Vivemos sob uma ditadura da diretoria?

*Por Rodolfo Palazzo Dias

Na atual conjuntura do nosso sindicato, desde a greve de 2024, observamos estarem consolidadas duas posições políticas antagônicas, que se refletiram tanto nas formações das chapas para as eleições da diretoria daquele ano como também nas desse ano.

A luta política entre posições distintas deve ser vista positivamente dentro do sindicato. Mostra que as pessoas estão mobilizadas, interessadas e preocupadas com os rumos da ação coletiva que fazemos e deveríamos fazer.

Por isso, é importante uma variedade de espaços dentro do sindicato em que as diversas forças políticas, não apenas as vencedoras das eleições para a direção, possam atuar. Se relacionar com a força vencedora, e inclusive cobrar daqueles que venceram.

Mas não é essa a situação em que vivemos.

Considerando aqui os argumentos dos colegas que se colocaram com posição política diferente da minha (nesse curto período que estou dentro do sindicato, desde 2022), eu identifico os seguintes argumentos:

  1. A Assembleia é um espaço deliberativo caótico, esvaziado, compostos por pressão de massas que, portanto, não tem legitimidade decisória;
  2. O Conselho de Representantes tem como mesa a própria diretoria, então é atribuição desta encaminhar aquilo que ela julgue procedente;
  3. Existe um grande inimigo dentro da conjuntura política hoje que precisa ser combatido, que é o “Andes” (bem destilado no seguinte artigo: https://www.apufsc.org.br/2026/10/16/eleicoes-da-diretoria-da-apufsc/;

E como solução para essa situação política toda o processo plebiscitário sempre é evocado. O que a princípio é positivo, decisões plebiscitárias tem sim uma legitimidade maior. O problema acontece quando o plebiscito é utilizado para inviabilizar o funcionamento das instancias institucionais previstas no Estatuto do nosso sindicato, permitindo o trabalho de apenas uma das instâncias: a diretoria.

Primeiro exemplo disso temos na reunião do Conselho de Representantes no dia 14 de setembro de 2026. Nessas reuniões, quem coordena a mesa é a diretoria. E nesse dia, a diretoria usou essa prerrogativa, primeiro, para não colocar em debate o sistema eleitoral que utilizaríamos. Mas não apenas isso, ela se negou a votar quem faria parte da comissão eleitoral. Ou seja, a diretoria impediu que o CR cumprisse a sua obrigação regimental que é selecionar a comissão eleitoral. O resultado do plebiscito é evocado como “legitimador” dos acontecimentos absurdos daquele dia (https://www.apufsc.org.br/2026/10/22/a-irresponsabilidade-da-chapa-1/) mas esquece que: primeiro, as pessoas que votaram não estavam presentes e não presenciaram os absurdos ocorridos lá; e segundo, que perderam a ação judicial, dado o flagrante descumprimento do estatuto do sindicato.

Segundo exemplo está na Assembleia do dia 16 de outubro de 2026. Esta foi realizada apenas porque houve essa ação judicial em que o sindicato perdeu. Ela foi iniciada com atraso por um problema computacional (limite máximo de pessoas na sala online) e, quando iniciou-se efetivamente com o quórum devido, por ter iniciado meia hora depois do previsto, nada podia ser decidido nela. Tudo teria que ser enviado para a aprovação plebiscitária posterior. Não estou aqui inferindo que o problema computacional foi causado intencionalmente, mas que ele foi utilizado politicamente para inviabilizar qualquer decisão dentro da Assembleia.

Efetivamente, tanto o Conselho de Representantes como a Assembleia Geral tornam-se espaços amarrados por uma diretoria que não deixa que nada seja decidido. O mecanismo plebiscitário é importante e louvável, mas não deve ser acionado como desculpa para impedir os outros espaços de deliberação do nosso sindicado de trabalharem. Esse processo eleitoral possui uma situação esquisitíssima, em que os sindicalizados estão escolhendo não apenas a diretoria da próxima gestão, mas também a comissão eleitoral indicada por essas forças; quase como uma eleição em dois turnos esdruxula.

Como a votação plebiscitária da comissão eleitoral aumentaria a democratização do pleito? Não bastava representar as duas forças políticas adequadamente entre os membros da comissão e deixar os freios e contrapesos se equilibrarem? Por que não deixaram o CR trabalhar no dia 16 de setembro, considerando o seu papel estatutário?

É impossível responder as perguntas acima se não considerarmos os ânimos que a atual gestão, e parte dos colegas também, tem diante de seus opositores políticos, que é o grande fantasma do Andes. Nesse caso, é necessário impedir que todas as instâncias do sindicato (que não a diretoria) funcione pois, neles, os “inimigos” estão presentes. Eu imagino que tais apreensões devem ter fundamento nas experiências dos colegas, que em algum momento (antes da reforma do Estatuto da APUFSC) podem ter passado por situações terríveis com as antigas gestões.

Mas agora trazendo a minha própria experiência de professor recém-admitido (entrei na UFSC em 2022), participando da greve de 2024 e observando o comportamento das forças políticas naquele momento, para mim era flagrante quem me ofendia por minhas posições políticas e quem dialogava. Algumas vezes fui aos Comandos de greve e votei pelo fim da greve. Nunca fui ofendido por nenhum dos colegas, ao contrário, vieram dialogar comigo e debater posição política. O espaço assembleístico se mostrou extremamente positivo e enriquecedor. Completamente o oposto do que eu vivencio na relação com essa diretoria (e com a anterior).

Pessoalmente eu lamento muito pelos colegas que tiveram péssimas experiências com gestões anteriores, porque eu estou passando por isso agora. A última reunião do CR e a Assembleia de sexta foram horríveis, com ofensas para todos os lados, e a diretoria não pode se eximir da responsabilidade das suas práticas relatadas nos dois acontecimentos do início do texto foram o que criaram tudo isso.

O que queria sustentar aqui é que a atual diretoria está:

  1. Inviabilizando o trabalho de instâncias decisórias previstas no estatuto (Conselho de Representantes e Assembleia Geral), mobilizando procedimento regulares e irregulares para tal (tanto que perderam na justiça);
  2. Tratando a oposição como inimigos a serem combatidos a qualquer preço. E nesse agrupamento incluem-se pessoas diversas (mesmo eu, que entrei em 2022 e nem conheço o Andes). Oposição essa que, pela minha experiência, é muito mais razoável e menos agressiva que a diretoria atual.

Se isso me permite caracterizar a atual gestão como ditatorial, bem, existem limites. Acredito que o presente texto deve ser publicado no site; também vivemos em um sistema judicial que permite que a gente obrigue judicialmente a diretoria cumprir as
regras. Mas ter que entrar na justiça contra o próprio sindicato é o cúmulo do absurdo (e se perderam, isso é demonstração que a ação tinha procedência). A tentativa deliberada deles de inviabilizar qualquer instancia decisória diferente da diretoria
também é outro.

Não acredito que temos consolidada uma ditadura aqui, mas autoritarismos não se consolidam apenas com golpes; muitas vezes podem se desenvolver com comportamentos autoritários reiterados. Deslegitimar outras instâncias do sindicato e tratar os adversários como inimigos são fatos que mostram que a atual diretoria está indo nessa direção a passos largos.

*Rodolfo Palazzo Dias é processor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC e membro do Conselho de Representantes da Apufsc


Artigo recebido às 13h24 do dia 28 de outubro de 2026 e publicado às 10h52 de 29 de outubro de 2026