a reitoria da época, seria impossível aprová-lo na sala dos Conselhos! Alguém pode imaginar tamanha falta de respeito à liturgia do cargo? Acaso, alguém assinalou naquele triste episódio que estávamos diante da plena “corrosão das instituições”? Por fim, uma reunião do CUN num quartel é mesmo melhor que uma sessão na qual um conselheiro produz o vexame de uma dancinha ou um aluno aponta o dedo na cara de outro conselheiro? É fácil perceber que a maioria aceitaria uma reunião polêmica realizada aqui entre nós do que sob a guarda de um quartel da PM. O mais surpreendente é que naquela época, Fábio Lopes era nada menos que diretor da EdUFSC e manteve sepulcral silêncio! Nem um mísero artigo no Boletim da Apufsc! 

Reunião do Conselho: o caos faltou ao encontro II

Na ladainha de Fábio Lopes, a última reunião do CUn exibiu novamente a “bagunça”, a “gritaria” e a “falta de modos”. Entretanto, as decisões foram tomadas na mais absoluta normalidade. Vamos aos fatos! Após autoconvocação, o reitor abriu os trabalhos no dia previsto e a Diretoria da Apufsc – na linha opositora – tentou regular a consulta, cujas consequências poderiam ser catastróficas para a consulta paritária que realizamos desde os tempos da ditadura. Nada há de inocente na operação, menos ainda a falsa alegação da “inclusão de eleitores” pois semelhantes “argumentos” beiram ao ridículo, não fosse oportunismo daqueles que, numa próxima eleição, tentarão produzir uma consulta na base do 70×30 apoiados na nova legislação em tramitação no congresso nacional. A maioria dos conselheiros negou a pretensão numa reunião pra lá de serena que pode ser conferida no canal de YouTube da Universidade, portanto, longe de qualquer cenário caótico. Até mesmo conselheiros que assinaram a auto convocatória decidiram suspender a sessão exibindo o equívoco da iniciativa! A razão – e não o caos – se impôs! 

O conto não termina aqui. Após a recusa do CUn, a Diretoria da Apufsc convocou o Conselho de Representantes (CR) para referendar o abandono definitivo da Comelusc e, quem sabe, seguir sob argumentos superficiais, na sabotagem da consulta paritária contra a qual também atuou há quatro anos sob argumentos gelatinosos. Ocorre que o CR recusou a proposta e confirmou nosso sindicato na Comissão!! Nenhum caos, nenhuma balbúrdia. Mas constitui uma derrota importante para a atual Diretoria da Apufsc.

Epílogo  

A eleição se aproxima e o samba de uma nota só segue a despeito de contrariar fatos elementares. Os liberais no comando da cidade entram no jogo – já sofri na pele a ação em disputas anteriores! – na pretensão de derrotar Irineu e Moretti. A candidatura conservadora certamente apoiada por todos os liberais conservadores – especialmente de direita – é de Amir e Felipa, não restam dúvidas. Agora mesmo, a “direita UFSC” declarou voto na chapa de olho no DCE ou mesmo na manutenção da hegemonia política entre os estudantes.

Fábio não se atreve a declarar seu voto às claras e tenta por todos os meios aparecer como exemplo de virtude e exercício de independência política. Talvez, algo mais ambicioso: a única referência crítica existente entre nós confirmada diante do espelho de seu banheiro todas as manhãs ou, melhor, no Boletim da Apufsc. Contudo, seu apoio à chapa conservadora deve prestar contas daquele juízo emitido há tão somente dois meses no qual a oposição ao Irineu não era digna de qualquer confiança; na prática, era expressão de imensa incapacidade e, digo eu, improviso! Repito aqui seu texto para não deixar dúvidas: “nos quatro anos em que padecemos sob a atual gestão, não fomos capazes de produzir uma única liderança digna desse nome, um único quadro apto a inspirar as pessoas e a prometer a elas algo diferente desse clima de vale-tudo e salve-se quem puder em que estamos metidos.” 

Quanto a mim, a despeito de me retirar das disputas para reitor, nunca deixei de declarar abertamente minhas preferências e contribuir, nos limites de minhas forças, para mudar a universidade brasileira. Em consequência, a crítica à razão acadêmica representa uma voz quase solitária, porém, indispensável porque assinala as profundas transformações impostas à universidade brasileira nas três últimas décadas, embora ignorada por parcela considerável da chamada comunidade universitária. Entretanto, a batalha das ideias jamais implicou em omissão no sindicato ou na administração local da UFSC e menos ainda num niilismo que sempre considerei funcional aos liberais, mesmo àqueles que se julgam inquietos. No final das contas, o niilismo, inclusive quando se apresenta como virtude, sempre jogou lenha na fogueira da classe dominante. Merquior cravou Foucault como o fundador do niilismo de cátedra, mas não creio que Snyder está muito longe mesmo quando seu refúgio é uma sorte de “responsabilidade individual” de extração moralista que, no caso dos textos de Fábio – especialmente naquele de 21 de janeiro –, exala e pretende uma superioridade moral capaz de condenar todos nós – não apenas seus desafetos – ao fogo dos infernos. Portanto, é um moralismo sem os pés no chão que ninguém com duas moléculas de juízo e realismo pode aceitar.

*Nildo Ouriques é diretor da EdUFSC e professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais (CSE/UFSC)

Artigo enviado às 9h29 do dia 30 de março de 2026 e publicado às 10h04 do mesmo dia