Na falta de integridade, sobra mau exemplo

O Brasil é um país de contrastes, alguns nos enriquecem e muitos outros nos diminuem. Assim, percorrendo nosso vasto território de Norte a Sul, Leste a Oeste ou, generalizando, em qualquer outra direção encontramos diferenças naturais, climáticas, culturais, de costumes e também na própria forma de falar. Esses são os contrastes que nos enriquecem como nação. Há também contrastes que incomodam e que se manifestam na disparidade dos índices de IDH entre as regiões de nosso país, notadamente entre Norte e Sul, e também os índices de violência alarmantes de nossas metrópoles. Nada disso explica a situação em que nós nos encontramos. Não estamos em crise por conta de diferenças regionais quer sejam culturais, ou geográficas (por exemplo, um Nordeste seco e empobrecido pela falta de políticas que tragam desenvolvimento à região contra um Sul e Centro-Oeste com terras mais férteis, etc.).

Com efeito, há um aspecto  mais elusivo que pode explicar nossa situação atual e que passa despercebido, já que não surge como um contraste, mas é algo enraizado e que não se manifesta de forma tão explícita nem no que vemos e experimentamos pela exuberância da nossa geografia e da nossa cultura, nem pela repulsa causada pela negligência que permite que muitos de nossos cidadãos vivam na miséria. Sim, há um elemento que reside naquilo que eu definiria como sendo a “consciência coletiva da nação”,  algo que se manifesta nos valores, nas expectativas, e no civismo e que forma, na média, a percepção que temos de nós mesmos como povo. A esses atributos de valores, expectativas e civismo que incidem sobre todos, eu incluo mais um que incide apenas sobre a tal “elite intelectual” (existe alguma em nosso país?) e que eu classifico como “razoabilidade” (ou para usar um termo mais pedante, “consistência lógica”, “integridade de pensamento” e “honestidade intelectual”). Caberia a essa “elite intelectual” dar o bom exemplo não apenas no exercício de sua profissão, mas também na sua vida pública e privada. Infelizmente, não é o que acontece, e onde falta integridade abunda o mau exemplo, e é desse mau exemplo sistemático que se estabelece  coletivamente  o que somos e daí  se compreende também a situação em que nós nos encontramos.

Assim, desde pequeno nos acostumamos que é lícito e engraçado vaiar o juiz num estádio de futebol assim que ele entra em campo, antes mesmo dele cometer qualquer erro, algo, portanto, injusto e não nos incomodamos de que isso estimule, ainda que sutilmente, a aceitação de certa forma de injustiça, principalmente em crianças e adolescentes. Também achamos normal jogadores simularem faltas, ou tentarem de forma deplorável marcar gol com a mão, entre outros tantos atos ilícitos. Tais comportamentos foram sendo legitimados por comentaristas esportivos como sendo parte da “picardia” do jogo, um termo não muito freqüente, mas que é sinônimo de “logro”, uma ação que na sua essência é desonesta1. Faltou aqui o bom exemplo da nossa classe de comentaristas em não propagandear o vício, por mais inofensivo que a princípio pareça.

Também, tornou-se comum ver cidadãos saqueando cargas de caminhões acidentados nas rodovias que cortam as periferias das cidades, como se aquilo não fosse roubo, ou o que é pior, achamos normal ver pessoas justificando tais ações usando um discurso de que é um ato lícito daqueles que vivem excluídos nas periferias e que são vítimas da “injustiça social”. A degradação moral é tanta que até mesmo no coração comercial das cidades basta uma greve de policiais militares para que pessoas até então tidas como honestas se aproveitem da situação para saquear lojas. Qual seria a diferença então de aceitar tais ações e censurar aqueles que não faz muito tempo assaltaram um motociclista acidentado em um  túnel do Sul da ilha aproveitando da situação de que ele estava caído no chão? Será que estamos mesmo tratando de coisas distintas? Num e outro caso, roubo é roubo, ou não? A única argumentação para tal distinção fica mesmo por conta do discurso alucinado de alguns “cientistas” sociais que neste caso entendem o roubo a lojas como a resposta dos excluídos a um capitalismo excludente [SIC], enquanto que repudiam o roubo ao homem caído como um roubo a um indivíduo2. Mais uma vez, os “cientistas” sociais que pensam desta maneira dão um mau exemplo, pois seu discurso dá a idéia ao povo de que roubos e depredações podem ser ações legítimas, e aqui não percebemos que isso também volatiliza no povo o sentido de correção e integridade3.

 

Passando ao meio universitário, alguns acreditam ser a elite do pensamento, talvez por ostentarem um doutorado, algo que por si só não diz muita coisa4. De fato, se dissesse então não veríamos o discurso irracional que se forma no debate dentro da universidade sobre as questões nacionais, pois o que vemos é um discurso contaminado por uma irracionalidade mais comum a militantes de uma causa política e ideológica do que a professores de quem se espera um discurso embasado numa argumentação minimamente bem construída. Um exemplo. Em vistas das evidências é difícil não ser favorável ao afastamento de Temer da presidência, contudo, os que bradam “Fora Temer” nas assembléias do sindicato parecem seletivos quanto a ética, pois ao defender as “diretas já!” beneficiam diretamente ao Lula, ignorando que ele está igualmente implicado nas denúncias do tal dublê de empresário Joesley Batista. Vemos aqui  um exemplo de falta de integridade de pensamento e também de desonestidade intelectual aguda, vindo de um lugar onde se espera o contrário e, assim, a academia também dá mau exemplo ao povo.

A classe política também há muito tempo dá mau exemplo, jogando a ética e a decência para escanteio. Não me refiro apenas aos muitos parlamentares envolvidos em casos de corrupção, mas também a políticos que embora pareçam honestos (obviamente, enquanto seus nomes não surgem no noticiário), no entanto, pertencem a partidecos sem muita representatividade que defendem em seus estatutos idéias que se implementadas são o primeiro passo para tornar o Brasil um regime totalitário.  Como justificar então que PSOL, PCdoB, PCB, PSTU, PCO, etc., nunca tenham criticado violações de direitos humanos nos regimes ditatoriais de Cuba, ou da Venezuela, entre outros? Estariam os políticos dessas agremiações espúrias normatizando tais exceções como regra geral, desejando aplicar  isso ao Brasil? Como pode parlamentares do PSOL se apresentarem como defensores da democracia quando se calam diante desses regimes de exceção, a ponto de também não se incomodarem com o fato de que um dos ideólogos fundadores do PSOL ter sido um indivíduo tido como terrorista na Itália, Achille Lollo, condenado em seu país por incendiar a casa de um desafeto político e ter causado a morte de um de seus filhos? Neste caso, vemos mais uma vez um caso crônico ou de ignorância acerca das origens do seu próprio partido, ou da mais pura desonestidade intelectual, onde o silêncio desses parlamentares quando confrontados com essas questões visa tão somente camuflar o conteúdo abjeto do que pensam, defendem e sonham. Podemos confiar nosso futuro a essas pessoas?

Finalmente, e para não me alongar demais, uma das figuras mais emblemáticas da República, que pelo menos em tese tem sua função associada a prática da correção e da justiça, acaba de dar um péssimo exemplo a nação. Refiro-me aqui ao tal procurador Ricardo Janot que na ânsia de limpar o País abrindo uma frente de investigação na posição mais alta do executivo (e está certo em fazer isso, mas não a qualquer custo), assim o fez concedendo um acordo de delação extremamente generoso ao delator, que infelizmente passa ao povo a idéia de que alguns crimes compensam, já que o beneficiado sequer será preso. Numa entrevista, Janot se pergunta, na solidão de seu cargo, qual o preço que a nação estaria disposta a pagar (ao tal Joesley que declarou ter corrompido mais de 1800 parlamentares) para desvendar as tramas da corrupção no cargo mais elevado do executivo? É patético que Janot tenha aceitado o acordo deixando livre o tal Joesley, não só comprometendo a justiça, mas, ainda mais grave, criando no imaginário do povo a idéia de que certos crimes compensam. É o que demonstra o tal Joesley que desfruta hoje de uma boa vida em New York City as custas do seu ofício criminoso corrompendo políticos para receber crédito fácil do BNDES e, de forma cretina, pouco se importando de passar aos seus filhos um legado do qual possam ter orgulho ou servir de referência. 

E assim caminha o país. Somos o que somos porque coletivamente a consciência nacional foi corrompida por maus exemplos vindos daqueles que deveriam dar o bom exemplo. Achamos tudo normal e gradualmente corremos o risco de perder a referência da integridade e honestidade. Quando não se tem mais a capacidade reflexiva de olhar o que está errado e verificar individualmente o que forma os nossos valores positivos é porque  já deixamos de ter a certeza, resta, contudo, a esperança e o trabalho de construir algo novo. Aqui fica então a questão: Quem dará o bom exemplo para fomentar essa reconstrução?

 

Notas:

1. A insistência de usar termos sinônimos para atenuar uma situação desfavorável parece ser algo comum em outras nações também. No Japão criaram o termo “enjo-kōsai”  que designaria algo como “namoro compulsório” envolvendo colegiais e homens mais velhos, e que muitos vêem na verdade como sendo  prostituição juvenil, algo bem visível em Tokyo.

 

2. Não seria exagero que entre os “cientistas” sociais da vanguarda alguns  ainda justificassem o assalto ao indivíduo caso o mesmo fosse rico.

 

3. Aqui, muitos “cientistas” sociais argumentarão que a “correção e integridade” a que eu me refiro são meros “valores burgueses”, e que adotando outro paradigma, por exemplo, o cânon marxista, pode-se justificar qualquer coisa  que sirva ao propósito revolucionário. Tal pensamento não deixa de evidenciar o marxismo como uma doutrina corruptora, exceto se aceitarmos a violência da prática marxista como vista em todos os regimes comunistas de Lenin, Stalin, Mao, passando por Pol Pot, Fidel entre outros.

 

4. Um exemplo, Freeman Dyson é um caso de uma pessoa sem doutorado, mas bom o suficiente para estar no The Institute for Advanced Studies em Princeton onde provou a equivalência da formulação da Eletrodinâmica Quântica dos modelos propostos por Schwinger, Feynman e Tomonaga, ganhadores do prêmio Nobel de Física. Estranhamente, o establishment científico da época não concedeu a Dyson o prêmio Nobel por isso, talvez por não ter doutorado.

 


Marcelo Carvalho

Professor do Departamento de Matemática