*Por Wagner Leal Arienti
Após 40 anos e 11 meses como professor de dedicação exclusiva da UFSC, me aposentei em agosto de 2025, no início do segundo semestre letivo. Faz 1 ano. Qual reflexão?
Em uma avaliação rápida, tem sido bom, mas tem suas ambiguidades. É bom a falta de responsabilidade profissional, a relativa vagabundagem, mas há saudades. Saudade do ambiente acadêmico, do contato com jovens estudantes, a conversa com colegas. Dá até saudade das reuniões chatas e das discussões e atritos com colegas e estudantes. Haja ambiguidades.
A aposentadoria é uma transição lenta, gradual e insegura (uso esta frase pois em minha adolescência, vivi a segunda fase da ditadura militar, quando o ditador Ernesto Geisel falou que iria fazer uma transição lenta, gradual e segura para a democracia, a frase ficou na minha cabeça. Foi um tempo bom para um adolescente que via os primeiros passos da abertura política e se divertia com a sociedade civil indo além do projeto da ditadura).
Por que lenta e gradual? Apesar de ouvir colegas, ainda professores na ativa, dizer que querem se aposentar assim que possível, a aposentadoria não é uma mudança rápida de um trabalho árduo para uma situação de tempo livre total. Por mais intenso que seja o trabalho de um professor, não é árduo, tem suas chateações, mas também tem seus prazeres e realizações.
Ao longo do tempo, incorporamos a vida de professor e simplesmente temos o sentimento que não estamos professor, mas somos professores (desculpe a generalização mas quero que todos os professores tenham este sentimento). Portanto, ainda me sinto professor. Agora, tenho que me desligar das tarefas cotidianas da universidade e realizar novas tarefas não acadêmicas. Mas ainda acompanho a vida universitária, a eleição para reitor, a aprovação do novo Regulamento de Graduação (um horror!), o trabalho de colegas professores e a vida de alunos e ex-alunos. A virada de página de professor ativo para passivo e aposentado é rápida para a instituição que tem novos semestres acadêmicos, mas não tão fácil para o indivíduo. Rei morto, rei posto, professor aposentado, nova vaga, entrada de professor novo e vida segue.
Por que insegura? O tempo livre permite realizar projetos adiados e planejar novos projetos. Mas, agora, o aposentado não é mais um garoto que queria mudar o mundo, que tinha ilusões que a história esmagou e que tinha físico e energia para várias atividades. Os projetos são mais modestos, tanto em termos financeiros, não há mais promoções com pequenos aumentos de salários, quanto em termos de disposição, quero realizar algumas atividades novas, mas também quero voltar para casa e ficar quietinho. Mas a insegurança vem principalmente dos sentimentos ambíguos que enfrento, embora, por ora, não tenho problema de saúde sério, dor no joelho e calcanhar é normal depois dos 60 anos. O tempo livre cria novos problemas.
Quais sentimentos? Quais ambiguidades? Primeiro, tranquilidade por ter muito tempo, por não ter mais compromissos profissionais e acadêmicos. Apesar de me sentir como professor, dar aula nunca foi uma atividade natural. Além disso, quando avaliava que não tinha dado uma boa aula, mesmo se os alunos não percebessem, me sentia muito mal. Portanto, me preparava, escrevia minhas anotações, depois, formulava slides no powerpoint, organizava minha mente para apresentar um tema em 100 minutos, o horário da aula, e entrava na sala de aula pisando firme e me apresentava aos alunos. Toda a atenção necessária e a tensão para dar uma boa aula desapareceram na aposentadoria. É um alívio, uma tranquilidade.
Não preciso mais sair cedo de casa, acabar a aula e correr para buscar os filhos na escola. Como dava aula também à noite, não preciso mais enfrentar a escuridão dos estacionamentos da UFSC. Há a tranquilidade e o tempo para ler os livros que estavam na estante mas que não tinha tempo para ler e para escolher novos livros. Por mais chato que seja fazer ginástica em academia, agora há tempo para cuidar da saúde, fazer exercícios físicos e faltar sessão sem remorso.
Segundo, por inesperado que pareça, dá saudades da ansiedade de ser competitivo consigo mesmo. Ansiedade para preparar uma aula, responsabilidade para cumprir horários e, se tudo dá certo, a realização de cumprir não apenas uma obrigação, mas de realizar bem uma tarefa auto imposta, dar uma boa aula. Esta sequência de ansiedade, responsabilidade, realização e satisfação dá saudades. Se a ansiedade é má, a satisfação é boa. Não mais fazer parte de um trabalho coletivo, como o trabalho de ensinar estudantes a se capacitarem para serem profissionais, cidadãos e intelectuais, dá uma percepção de vazio e solidão.
O jargão de que a aposentadoria é um prêmio pelo trabalho realizado por tantos anos serve como um consolo para o passado, mas um novo presente e futuro têm que ser construído, com incertezas e inseguranças e sem tanta coragem como na juventude.
Há ambiguidades e incertezas na análise e avaliação retrospectiva e prospectiva. Retrospectivamente, fico admiro como consegui realizar múltiplas atividades como professor e na vida. Paralelamente à vida de professor, no ensino, pesquisa, extensão e administração da universidade, temos a vida familiar, particular e subjetiva.
No longo tempo de professor ativo, vivi, e acho que quase todo professor/a vive, uma vida intensa. Há o nascimento, crescimento e educação dos filhos que exigem dedicação de tempo e atenção. De um lado, a jornada de trabalho longa, com compromissos acadêmicos de manhã, de tarde e à noite, permitia pausas para levar e buscar filhos na escola, levar a médico e dentista e na casa de amiguinhos. Apesar da desorganização individual e familiar e vários momentos caóticos, minha avaliação é que consegui equilibrar dinamicamente, flutuando entre extremos mas na média em equilíbrio, a vida familiar e acadêmica.
A vida subjetiva seguiu um padrão. Não importava a depressão, felizmente pequenas e passageiras, as inseguranças se seria capaz de realizar tal tarefa e dentro do prazo estabelecido, tinha que cumprir o meu dever familiar e acadêmico. O final de semana, normalmente, não era de tempo livre para o lazer, mas sim tempo de descanso da intensa semana de trabalho. Por isto, tantos livros deixados para ler nas férias e na aposentadoria. Por isto, tantos projetos adiados para serem realizados na aposentadoria.
Financeiramente, a vida de professor universitário é de classe média. O problema no Brasil é que a situação de classe média é instável, e, por vezes, com a inflação comendo o salário, passei a ser classe média baixa. Era preciso esperar uma progressão funcional, um aumento dado pelo governo e fazer greves para uma recuperação salaria e voltar a ser uma classe média média. Além disto, com inflação ou sem inflação, a despesa crescia mais rápido do que o salário. O sonho de ser um professor universitário, sem a ambição da burguesia, nem com a exploração e dificuldades do proletariado, foi um duro equilíbrio entre despesa e receita para se manter como classe média, ter uma roupa austera de professor e comprar os livros necessários para se manter atualizado. Olhando para trás, não sei como consegui. Mantém-se o desejo de ser um aposentado de classe média.
Prospectivamente, tenho pequenos, médios e grandes projetos a realizar. Em realidade os grandes projetos não são tão grandes assim, mas se realizá-los me trarão tranquilidade e felicidade. Como grande projeto quero ter saúde e refrear minha impaciência com as trajetórias tortuosas e incontroláveis da contingência da vida. E, assim, acompanhar minha esposa nas tarefas cotidianas, observar silenciosamente os filhos realizarem seus projetos de vida e profissional e ver meus netos crescerem. Que medo dá não realizar este grande projeto.
Um pequeno e médio projeto que quero realizar simultaneamente é ficar em casa tranquilo e fazer as tarefas fora de casa, como ir a médicos, com calma e devagar. A vida de professor me deu uma autonomia cultural, assim consigo criar, procurar e buscar atividades que me dão satisfação pois me enriquecem culturalmente e existencialmente. Quero, assim, ter saúde e tranquilidade para conversar com amigos que fiz, ler meus livros que escolho, sem preocupação em ser da minha área acadêmica, mas que são da minha área de interesse cultural. Quero assistir sossegado os jogos de futebol, principalmente do Flamengo, pois futebol não é apenas um esporte, mas uma lição de vida que precisamos ficar atento para garimpar entre chutes, pontapés e gols. E, quero ter a sabedoria de ver meus netos brincarem, de meus filhos e minha esposa contarem a sua vida sem que eu olhe para o celular, sem me preocupar com o imediato, mas com a relação entre passado, presente e futuro. Não sabia que na aposentadoria teria tantas tarefas a cumprir.
Por fim, há um grande medo, além do medo da morte, pois a frequência de aposentados morrendo é grande. Na avaliação retrospectiva, é sentir que, apesar de cumpridor de deveres e responsável, minha produção, ou seja, minha contribuição para o produto social, foi pequena, e não sei como poderia ser maior e melhor. Por isto, posso ser uma página virada. A vida profissional, a universidade, os colegas professores e os estudantes podem seguir sem a minha presença pois ela é facilmente substituível. O que é natural na passagem de uma geração para outra, mas, como percepção individual, é doloroso. Não existe mais ilusão, e sim uma avaliação severa.
Ter sido uma formiguinha no imenso projeto de educação e de melhoria do Brasil e do mundo é um consolo, que dá uma satisfação fugaz mas não afasta a permanente sensação de inutilidade. Prospectivamente, a aposentadoria abre a possibilidade de uma produção individual, com pouca contribuição social doravante, mas que pode trazer satisfações subjetivas para afastar pensamentos ruins e fantasmas.
Este pequeno texto é um incentivo para que outros colegas aposentados também apresentem seus relatos. E que sejam mais otimistas.
*Wagner Leal Arienti é professor aposentado do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSC
Artigo recebido às 16h22 do dia 17 de agosto de 2026 e publicado às 9h41 de 18 de agosto de 2026
