19 de abril e a urgência da permanência: povos indígenas e o desafio de transformar a universidade  

*Por Emeson Tavares da Silva e Roberto Antônio Finatto

O 19 de abril, hoje denominado Dia dos Povos Indígenas, tem sido progressivamente ressignificado no Brasil. Se, por um lado, a data já não comporta leituras folclorizantes, homogêneas e despolitizadas, por outro, ela continua a expor as contradições profundas que estruturam a relação entre o Estado, a sociedade e os povos originários. Celebrar essa data exige reconhecer que há pouco a ser comemorado quando as condições concretas de existência seguem atravessadas por desigualdades históricas e estruturais.

No campo da educação superior, essa contradição se materializa de forma contundente. O acesso de estudantes indígenas à universidade, frequentemente apresentado como um avanço, revela-se apenas uma etapa inicial de um processo muito mais complexo. No caso do curso de Educação do Campo da UFSC, essa tensão assume contornos específicos. Trata-se do curso com o maior número de estudantes indígenas da universidade, somando atualmente 64 estudantes matriculados(as), distribuídos(as) nas 4 turmas do curso.

É importante destacar que a presença indígena no curso é um processo relativamente recente, fruto da ampliação do acesso e das políticas afirmativas e não uma característica originária de sua criação. Ainda assim, o dado que se impõe hoje é outro: mesmo com o crescimento significativo do ingresso de estudantes indígenas, os desafios de permanência seguem sendo profundos. A questão central, portanto, desloca-se: não se trata apenas de quem entra, mas de quem consegue permanecer e concluir sua formação.

Essa realidade explicita um limite estrutural que não pode ser atribuído aos(às) estudantes, mas às próprias condições institucionais, pedagógicas e epistemológicas da universidade. Como argumenta Miguel Arroyo (2012), os sujeitos do campo não são apenas destinatários(as) de políticas educacionais, mas sujeitos de direitos e produtores(as) de saberes. No entanto, a universidade ainda opera, em grande medida, como se esses saberes não fossem legítimos. Essa negação se expressa em currículos rígidos, tempos acadêmicos inflexíveis e práticas pedagógicas pouco sensíveis às realidades territoriais e culturais.

No caso da Licenciatura em Educação do Campo, a pedagogia da alternância constitui um esforço de enfrentamento dessa lógica. Organizada a partir do Tempo Universidade (entendido como o período de estudo dos conteúdos das disciplinas em sala de aula) e do Tempo Comunidade (momento em que os(as) estudantes se direcionam aos seus territórios e, a partir do estudo teórico e conceitual, desenvolvem e articulam esses conhecimentos à luz de suas realidades), essa proposta busca integrar formação acadêmica e vida comunitária. Contudo, quando se trata de estudantes indígenas, essa articulação exige um nível ainda mais profundo de diálogo intercultural. Como destaca Gersem Baniwa (2013), não basta incluir indígenas na escola ou na universidade; é necessário transformar essas instituições para que dialoguem com os projetos de vida dos povos indígenas. Nesse sentido, a permanência não se reduz à assistência estudantil, mas implica uma transformação estrutural da própria universidade.

Os desafios enfrentados pelos(as) estudantes indígenas são múltiplos. Há o deslocamento territorial, que implica o afastamento das comunidades e de suas redes de pertencimento; há o deslocamento linguístico e cultural; e há, sobretudo, o deslocamento epistemológico. A universidade exige formas específicas de leitura, escrita e produção do conhecimento que, muitas vezes, entram em conflito com as cosmologias indígenas. Como problematiza Ailton Krenak (2019), a ideia de humanidade construída pela modernidade é incapaz de acolher a diversidade de modos de existir no mundo. Nesse contexto, permanecer na universidade torna-se, frequentemente, um ato de resistência cotidiana.

Entretanto, para além dessas dimensões estruturais, é preciso nomear uma realidade ainda mais dura e cotidiana: no âmbito da Universidade Federal de Santa Catarina, estudantes indígenas enfrentam, de forma recorrente, situações de violência simbólica, institucional e, por vezes, direta. Não se trata de episódios isolados, mas de uma dinâmica reiterada, na qual estudantes indígenas são cotidianamente constrangidos(as), deslegitimados(as) em seus saberes e, em muitos casos, explicitamente ou implicitamente convidados(as) a se retirar desses espaços. Trata-se de uma percepção construída a partir da vivência cotidiana na coordenação do curso e no acompanhamento dos(as) estudantes, evidenciando a frequência e a gravidade dessas ocorrências. Esse cenário revela a urgência de uma resposta institucional consistente e sistemática.

Essa realidade exige um deslocamento analítico: não basta pensar o acesso e a permanência em termos administrativos ou pedagógicos; é necessário compreender a universidade como um espaço atravessado por relações de poder, racismo estrutural e colonialidade. Isso implica adotar um olhar sistêmico sobre as condições de permanência dos(as) estudantes indígenas, reconhecendo que as dificuldades enfrentadas não são individuais, mas expressão de estruturas historicamente constituídas.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer experiências que apontam para outras possibilidades. Este ano marca um momento histórico: pela primeira vez, a Universidade Federal de Santa Catarina oferta um curso de graduação em território indígena. A turma de 2026 da Licenciatura em Educação do Campo, realizada na Terra Indígena Laklãnõ-Xokleng, no município de José Boiteux, conta com 50 estudantes matriculados(as) na primeira fase. Essa experiência só se concretiza a partir do envolvimento da gestão universitária e do coletivo de docentes, servidores(as) técnicos(as) e estudantes que se colocam à disposição para deslocar a universidade de seu espaço tradicional, construindo, no território, outras formas de fazer educação superior.

Tal iniciativa dialoga com as contribuições de Catherine Walsh (2009), especialmente ao enfatizar a necessidade de uma interculturalidade crítica, que não se limita à inclusão de sujeitos historicamente excluídos, mas propõe a transformação das estruturas de poder, saber e ser que organizam a universidade. Levar o curso ao território indígena, nesse sentido, não é apenas uma estratégia logística, mas uma afirmação política: trata-se de construir condições para que diferentes epistemologias coexistam e tensionem o modelo hegemônico de produção do conhecimento.

Ainda assim, é necessário cautela para não romantizar essas experiências. Coordenar um curso com essa dimensão constitui um desafio imenso. Exige não apenas gestão acadêmica, mas sensibilidade política, compromisso ético e capacidade de escuta ativa. Exige, sobretudo, reconhecer que a Educação do Campo, em sua perspectiva mais crítica, não pode se limitar a uma política de acesso, devendo se afirmar como um projeto de transformação da universidade e, a partir dela, da própria sociedade.

Diante desse cenário, o que há, afinal, a comemorar no 19 de abril? Há, sem dúvida, o que reconhecer: a luta histórica dos povos indígenas, sua resistência, sua permanência e a sua presença crescente em espaços historicamente negados. No entanto, celebrar o ingresso sem enfrentar os desafios concretos da permanência é insuficiente e, em certa medida, contribui para a reprodução das desigualdades.

O 19 de abril deve, portanto, ser menos um dia de celebração e mais um dia de compromisso. Compromisso com a construção de uma universidade que não apenas inclua, mas que se transforme. Compromisso com a permanência digna de estudantes indígenas. Compromisso com o enfrentamento das violências institucionais. Compromisso com o reconhecimento de outras epistemologias. E, sobretudo, compromisso com os povos indígenas enquanto sujeitos de conhecimento, de território e de futuro.

Referências

ARROYO, Miguel. Outros sujeitos, outras pedagogias. Petrópolis: Vozes, 2012.

BANIWA, Gersem José dos Santos. Educação escolar indígena no século XXI: encantos e desencantos. Rio de Janeiro: Mórula, 2013.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

WALSH, Catherine. Interculturalidad, Estado, sociedad: luchas (de)coloniales de nuestra época. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar; Abya-Yala, 2009.

*Emeson Tavares da Silva e Roberto Antônio Finatto são professores e coordenadores do curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFSC

Artigo recebido às 10h47 do dia 20 de abril de 2026 e publicado às 8h07 do dia 22 de abril de 2026