Caso de professor da Unirio levanta discussão sobre autoritarismo na universidade

Vídeo de docente ofendendo a pró-reitora tomou as redes sociais e levou à exoneração de Leonardo Castro do cargo de decano

Uma reunião virtual da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) acabou virando notícia após uma confusão entre o professor Leonardo Villela de Castro e a pró-reitora Loreine Hermida. O episódio resultou na exoneração do docente do cargo de decano do Centro de Ciências Humanas e Sociais (CCH). A decisão foi publicada em portaria do reitor da Unirio, Ricardo Cardoso, no dia 31 de julho – dois dias após a reunião.

De acordo com o Estatuto da Unirio, é competência do reitor tanto a nomeação quanto a exoneração ao cargo da Decania. Entretanto, a tradição na universidade tem sido submeter os nomes dos candidatos a uma eleição. A decisão do reitor abriu um debate na comunidade universitária sobre autoritarismo durante a atual gestão.

No ano passado, Castro foi candidato à reitor e venceu na consulta à comunidade universitária. Mas Cardoso foi escolhido pelo colégio eleitoral para liderar a lista tríplice encaminhada ao presidente da República.

Em nota, a Associação dos Docentes da Unirio (Adunirio) criticou a exoneração feita sem abertura de processo administrativo. “Além da óbvia opção pela escolha de pessoas que de fato representem aqueles profissionais e estudantes que serão submetidos à sua gestão, essa opção traz a possibilidade de equilíbrio nos Conselhos Superiores, pois Decanos, Diretores de Escolas e Coordenadores de Curso têm assento. Se forem todos nomeados diretamente pelo Reitor ao arrepio da vontade da comunidade universitária, os Conselhos se tornariam mera instância burocrática a serviço de uma autocracia”, afirma a entidade.

Ao site PBN Online, Leonardo Castro diz ter sido vítima de uma medida “ditatorial” e sem justificativa. “Um ato absolutamente desproporcional ao incidente ocorrido e antidemocrático”, disse. Um abaixo assinado circula na internet na tentativa de reverter a exoneração e reintegrar o docente ao cargo de decano.

Eleição para Reitor foi marcada por controvérsias

A tensão interna entre os dirigentes da Unirio vai além do episódio polêmico da reunião. O atual reitor, Ricardo Cardoso, retirou sua candidatura antes da consulta à comunidade universitária, realizada em maio de 2019. Leonardo Castro foi o nome escolhido entre os professores, servidores técnicos e alunos com 72% dos votos.

No entanto, Cardoso reapareceu durante o conselho e foi escolhido pelo colegiado, que é composto 70% por docentes, 15% por servidores e 15% por estudantes. O nome de Cardoso encabeçou a lista tríplice enviada ao Governo Federal e foi chancelado pelo presidente Jair Bolsonaro. Foi a primeira vez desde a redemocratização, em 1985, que um candidato escolhido pelo colégio eleitoral da Unirio não passou pelo crivo do público acadêmico. 

Leonardo Castro afirma que a Unirio vivencia desde então “momentos de arbitrariedades por parte da reitoria, com resoluções que favorecem apenas o grupo político apoiado pelo reitor”. A nota da Adunirio também cita retrocessos democráticos que teriam sido “aprofundados nos últimos meses e sentidos recentemente na condução das reuniões dos Conselhos Superiores, as únicas desde o início desta gestão, aliás, a ter quórum”.

Registro em vídeo das ofensas viralizou nas redes sociais

A reunião em questão aconteceu no dia 29 de julho e deliberava sobre aspectos pedagógicos das aulas na Unirio durante a pandemia de coronavírus. Ao final, os conselheiros debatiam uma data para retomar a discussão, quando a pró-reitora informou que não poderia participar no dia sugerido. Leonardo então diz: “para isso a senhora tem suplente, p… Deixa de ser filha da p…”.

Surpreendidos pela ofensa, alguns docentes solicitaram o encerramento da reunião. Leonardo ainda pede desculpas e justifica dizendo que não percebeu que o microfone estava ligado, dando a entender que o xingamento não deveria ter sido ouvido. Mais tarde o docente retratou-se em suas redes sociais.

“O ato foi fruto da tensão gerada pelas mais de 4 horas de reunião, porém, a forma agressiva como me referi à professora Loreine Hermida da Silva e Silva, na sessão conjunta dos conselhos superiores da UNIRIO, hoje, foi indigna e inclassificável. Todo ser humano merece, necessita e tem direito a consideração e respeito. Faltei com esses princípios básicos da civilidade que nos devem conduzir sempre, em todos os momentos de nossas vidas”, publicou em sua página.

O reitor da universidade manifestou-se através do site da instituição. “A conduta ofensiva causou um significativo dano moral à dignidade da pessoa humana e prejuízos à imagem e reputação da Comunidade Unirio junto à sociedade local, regional e nacional, que espera de uma instituição pública federal de ensino superior o compartilhamento de princípios morais, como a dignidade, o decoro e o zelo – primados maiores que devem nortear o servidor público”, diz o texto.

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