Coerência em disputa — quando o discurso não resiste às escolhas: era projeto ou era só contra o Irineu?

*Por Olga Regina Zigelli Garcia, Jeferson Rodrigues, Narbal Silva, Juliano Gil Nunes Wendt, Lino Peres, Roberto Ferreira de Melo e Werner Kraus Junior

O que se observa neste segundo turno não é apenas uma divergência política, é uma ruptura de coerência que merece ser nomeada com clareza. A chapa 63 construiu sua identidade no primeiro turno como expressão de um campo progressista, mobilizando um eleitorado que acredita na universidade pública, na democracia, na inclusão e nos direitos. Não se tratava apenas de uma candidatura, mas de um posicionamento político. Por isso, a decisão de não apoiar a chapa 52, ou melhor, explicitar que “rejeita o apoio ao Irineu” já seria por si só, um gesto que exigiria explicação. Mas o que se segue é ainda mais grave: lideranças centrais desse campo, declarando apoio à chapa 41, apoiada explicitamente por setores da direita, conforme pode ser comprovado no site do Direita UFSC (https://www.instagram.com/p/DWXXpEKEew0/?hl=pt-br). Isso não é apenas uma escolha individual. É um ato político com consequências.

Como nos alerta Gramsci (2000), a luta política também é uma disputa por coerência e hegemonia. Não se constrói hegemonia apenas com discurso, mas com práticas que sustentem aquilo que se afirma. Quando há uma ruptura entre discurso e prática, o que se fragiliza não é apenas uma candidatura, mas a credibilidade de todo um campo político. E aqui a contradição é evidente.

Se, ao longo da campanha, foram mobilizados valores associados à esquerda, defesa da universidade pública, enfrentamento das desigualdades, compromisso com a inclusão, como justificar, agora, o alinhamento com um projeto apoiado por forças que historicamente tensionam ou mesmo negam esses mesmos princípios? Essa não é uma divergência tática menor. É uma inflexão política substantiva.

Arendt (2004) já apontava que a responsabilidade política está diretamente ligada à capacidade de responder pelos próprios atos no espaço público. E responder, aqui, implica explicar à comunidade acadêmica como se sustenta essa mudança de posição sem que isso configure, no mínimo, uma incoerência profunda.

É legítimo haver diferenças dentro do campo progressista. É legítimo criticar, divergir, disputar projetos. O que não é trivial, e precisa ser dito: é atravessar uma eleição inteira afirmando determinados valores e, no momento decisivo, atuar em sentido oposto a eles.

Isso produz um efeito concreto: desorienta o eleitorado, esvazia o sentido do voto anterior e levanta dúvidas legítimas sobre qual era, de fato, o objetivo político daquela candidatura. Afinal, se no momento em que se exige posição clara, a escolha é pelo campo oposto, que leitura resta sobre o percurso feito até aqui?

Como lembrava Freire (2021), é fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz. Quando essa distância se amplia, o que se perde não é apenas coerência, é confiança. E, na política, confiança é tudo.

O que está em jogo, portanto, não é apenas quem vence ou perde esta eleição, mas o próprio sentido do posicionamento político. Porque não basta reivindicar um lugar no campo progressista. É preciso sustentá-lo, sobretudo quando isso exige escolhas difíceis.

No fim, a questão é simples e incontornável: ou os valores defendidos no primeiro turno eram reais, e assim sendo deveriam orientar a posição agora para o apoio à chapa 52, ou eram apenas instrumentos de disputa.

E essa é uma pergunta que não pode permanecer sem resposta.

REFERÊNCIAS:

ARENDT, Hannah. Responsabilidade e Julgamento. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz & Terra, 2021.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

*Olga Regina Zigelli Garcia é professora titular do Departamento de Enfermagem; Jeferson Rodrigues é professor associado do Departamento de Psicologia; Narbal Silva é professor titular do Departamento de Psicologia; Juliano Gil Nunes Wendt é professor titular do Departamento de Agricultura, Biodiversidade e Florestas; Lino Peres é professor aposentado (voluntário) do Departamento de Arquitetura e Urbanismo; Roberto Ferreira de Melo é professor associado do Departamento de Análises Clínicas; Werner Kraus Junior é professor titular do Departamento de Engenharia de Automação e Sistemas.

Artigo recebido às 12h03 do dia 14 de abril de 2026 e publicado às 13h19 do mesmo dia