*Por Edmundo Lima de Arruda Jr.
Tomem milhões de brasileiros como portadores de sofrimento. Sofrimento geral. Esqueçam as causas da dor. São muitas, variadas. Reais e fictícias. Ninguém escapa. Ricos e pobres. Sulistas ou nortistas. Pretos e brancos. Direita e esquerda. Um mal-estar ronda nossos trópicos.
Há o governo, desgastado com dificuldades em dar continuidade em seu projetos de integração social num mundo cheio de crises, apoiado por setores progressistas confusos em lidar com as razões e oscilações do mercado e das políticas sociais.Situados no estrangulamento da distribuição de direitos e no movediço terreno do endividamento por acesso ao crédito. Frustrações acompanham desejos não realizados.
Há a oposição, povoada por milhões de cidadãos inseguros, medrosos, desesperados com muitos fantasmas, o do comunismo e do identitarismo. Apavorados com a instabilidade do que pensam ter existido no passado como costumes, tradições, família, igreja, perfeitanente ordenados numa pressuposta comunidade integrada. O clima lembra a Alemanha há cem anos…
Lulopetistas e bolsonaristas são fustigados pelo vendaval de informações descontextualizadas, desinformações, notícias falsas, típicas dos tempos da aceleração de conflitos, défices de modernidade, combinado com a “razão algorítmica”. Eis o pano de fundo para a reprodução de ressentimentos mútuos.
Ambos petistas e lulistas, defensores do governo ou críticos, até os ausentes e desinteressados na condição brasileira, sofrem em alguma medida com a infantilizaçâo da política no sentido de regressão, ou diminuição das capacidades afetivo-cognitivas. Há um eclipse no discernimento. Todos tendem a simplificar o tamanho do Abismo.
Nessa patologia da política menor a autocrítica se faz urgente. E a análise é vital, seja ela de base freudiana ou não. Há graus evidentes de sintomas de uma sociedade doente.
A dicotomia esquerda/direita não morreu mas se dissolveu em boa parte em face as ideias não atualizadas ou incapazes de perceber a urgência de reinaginação. A direita liberal e a esquerda democrática não souberam oferecer soluções sólidas para a conflituosidade social. Nesse contextos ressurge a ultradireita…
O dia 04 (primeiro turno das eleições) testemunhou a ponta do aicebergue dessa divisão de um país colocado entre um sonho quase impossível – o do casamento eterno entre acumulação e distribuição de direitos fundamentais e o desejo mórbido da política saneadora – via retorno ao pesadelo totalitário, grau zero da “política saneadora”.
No dia 25 (segundo turno das eleições) os brasileiros vão decidir entre a manutenção de uma democracia que não é uma Brastemp, mas funciona, e a aposta às cegas num sistema com nítidos sinais neofascistas.
*Edmundo Lima de Arruda Jr. é professor aposentado do CCJ/UFSC e ex-presidente da Apufsc-Sindical
Artigo recebido às 9h02 do dia 6 de outubro de 2026 e publicado às 9h37 do mesmo dia
