*Por Samuel da Silva Mattos
Dizem por aí que a língua portuguesa é a última flor do Lácio, inculta e bela. Um milagre nascido dos silêncios e das conquistas de um latim que precisou se desmanchar para virar mundo. A gente aprende a respeitar esse idioma assim, meio de longe, nas páginas sagradas de Camões, na precisão cirúrgica de Machado ou na melancolia doce de Pessoa. Mas a verdade nua e crua é que a nossa língua só cumpre o seu verdadeiro destino quando desce do pedestal acadêmico e pisa no chão batido da rua. É no miudinho do cotidiano, no calor do asfalto e no gogó do povo que ela se renova e mostra quem manda de verdade. Cada gíria que brota nas quebradas, cada expressão que nasce no eito e no labor da roça é uma engrenagem viva de um motor que se recusa a morrer na estagnação dos dicionários poeirentos.
Gostamos de pensar na gramática como um conjunto de regras de ferro, um tribunal severo de vírgulas e crases. Bobagem. A sintaxe mais bonita é aquela que acompanha o compasso do coração de quem fala. Quando o idioma abraça o sotaque, a nossa história miúda e a ginga de cada canto, ele deixa de ser apenas um código frio de comunicação e passa a ser um manifesto de identidade.
As línguas que não se curvam ao uso do povo viram logo peça de museu, poeira esquecida. O português brasileiro, ao contrário, sobrevive lépido porque aceita o erro que humaniza e a transformação que acolhe. É justamente no falar dos esquecidos que o nosso vernáculo ganha seus contornos mais viscerais, mais autênticos.
Caminhando pelo dia a dia desse país, a gente percebe logo que o idioma não é apenas o que se escreve com caneta fina, mas o que se grita no peito na busca por dignidade. É a costura perfeita entre a norma e a alma; esta, levantada do chão. Prova disso é a precisão quase geométrica, o impacto seco de um clamor popular que ouvi ecoar esses dias pelas ruas do Nordeste. Ali, a pontuação impecável se uniu à força da história para ditar o ritmo exato da resistência: Aqui é Bahia, e na Bahia, fascista não se cria!
Olhei de perto e vi uma beleza quase divina, como alma levantada do chão. A mesmíssima vírgula que isola o lugar é a que abre espaço para o respiro do orgulho. Esse arranjo verbal não brotou do acaso, num estalo de sorte. Ele pulsa com o eco secular de Canudos, da Revolta dos Búzios e daquele Dois de Julho antigo. Foi ali, no couro da história, que o povo baiano internalizou que a liberdade não se ganha de mão beijada: se toma.
Aquela frase dita na calçada carrega a pólvora do fardamento de soldado que Maria Quitéria vestiu para traduzir o direito à independência em tática de guerra. Há nela o mesmo sopro de tempestade dos versos de Castro Alves — o poeta que arrancou a língua das amarras aristocráticas e fez do lirismo um brado abolicionista. É a prova cabal de que a poesia e a baioneta se irmanam quando o assunto é defender a liberdade.
Esse brado das calçadas carrega, portanto, o mesmo peso institucional de um decreto, mas com aquela legitimidade soberana que só a voz das ruas tem o poder de conferir. É a oralidade que se faz trincheira, o idioma que bate o pé e se recusa a ser colonizado, o dizer que vira ato de insubmissão histórica.
Neste solo, a velha flor do Lácio desabrochou com espinhos grossos para quem tenta sufocá-la, mas guardou um perfume inebriante de liberdade para quem a cultiva com coragem. O idioma, no fim das contas, consagra-se como o território definitivo da nossa emancipation. É o espaço sagrado onde a gramática serve à vida, e nunca o inverso. É a palavra encarnada no corpo do trabalhador, que faz da sua fala o manifesto de sua própria existência. Se a opressão tenta ditar a regra, o povo vai lá e redesenha a sintaxe. Se o poder tenta calar o peito, a história faz da língua o estopim da libertação e a canção eterna da nossa rebeldia.
*Samuel da Silva Mattos é professor de Direito Constitucional da UFSC aposentado, procurador da Fazenda Nacional aposentado, advogado, filósofo e cronista do cotidiano; atualmente é professor voluntário do Centro de Ciências Jurídicas da UFSC (CCJ/UFSC).
Artigo recebido às 8h34 do dia 5 de novembro de 2026 e publicado às 13h12 do mesmo dia
