A Constituição na Praça: Uma nova paideia para os dias vindouros

*Por Samuel da Silva Mattos

Ele olha para o relógio de pulso antigo, aquele cujos ponteiros ainda insistem em tiquetaquear contra o silêncio da tarde, e depois volta os olhos para o vaivém anônimo da Praça XV. 

Hércules senta-se no mesmo banco de sempre, sob a sombra acolhedora e secular da Figueira. Apoia as duas mãos sobre o cabo de madeira do seu guarda-chuva, observando detidamente o homem que vende bilhetes de loteria, a mulher que corre em direção à Catedral Metropolitana e o jovem de fones de ouvido que flutua pelo calçadão, completamente alheio ao mundo ao redor. Ninguém ali parece notar, mas ele percebe com clareza: o tecido que une aquela multidão está puído.

Viver na pólis, ele sabe, tornou-se um exercício de solidão compartilhada. As pessoas pisam no chão da praça sem compreender que cada paralelepípedo só se sustenta porque existe um pacto invisível sob os seus pés. O cidadão comum olha para as grandes instituições como quem contempla um Olimpo distante, burocrático e hermético, sem perceber que o oxigênio da sua própria liberdade é regulado justamente por aquilo que ele ignora. Para Hércules, o divórcio entre o cotidiano das ruas e a norma fundamental é o grande drama dos novos dias. O texto que deveria ser o espelho da identidade coletiva virou um manual técnico, trancado em gabinetes de marfim.

É por isso que ele insiste em um pensamento silencioso, mas firme: é chegado o tempo de levar a Constituição para a praça.

Ele não se refere ao calhamaço de papel ou aos dogmatismos que alimentam vaidades acadêmicas e petições intermináveis. Hércules pensa na essência. Sabe que a praça precisa compreender que a dignidade não é uma concessão do Estado, mas a premissa de sua própria existência. Quando o debate público se reduz a fofocas de rede social e linchamentos virtuais, a política morre e dá lugar à barbárie. O direito, na visão que traz guardada em si, não é a lei do mais forte disfarçada de toga; é, por definição, o limite contra o arbítrio, a garantia de que o pluralismo sobreviverá à fúria das maiorias ocasionais. Levar a Lei Maior ao povo é devolver-lhe a chave da sua própria soberania.

Uma nova paideia é um imperativo que se impõe. Ao observar a decadência do espaço público, Hércules recorda-se, en passant, das lições do filósofo alemão Werner Jaeger em sua obra-prima, “PAIDEIA – A formação do homem grego”, onde o cultivo do espírito e a alta cultura eram indissociáveis do destino da comunidade jurídica e política. O velho observador compreende que é preciso refundar essa educação cidadã, aquela que ensina não apenas a ler as letras, mas a interpretar o mundo e a reconhecer o Outro como um igual em direitos e deveres. Sem essa formação ética e humanística, a democracia vira uma casca vazia, um ritual de votação sem substância crítica. A virtude cívica não nasce por geração espontânea; ela é cultivada no atrito saudável das ideias, no respeito às regras do jogo e na compreensão de que o bem comum exige o sacrifício de pequenos egoísmos.

E ele sabe que o tempo é escasso. Olhando para o horizonte urbano, Hércules sente o peso do calendário. O amanhã não é uma abstração; tem data e cobra o seu preço. 2030 vem aí. Essa virada de década não representa apenas um marco cronológico, mas o limite do compromisso coletivo com o futuro — seja no equilíbrio ambiental, na redução das abismais fraturas sociais ou na sobrevivência das liberdades democráticas.

Hércules levanta-se do banco. O sol começa a se esconder atrás dos edifícios e das torres da Catedral, projetando sombras longas sobre o concreto da praça. 

Ele ajusta o casaco. Sabe que não se pode salvar o mundo de forma solitária, e que os trabalhos que o aguardam exigem mais do que força bruta; exigem a paciência pedagógica de quem limpa os canais da comunicação humana. 

Caminha em direção ao Mercado Público, misturando-me à multidão que busca o final do dia entre os boxes e o burburinho da cidade. Afinal, a travessia já começou, e ele sabe que o mapa cívico precisa ser lido em voz alta, ali mesmo, onde a vida pulsa e clama por justiça.

*Samuel da Silva Mattos é procurador da Fazenda Nacional aposentado, professor de Direito Constitucional da UFSC, advogado, filósofo e cronista do quotidiano.

Artigo recebido às 14h40 do dia 29 de outubro de 2026 e publicado às 15h30 do mesmo dia