Pesquisa da UFSC sobre a pesca com botos subsidia decisão judicial para proteção ambiental

Pesca com botos foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial em março deste ano Iphan

O registro da pesca com botos, projeto de pesquisa coordenado pelo professor Caetano Kayuna Diase da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi base de uma decisão judicial para suspender a construção de um emissário de esgoto no Rio Tramandaí, no Rio Grande do Sul.

Praticada principalmente na região de Laguna, no Sul catarinense, e de Tramandaí/Imbé, no Litoral Norte gaúcho, a pesca com botos foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial em março deste ano pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O projeto, coordenado pelo professor e desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa Canoa – Coletivo de Estudos sobre Ambientes, Percepções e Práticas, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC, em conjunto com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) e o Brasil Plural (IBP), elaborou o dossiê de Registro encaminhado ao Conselho Nacional do Patrimônio Cultural para reconhecimento da prática como patrimônio imaterial. A pesquisa conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu).

A decisão da juíza Patrícia Antunes Laydner, da Vara Regional do Meio Ambiente, foi proferida no dia último dia 22 e determinou que a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) não realize o lançamento de afluentes tratados pela Estação de Tratamento de Esgoto II (ETE) no Rio Tramandaí.

A decisão da Justiça gaúcha respondeu a ação popular que questionava os possíveis impactos ambientais resultantes do sistema de esgotamento sanitário do município de Xangri-lá, no Litoral gaúcho.

Para embasar a decisão, a juíza citou o reconhecimento pelo Iphan da pesca com botos como patrimônio imaterial.

Interação colaborativa

A pesca com botos é uma prática tradicional de colaboração entre pescadores artesanais e cetáceos em estuários do Litoral Sul do Brasil, onde gerações de botos e pescadores protagonizam o aprendizado mútuo e a transmissão centenária de conhecimentos ecológicos, técnicas de pesca e formas de sociabilidade nos territórios pesqueiros para a captura de tainhas.

A interação colaborativa entre botos e pescadores, especialmente na pesca da tainha, é descrita desde a década de 1980. Em 2023, um trabalho em parceria entre a UFSC, a Oregon State University (OSU), nos Estados Unidos, e o Max Planck Institute, na Alemanha (MPI), documentou de forma inédita essa prática, com o uso de recursos tecnológicos como drones, câmeras e dispositivos subaquáticos para captação de sons.

Na época, a pesca com botos era estudada pelo Programa Ecológico de Longa Duração do Sistema Estuarino de Laguna e adjacências, desenvolvido pelo do Departamento de Ecologia e Zoologia e financiado pelo CNPq. O trabalho de documentação rendeu uma pesquisa publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, uma das principais da área.

Fonte: Notícias UFSC