O sapo embalsamado

Talvez os colegas tenham lido um artigo que escrevi na edição de 23 de junho deste Boletim. Eu registrava o fato de que, apenas um mês depois de tomar posse, o novo reitor se confrontava com duas demissões no primeiro escalão de sua equipe. Um mau começo, sem dúvida – tanto mais se se consideram as razões reais (e não as inconsistentes alegações) pelas quais as demissões aconteceram.

Concluí o artigo salientando o meu temor de que o clima de amadorismo e complacência, tão presente na gestão Lúcio, continuasse a vigorar na nova reitoria

Pois bem: surge agora, na edição de 30 de junho deste Boletim, um artigo do professor Henrique Finco através do qual fico sabendo que o pró-reitor de Recursos Humanos da gestão Lúcio Botelho foi mantido em seu posto pelo professor Prata. Quem é ele? Limito-me aqui a repetir o que Finco tão apropriadamente disse: trata-se do “garoto de recados da Advocacia Geral da União no episódio do corte da URP. Explico: nossos patrões em Brasília enviaram um ofício a este pró-reitor, via AGU, solicitando a supressão da referida rubrica de nossos salários. Este ofício continha uma recomendação ao pró-reitor: comunique todos os professores que serão afetados, para que eles tenham direito à ampla defesa e ao contraditório, como manda a lei. Luiz Henrique [o pró-reitor em questão], mais que rápido e mais realista que o rei, respondeu, em um ofício à AGU, que nós já tínhamos sido comunicados em 2006(!) e que o corte já estava sendo providenciado. O problema é que nós não fomos comunicados em 2008 e não tivemos nenhum direito à defesa nesta ocasião”.

Em condições normais de temperatura e pressão, esse desmascaramento só poderia resultar na demissão do pró-reitor. Mas é claro que isso não acontecerá. O atual reitor, mercê de seus erros anteriores, tem agora que escolher entre o ruim e o péssimo, e ele certamente preferirá o desgaste de manter ao seu lado a bête noire da gestão anterior a suportar uma terceira defecção. Perder mais um pró-reitor seria o atestado definitivo de incompetência. Luiz Henrique será, pois, devidamente embalsamado e guardado no sepulcro de vidro de seu gabinete, não como uma bela princesa, mas na qualidade sapo mesmo. É o que dá para fazer a esta altura, a fim de salvar minimamente as aparências. 

A propósito: já que o tema da URP foi de passagem abordado aqui, vale recordar que, desde a posse do professor Prata, ninguém – não em público, pelo menos –  voltou a mencionar as medidas que a reitoria poderia tomar com vistas à recuperação e à extensão da rubrica. Estranho o fato porque, quando o professor Lúcio era o reitor, não se falava em outra coisa. É o caso de repetir Marvin Gaye: “What”s going on?”