*Por Edna Garcia Maciel
Uma metáfora ilustra a afirmação que a história se faz num campo de forças em luta. Nada, absolutamente nada, ocorre fora dessa esfera, inclusive, no reino animal: umas ovelhas, cansadas da tirania dos leões, de trabalharem arduamente para satisfazer o irrefreável apetite leonino, decidem organizar a mais decisiva assembleia de sua história. O motivo é nobre: instituir a igualdade social a fim de promover a paz no vale onde vivem. Uma comissão de ovelhas marcha até a savana vizinha e convida o rei dos leões para a assembleia. O velho leão ouve a proposta pacientemente. Pondera que o discurso das ovelhas é belíssimo, coerente e justo. Não obstante, o majestoso leão responde: onde estão suas garras?
No território das relações humanas algo semelhante acontece. Porém, é preciso ressaltar a diferença fundamental entre humanos e ovelhas. Os homens são capazes de antever, antes de agir. Segundo, só colocam um problema cuja solução está potencialmente dada pela sociedade. Foram necessários tempo e experiência para que operários criassem estratégias para enfrentarem o capital. As lutas pela redução da jornada de trabalho ocorridas no final do século XVIII foram desencadeadas pela fome e pela morte devido à exaustão do trabalho, enfim, pelas terríveis condições de vida do operário. Ainda assim, décadas se passaram até que eles conseguissem organizar suas associações e sindicatos.
A extorsão de trabalho excedente chegou a tal ponto que se tornou uma ameaça à vida dos operários fabris, sobretudo das crianças, mulheres e adolescentes confinados dentro das fábricas. Na primeira metade do século XIX foram criadas leis fabris que proibiram o trabalho para menores de 9 anos de idade e instituíram educação escolar obrigatória, de três horas/dia, para crianças entre 9 e 13 anos, a fim de protegê-las do insano trabalho nas fábricas modernas. O filme, “Daens, um grito de justiça“, mostra magistralmente operários infantis submetidos a toda sorte de violências na Bélgica, no final do século XIX. Muitas batalhas foram necessárias para reduzir a jornada de trabalho a 8 horas/dia. “Até chegar a esse ponto, prevaleceu o que determinava o patrão: 12 horas, 14 horas e até 18 horas por dia, 365 dias do ano” (Bernardete Aued).
O que professores têm a ver com essas lutas? Operam máquinas? Quantas horas trabalham por dia? A maioria dos contratos de professores da UFSC é de 40 horas, com dedicação exclusiva. O plano de trabalho docente – PAAD – deve contemplar obrigatoriamente 40 horas de atividades semanais de ensino, pesquisa e extensão, eventualmente, de administração. Não obstante, há um problema nessa composição, afirma uma docente: “a extrapolação dessas horas”.
A conquista de jornada de trabalho de 8h/dia foi invalidada pelos trabalhadores da educação? Qual é a “mágica” que os compele ao trabalho compulsório? A progressão na carreira depende mais de requisitos quantitativos, do que de qualificação profissional. Sem isso, não há gratificações salariais. Para ser produtivo, o docente é compelido à execução de atividades excedentes não computadas como tempo de trabalho: participação em bancas de concurso para docentes, seleção de alunos para pós-graduação, bancas de defesa que exigem tempo para leitura e apreciação de trabalhos, orientações de monografia, de dissertações e teses de alunos de pós-graduação, participação em grupos de pesquisa, ações de extensão com carga horária, muitas vezes, ultrapassada, recorrer a editais para financiamento de grupos de pesquisa e de bolsas para alunos.
Para concorrer aos editais, o professor precisa ter boa produção acadêmica e publicações como artigos, livros e semelhantes. Além disso, precisam de tempo para gerir e preencher informações em plataformas digitais. Ademais, com a redução dos técnicos administrativos, eles têm assumido tarefas como digitação de notas, abertura e relatórios de processos. Tudo isso se passa como natural, como se fosse apenas “ossos do ofício”. Não obstante, é trabalho gratuito que o professor entrega sem nada receber em troca.
Perguntei a uma professora: você leva trabalho para casa? “Muito: Trabalho aos finais de semana, à noite, escrevendo artigos, livros, lendo trabalhos, corrigindo provas, fazendo pesquisa”. Por que sucumbem à exploração de sua capacidade de trabalho? Os docentes perderam suas garras?
Nos dias atuais os professores, muito semelhantes ao que ocorre nas fábricas, estão submetidos ao produtivismo e ao arcabouço fiscal. O que falta em recursos para a universidade pública escorre para o agronegócio, banqueiros, igrejas, forças armadas e fundações de ensino privadas. Os docentes da escola pública brasileira se movem no fio de uma navalha. Mas, garras podem advir da sua organização coletiva, condição imprescindível para enfrentar os enormes desafios postos. Todavia, “só aos poucos é que o escuro é claro“ (Guimarães Rosa).
JUNTE-SE A NÓS. FILIE-SE. PRECISAMOS DE UM SINDICATO DE LUTA!
*Edna Garcia Maciel é professora aposentada
Artigo recebido às 11h59 do dia 6 de agosto de 2026 e publicado às 12h52 do mesmo dia
