Permanência de Weintraub faz mal ao Brasil, diz deputado da Comissão de Educação

“Não tem condição técnica nem emocional de permanecer no cargo”, afirma parlamentar do Ceará

O deputado Idilvan Alencar (PDT-CE) nem sequer havia se inscrito para questionar, na Comissão de Educação da Câmara, o ministro da Educação, Abraham Weintraub. Contudo, a afirmação do ministro de que ‘haveria uma revolução na área’ o fez mudar de ideia. Em sua breve fala, o deputado sugeriu a demissão do ministro com a expressão cearense “pegar o beco”, ou seja, ir embora, uma vez que “não tem condição técnica nem emocional de permanecer no cargo.”

“Quando ele começou a falar que estava fazendo uma revolução, comecei achar aquilo tão louco”, diz Alencar. Weintraub teve que se explicar à Comissão de Educação, na última quarta-feira (11), a respeito das acusações de plantio de maconha nas universidades.

Deputado na primeira legislatura, Idilvan já foi secretário de Educação do Ceará, estado com resultados festejados nos últimos anos, e presidente do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), órgão do Ministério da Educação.

Confira a entrevista para o jornal Folha de São Paulo:

O sr. não foi o único, mas um dos mais contundentes a pedir a saída do ministro, quando disse para ele “pegar o beco”. Por quê?

Está passando da hora. Você tem um Brasil com questões da permanência escolar, acesso, e o ministro não olha para isso. Ele não está preocupado com criança na creche, em pensar o que fazer se o aluno não conclui o ensino médio. Quando fala de resultados de educação, fala para execrar, agredir, para dizer que nada presta. A permanência dele faz muito mal para o Brasil como um todo, não só para a educação. Ele saindo, faria um bem, se chegar uma pessoa que conheça, que tenha alguma experiência.

Especialistas apontam que, além da liturgia do cargo, as políticas educacionais em especial exigem mais diálogo. A postura do ministro atrapalha a educação?

Nenhum programa vai dar certo se não respeitar as pessoas. Tem diferencial na educação porque se trata de gente, de pessoas, professor, gestor. É mais do que orientar, é conquistar, convencer. Ele está na fase pré-histórica do respeito.

O ministro disse que a educação vive uma revolução sob sua gestão. Como o sr. avalia?

A gente entende revolução, no conceito mais primário, como mudança. Mas o que sentimos é uma ausência, uma regressão em alguns assuntos. Eu era oposição ao governo [Michel] Temer, mas não posso deixar de reconhecer que [os ex-ministros] Mendonça [Filho (DEM-PE)] e o Rossieli [Soares Silva] tiveram grandes avanços na educação de tempo integral. Havia reuniões sobre isso, para discutir edital, apoio pedagógico, e agora não se fala nada. Que revolução é essa? A revolução de agredir, de desrespeitar, criminalizar? Por isso fiz aquela ironia de que só em um alto estágio de drogas se consegue em algum momento ver essa revolução.

Congressistas haviam entrado em confronto com Ricardo Vélez Rodríguez, e agora com o Weintraub. O congresso acaba limitado com essa relação ou o governo que mais perde?

A prerrogativa [de escolher o ministro] é de responsabilidade do presidente, mas qualquer dirigente tem de estar atento aos movimentos da sociedade, ao próprio Congresso. É visível que o ministro não tem trânsito no Congresso, só esteve lá convocado, superagressivo. Ele, na comissão, não está fazendo nenhum favor. Precisa explicar o que está fazendo, como vai gastar, não falar de revolução e levar reportagens de uma pauta que não é dele. Essa pauta de drogas não é do MEC.

Mas foi a Comissão de Educação que o convocou para falar do assunto.

Convocou para que ele explicasse por que estava sendo agressivo e generalista. E o que ele fez foi piorar a condição da fala inicial. E, mesmo sobre essa pauta, que ele falasse de sua responsabilidade, que colocasse fatos reais, mas ele mostrou reportagens de processos já apurados. Os primeiros momentos foi um filme de terror. ‘Olha aí tudo pichado’, mostrava uns vídeos. ‘Olha essa decoração’… Eu confesso que tive um certo medo, como num filme de terror com aquela narração, uma coisa assombrosa. E ele falava com alegria, emoção, celebrando. Nós temos uma quantidade limitada de energia, temos de escolher onde colocar, ou no ódio ou no respeito. Ele lida muito mal com isso, por isso eu disse que ele não tem inteligência emocional para ficar no cargo. Ele precisa fazer um curso para alocar energia.

Ele defende que quer mostrar a realidade para que a sociedade possa separar o joio do trigo. É uma boa maneira de agir?

É a pior maneira possível. Se você tem uma universidade com um problema, você começa com o reitor, diretor, ouve. O que ele resolve dessa forma? Na verdade, ele quer colocar a sociedade contra as universidades públicas.

Qual balanço deste ano para educação?

Não sei se na história da educação do Brasil tivemos um momento tão infrutífero. O MEC virou um arsenal ideológico via Twitter do ministro. Bate na República, bate no Paulo Freire. Secretários, parlamentares, reitores, universidades, professores, ele conseguiu unanimidade na educação, o que não é fácil. Só as inúmeras trocas do primeiro escalão, por si só, já inviabilizam a gestão, e esse desapreço total à cooperação e ao diálogo, que é a base da educação. Por isso eu digo que ele não tem condição técnica, não entende como funciona.

O Ceará é o exemplo mais lembrado na educação, sobretudo na alfabetização, e o governo federal tem a Política Nacional de Alfabetização. Há algo em comum e que mostre um caminho para dar certo?

Absolutamente nada. Se você perguntar qual foi a chave do sucesso, o segredo, foi a cooperação. O conceito de rede. Parceria entre estado, municípios, redes, professores, estudantes, pais, Undime, Unicef, Assembleia Legislativa. E ele vai exatamente na contramão total dessa questão. Método fônico é método, não é programa de alfabetização, que exige formação de professor, material, no nosso caso teve premiação, responsabilidade fiscal. Dizer que método fônico resolve a alfabetização é não entender como funciona.

Leia na íntegra: Folha de São Paulo

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