E agora, reitora? “panos quentes” na crise?

Caminhando pelo Campus nestes dias do outono, me deparei com várias situações que merecem uma reflexão e que compartilho publicamente. Recebi várias críticas por parte de colegas que, considerados de “esquerda” me disseram que minha atitude de pedir o “impeachment” da Reitora estaria a serviço das forças de “direita”. Para isso já estava preparado! O que não esperava era ouvir que estou sendo monitorado, que apenas assino o que exponho. Chegaram ao absurdo de comentar, fiéis escudeiros do poder, que o Ex-Reitor Diomário Queiroz seria uma delas. Não conhecem o Prof. Diomário! Também que o atual Diretor do Centro Tecnológico, seria outra pessoa a me monitorar. Outro absurdo! Não conhecem as pessoas para prejulgá-las e emitir opiniões sem fundamento! Por fim, que eu estaria em acordo com minha colega, atual Vice-Reitora, para que na iminência da Reitora sair, o CTC passar a comandar a UFSC. Mais um absurdo! Pois, faz muito tempo que não converso com a Profa. Lúcia.

Mas, o que mais preocupa é o sentimento de indiferença por parte dos ditos acadêmicos conscientes politicamente que se manifestam diariamente nas listas de discussões e fazem de conta que nada aconteceu e que nada acontece a nossa volta. As conversas giram em torno de assuntos interessantes, mas nada se diz sobre o achincalhe, sobre os descalabros da atual gestão.  E isso significa que o silêncio também diz muito: se jogam panos quentes, que apenas se deixa ao tempo para passar a maré ruim, que tudo se espera volte ao normal. Afinal, não há crise! Para que insistir se tudo começa a se acomodar! Vamos dar tempo ao tempo! Para que tomar partido?

Porém, como disse A. Gramsci, “Viver significa tomar partido“. E eu insisto em tomar partido: o partido da instituição! Que sinto, ao percorrer o Campus, é o partido da maioria silenciosa. E porque silenciosa? Porque há um medo, está implantado um regime de terror. Medo de fazer parte dos que estão sendo processados na atual gestão. Terror imposto e que é latente na forma de exercer o poder. Aproximei-me de um velho colega e notei o extremo nervosismo em conversar comigo. Como me dizendo, “se me vem conversando contigo, estou ferrado“. Isso constatei num almoço com colegas e amigos onde as piadas eram: “ainda não te processaram?” ou “te cuida, vão abrir um processo contra ti!”.

Tenho realizado algumas tentativas para ter um encontro com a Reitora e a Vice-Reitora (minha colega de departamento), e tem-se mostrado infrutífero. Solicitei audiência há mais de uma semana e até o momento não obtive retorno. Como isso não foi possível, manifesto o que penso e expresso com toda sinceridade, tornando público. Lembrando que em 2013, escrevi artigo denominado SAÚDE INSTITUCIONAL, publicado no boletim da Apufsc nº 783 de 23/05/2013 à pagina 3 (https://www.apufsc.org.br/downloads/boletim_783.pdf). Naquela oportunidade, no último parágrafo dizia:

Acredito, confio e faço votos que, nos próximos três anos da Gestão, irá prevalecer o caráter republicano, a transparência e meios através dos quais se possam construir efetivamente os caminhos do diálogo intra-campus e entre-campi, bem como ampliar as relações com a comunidade catarinense, no plano municipal e estadual.

Nestes trinta e sete anos (37) de UFSC, já convivi com nove (9) gestões administrativas: dos Professores Caspar Erich Stemmer (19762-1980), Ernani Bayer (1980-1984), Rodolfo Joaquim Pinto da Luz (1984-1988), Bruno Rodolfo Schlemper Júnior (1988-1992), Antônio Diomário de Queiroz (1992-1996), Rodolfo Joaquim Pinto da Luz (1996-2004), Lúcio José Botelho (2004-2008) e Álvaro Toubes Prata (2008-2012). Criticas fiz a cada uma delas por encaminhamentos de questões que se consideravam relevantes para a comunidade universitária. Cada uma delas com sua marca, imagem e contribuição que a comunidade reconhece.

Mas o que temos nestes dois anos da gestão “A UFSC QUE QUEREMOS”? Um total descaso para com a história da instituição! Descalabros nas ações administrativas sejam no Campus (o mais recente, o descaso para com o Curso de Odontologia) como nos Campi, principalmente nos de Blumenau e Joinville. O que é isso, Reitora? Notem que não a chamo de magnífica, pois concordo com um colega que tem mais de trinta anos de UFSC e me dizia nestes dias que já tivemos tantos Reitores aos quais nos referíamos como MAGNÍFICO. No caso da atual gestão, ela não merece esse título! Eis uma das marcas que ficarão dessa gestão. Além da marca do terror e medo! Pelo visto estamos sendo testados no campo das relações de poder e subjetividades.

Temos ações administrativas e como marca da gestão, até o momento, além de uma quantidade que se comenta ultrapassa a casa dos duzentos (200) processosd+ a intervenção no Museu Universitário, isso mesmo intervenção, pois não houve nenhum debate em algum conselho superior uma vez que se tratava de um órgão suplementar e com uma história que foi rasgadad+ o descaso para com a cultura na UFSCd+ falta de investimento na extensão (comenta-se que a Semana de Pesquisa e Extensão passará a ser bianual)d+ as fortalezas sem apoiod+ a segurança no Campus quanto à iluminação somente agora com essa crise, que se compromete a elaborar um projeto. Que gestão é essa, reativa e não propositiva!

Qual é a atitude que vem sendo tomado pela Reitora diante tamanha crise? De silêncio! Não dá entrevista nem ao Jornal Zero que é um jornal laboratório, apenas se manifesta por escrito. De preservação da instituição? A instituição está preservada, Senhora Reitora? Não! A instituição vive uma crise administrativa nunca vista. A nossa instituição está sendo achincalhada,  enlameada, está com a sua imagem mais do que arranhada local, regional, nacional e internacionalmente. Tanto assim que pergunto: quantas universidades federais até o momento se solidarizaram com a UFSC? Uma? Mais? Por que será? ANDIFES se solidarizou conosco? O CRUB se manifestou? O Conselho Universitário da UFSC manifestou-se trinta dias depois, e dividido!

Afinal, o que ocorreu no Bosque fere a autonomia do Campus Universitário, não é? Ou Você, Senhora Reitora, mentiu? Como dizia A. Gramsci: “mentir para si mesmo é a pior das mentiras“.  Os fatos estão a demonstrar que estamos vivendo uma situação em que a instituição deve ser preservada. Sim! Mas, preservada de continuar sendo enlameada, arranhada a sua imagem perante a sociedade. E isso, Senhora Reitora demanda um gesto de humildade. De descer do pedestal e se quiser administrar até 2016, começar a dialogar efetivamente com as instâncias deliberativas da instituição. Dar fim ao monólogo estabelecido pelo poder, que é efêmero!

Precisa tornar efetivo o seu compromisso expresso na carta de princípios em que se propus: …”permanente diálogo entre os diretores e a administração central, contribuindo para o desenvolvimento de propostas e ações de forma sistêmica, holística“.  Nos pressupostos registrou como foco institucional:A prioridade é a defesa da instituição“. Cadê o “Compromisso e coerência com os princípios?”. Onde está a atuação “Independente de grupos constituídos e de política partidária”?  Vou parar por aqui, pois é só recuperar todo o material de campanha para se decepcionar com as meras promessas de candidata que esquece o que falou e escreveu. A quem quiser lembrar: http://roselane-lucia.blogspot.com.br/p/proposta-resumo.html

Transcrevo manifestação pública de minha colega e amiga Professora Clara Amélia de Oliveira (aposentada) que sintetiza o sentimento de muitos:

“…eu proporia à reitora que assumisse a responsabilidade pelo que aconteceu e buscasse reconstruir a ordem de valores que foi quebrada quando deixou estudantes assumirem a liderança do espaço físico da UFSC por razões não de busca de uma melhor educação ou outra causa qualquer, digna dos membros da universidade, mas por repelir uma ação policial que, na prática, interrompeu a sua autonomia de fumar maconha ao lado da escolinha (creche) e colégio de Aplicação. Qual a responsabilidade destas pessoas de agirem com tanta autonomia  mas sem consciência das consequências possíveis? A professora Roselane tem, no momento, uma oportunidade única de pedir desculpas públicas e terá minha confiança, pois sempre trabalhei com processo, com evolução, com o erro como parte do aprendizado. Não reconhecer o erro é se comportar de forma estática e retrógrada.”

Para encerrar, escrever que o pedido que fiz de seu impeachment considero legítimo e sem ter a conotação de quebrar as regras do jogo. Muito pelo contrário, quero que as regras do jogo sejam respeitadas. Que a consulta da próxima eleição para Reitor respeite a tradição “democrática” de paridade conquistada na década de 80 do século XX! Que Você, Senhora Reitora, tenha a humildade de avaliar que está fazendo sangrar a nossa instituição e que a cada dia a situação está se tornando insuportável na comunidade universitária e perante a comunidade externa, tendo uma imagem cada vez mais negativa, pois por onde circulamos os comentários não são nada elogiosos. Siga o exemplo do Papa emérito Bento XVI que humildemente se retirou ao avaliar que não teria condições e capacidade de continuar administrando.

Precisa, Senhora Reitora, realizar um processo de autocrítica, de caminhar pelo Campus, ir às unidades administrativas participar das reuniões como o fez a Vice-Reitora que, ao saber da reunião informal do conselho do CTC início de abril, solicitou a participação, indo com os Pró-Reitores oriundos daquele centro (de Extensão e de Planejamento). O que eles ouviram dos conselheiros, a Senhora era para ter ouvido. Não faça “ouvidos moucos”! Não ouça apenas os que a rodeiam e que apenas vão dizer o que Você quer escutar! Saia um pouco a caminhar pelo Campus, lembrando-se de suas caminhadas incansáveis de campanha.  Desejo-lhe uma boa caminhada, onde espero encontrá-la para termos uma conversa franca, aberta, sincera, civilizada e afetuosa! Ah! E devolver-lhe a Carta de Princípios que me entregou no 2º turno de campanha e que está sendo rasgada diuturnamente.

“No me duelen los actos de la gente mala, me duelen los actos de la gente buena”.

Martin Luther King