Ideb: avanço histórico pode dar lugar a retrocesso com suspensão das aulas por Covid-19

Para especialistas, será preciso esforço para que evolução não se perca com interrupção da pandemia

Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foram comemorados pelo setor educacional por mostrarem uma evolução histórica no desempenho do Ensino Médio. Educadores e gestores, porém, avaliam que será necessário um esforço considerável para que esses avanços não se percam sob o impacto da interrupção de aulas devido ao novo coronavírus. Além disso, defendem que as boas práticas implementadas pelos estados, sejam analisadas e eventualmente replicadas para garantir a melhoria da aprendizagem.

O Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) anunciaram na terça os dados do principal indicador da educação básica. Depois de 12 anos praticamente estagnado, o Brasil registrou o maior avanço na série histórica do Ideb na etapa do ensino médio, passando de 3,8 em 2017 para 4,2 em 2019 – cifra puxada principalmente pela rede pública.

O aumento, no entanto, não foi suficiente para que o país atingisse a meta de 5,0 estabelecida para a etapa. Os resultados do Ideb foram classificados pelo ministro da Educação, Milton Ribeiro, como “supresas muito boas”.

O Ideb varia numa escala de 0 a 10 e é calculado a cada dois anos para os anos iniciais e finais dos ensinos fundamental e médio. Para compor o Ideb, O MEC leva em consideração as notas dos estudantes na prova do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que foi aplicada nos meses de outubro e novembro do ano passado, e os índices de aprovação, compilados pelo Censo Escolar.

Riscos da pandemia

Embora tenha obtido um avanço significativo no ensino médio, o país descumpriu pela quarta vez consecutiva a meta estabelecida. Na rede estadual, 26 unidades da federação apresentaram acréscimo no Ideb em relação a 2017, sendo o Paraná a rede com maior aumento: 0,7. Somente Sergipe manteve a mesma nota registrada na edição anterior: 3,7. Apesar disso, esses avanços não foram suficientes para que os estados atingissem seus objetivos. Somente Goiás conseguiu cumprir a meta de 4,8 estabelecida para a etapa.

Nesse contexto, soou o alarme entre os educadores o risco de que os avanços obtidos no Ideb se percam com a interrupção de aulas proporcionada pela pandemia. Para evitar o dano, educadores apostam que é preciso protagonismo do MEC para conduzir um modelo eficiente de ensino híbrido, ou seja, parte presencial e parte à distância, na volta às aulas.

— Finalmente colocamos o trem no trilho e agora era só acelerar, mas aí a pandemia atravessa isso. O efeito da crise do coronavírus para o ensino médio é mais potente, porque pode pressionar por mais evasão e abandono, no caso de pessoas que precisem recuperar sua renda — explica Ricardo Henriques. — Além disso, está na hora de ter uma política de conectividade muito agressiva para escolas e famílias, com desenvolvimento de processos de ensino e aprendizagem e sequências didáticas adequadas ao desafio de garantir que crianças e jovens aprendam tanto no ambiente da escola quanto no ambiente domiciliar.

Elementos do avanço

A equação que explica o progresso no ensino médio reúne uma série de fatores: profissionalização da gestão escolar; avaliações constantes e discussão de resultados com as equipes pedagógicas. Além disso, gestores mencionam o investimento em educação integral e também no ensino profissionalizante. Em meio a uma profusão de elementos para explicar a nota, um consenso: responsáveis pelo ensino médio, os estados foram os protagonistas dessa mudança.

— O ensino médio é atribuição dos estados. Como em 2019 vivemos um período de pouca presença do MEC, imagino que a pasta não reivindique qualquer responsabilidade por esses resultados — analisa Ricardo Henriques, especialista na área e superintendente-executivo do Instituto Unibanco. — Os estados tiveram um foco grande na aprendizagem,  com definição de metas, engajamento de suas redes, de regionais de educação e diretores. Houve uma gestão escolar muito forte. Antes mesmo da reforma do ensino médio, várias redes refizeram sua estrutura curricular. Elas passaram a fazer avaliação externa, com provas regulares, usando a devolutiva pedagógica como forma de fazer uma leitura sobre a aprendizagem de cada escola, e não algo genérico.

Este é o primeiro ciclo do Ideb a pegar meses do governo de Jair Bolsonaro. A educação básica, no entanto, é de responsabilidade principal dos estados e dos municípios. O ensino médio foi o foco das políticas do ex-presidente Michel Temer a partir de uma reforma em 2017 e da criação de programas voltados para impulsioná-lo em tempo integral nas redes estaduais. Na opinião de Ricardo Henriques, o fato de a gestão do ex-ministro da educação Mendonça Filho ter voltado o foco para a etapa teve um papel importante de induzir o debate sobre a necessidade de estabelecer uma diretriz eficiente para a área.

Presidente do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação (Consed), Cecília Motta afirmou que as estratégias utilizadas pelos estados levaram a um cenário de redução da evasão escolar, o que também possibilitou avanços.

— Nós acertamos na política do ensino médio. Fizemos a educação integral em tempo integral, colocando o jovem na escola mais tempo. Isso foi o resultado da não evasão, não repetência, a proficiência (performance escolar). — disse Cecília. — Fica muito claro que em estados onde há ensino profissionalizante também há avanço, porque o aluno fica interessado, ele procura a área que ele quer. Os resultados serão melhores desde que as políticas de tempo integral permaneçam.

Impacto na alfabetização

A especialista em educação da Fundação Roberto Marinho, Juliana Leitão, chama atenção para o impacto da pandemia também nos índices do ensino fundamental. Os dados do Ideb mostram  o número de redes municipais que atingiram a meta  em 2019 caiu em relação ao último resultado, há dois anos.

— Há uma crise e não se chega a um acordo. Falta articulação, que deveria ser iniciada pelo governo federal e refletida nos estados. Quanto mais tempo você deixar passar os alunos sem aula, maior será a desigualdade e maior será o dano para todos— diz Leitão.

Brasil melhora, mas só bate meta entre mais jovens

Em 2017, havia nos anos iniciais 5.167 municípios com alguma meta estipulada. Desses, 3.612 conseguiram atingir os objetivos naquele ano, o que corresponde a 69,9%. O índice caiu, em 2019, para 61,9%. Já nos anos finais do ensino fundamental, existiam, em 2017, 3.242 cidades com objetivos estabelecidos pelo Inep e 1.313 os atingiram, o que corresponde a 40,5% dos municípios. Dois anos depois, o índice caiu para 29%.

Embora os anos iniciais do fundamental tenham atingido a meta do Ideb, os dados das provas do Saeb, utilizado para compor o índice, mostram uma redução no desempenho de 11 estados nas avaliações de Língua Portuguesa. Essa etapa compreende alunos do 1º ao 5º ano, o que inclui o ciclo de alfabetização. Nesse contexto, a educadora da Fundação Roberto Marinho chama atenção para necessidade de estabelecer uma política robusta para retorno às aulas após a pandemia:

—  Teremos um efeito em cascata se não fizermos uma ação séria de retorno. Alfabetização não é algo que se faz à distância, algo que uma criança aprenda sozinha. Podemos colher algo muito danoso, se realmente não sentarmos e pensarmos como retornar.

Leia na íntegra: O Globo

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