Sobre as causas da tristeza dos professores da UFSC

Por Fábio Lopes da Silva

Nós, professores da UFSC, ganhamos salários muito acima da média nacional. Some-se a isso o fato de que nos é dado pesquisar e ensinar sobre uma estupenda miríade de objetos, em um exercício de liberdade intelectual que a pouquíssimos trabalhadores no mundo – mesmo os mais graduados – está franqueado. Mencione-se, por fim, que, em sala de aula e nas atividades de orientação, entramos em contato permanente com rapazes e moças belos, saudáveis e inteligentes – a nata da juventude brasileira.

Isso deveria ser mais do que suficiente para nos fazer imensamente felizes e realizados. Mas, estranhamente, não parecem ser esses os sentimentos dominantes entre os colegas de docência. Em lugar da esperada atitude solar e propositiva, o que mais se vê – principalmente na área de Humanidades – são rostos acabrunhados, expressões cansadas, infelizes e amedrontadas. Se reclamar da vida fosse um crime previsto no código penal, a maioria de nós estaria agora passando as férias no Presídio da Trindade.

O que se nos acontece? De onde vem essa insuspeitada melancolia? Por que andamos cabisbaixos, rente às paredes, quando deveríamos estar exultantes ou, no mínimo, satisfeitos?

Alguém dirá que é tudo culpa de Bolsonaro e dos terríveis fascistas. Essa explicação, contudo, não faz nenhum sentido, visto que, desde que o Capitão assumiu a presidência, efetivamente não sofremos nenhuma perda importante seja em nossos salários, seja em nossas carreiras, seja em nossas condições de trabalho. Não se diga tampouco que padecemos em função de nossa empatia face à miséria a que outros brasileiros estão submetidos. Se isso fosse verdade, estaríamos fazendo alguma coisa por eles, o que obviamente não é o caso.

A pergunta, portanto, continua sem resposta: de onde vem esse baixo astral que toma conta dos corações e mentes dos professores da UFSC, tanto mais daqueles ligados às ciências humanas e sociais? 

A resposta, creio, tem muito mais a ver com decisões e escolhas nossas do que com o que outros fazem a nós. Fomos nós – e ninguém mais – os que optamos por nos entregar quase que exclusivamente à produção de um saber que, na melhor das hipóteses, se dirige apenas a um pequeno grupo de especialistas. Fomos nós – e ninguém mais – os que optamos por dirigir praticamente toda a energia despendida em sala de aula à formação de novos doutores, à geração de novos especialistas, que se limitam a falar, no máximo, a seu pequeno círculo de pares. Fomos nós – e ninguém mais – os que transformamos as licenciaturas em bacharelados disfarçados, cuja única função é caçar talentos para a carreira de pesquisador.   O que quero dizer, em suma, é que fomos nós – e ninguém mais – os que restringimos dramaticamente a nossa rede de contatos humanos, as nossas possibilidades de produzir e transmitir saber a outras pessoas ou dialogar com elas. Fomos nós – e ninguém mais – os que nos fechamos em uma bolha no interior da qual a sensação de solidão, desamparo e infelicidade é a consequência mais natural e esperada.

A saída, portanto, não tem a ver primeiramente com Bolsonaro, os fascistas, a derrocada do PT, a prisão de Lula ou qualquer coisa desse tipo. Ela tem a ver com um conjunto de iniciativas perfeitamente factíveis que só não tomamos porque, por incrível que pareça, preferimos permanecer agarrados às velhas dores conhecidas.

A pandemia deixou-nos ainda mais tristes, ensimesmados e assustados. Deu-nos uma justificativa para nossa inação e infelicidade. A verdade, contudo, é que objetivamente ela não mudou muita coisa. Pelo contrário. O que ela mostrou – mais uma vez, e de modo ainda mais irrefutável – foi que nós, professores da UFSC, somos mesmos privilegiados e vivemos muito mais protegidos e seguros do que a imensíssima maioria dos brasileiros. Em outras palavras, longe de nos colocar em risco ou revelar nossas vulnerabilidades, o que a pandemia fez foi escancarar o fato de que somos extremamente fortes – e se não usamos essa força, é simplesmente porque não queremos.

Não queremos ser intelectuais públicos, falar em bibliotecas e escolas, dar cursos de formação a professores do ensino médio e fundamental, fundar revistas virtuais de cultura, oferecer cursos livres de verão a pessoas interessadas em literatura e arte. Não queremos fazer lives semanais no Instagram sobre temas de nossas áreas de pesquisa que poderiam interessar muita gente. Não queremos dedicar tempo algum ao fortalecimento de nosso sindicato, à nossa própria formação política, à formação política de colegas e alunos. Não queremos assinar jornais, lê-los diariamente. Não queremos sair da internet e de uma militância virtual insípida, incolor e inodora. Não queremos expor nossos corpos ao risco de relações reais com pessoas reais, sem a mediação desumanizante de telas de cristal líquido. Não queremos nada disso. 

É preciso dizer, contudo, que essa é a única maneira de deixarmos para trás a melancolia que nos empareda. É a única maneira de realmente nos aproximarmos de outros brasileiros, a começar pelos colegas de departamento e os nossos próprios alunos. É a única maneira de não temermos Bolsonaro e de fazermos oposição real a ele. É a única maneira de realmente honrarmos a nossa função de servidores públicos e de empoderarmos a UFSC, que, em 2020, embora ninguém pareça ligar para isso, está completando 60 anos de existência.   

Professor do DLLV-CCE

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