A vida milagrosa na Terra

Por Raul Valentim da Silva

A vida só se tornou possível quando foram disponibilizados os seus insumos básicos. Assim, entendo que os preparativos para o início a vida começaram com o maior milagre de todos os tempos que foi o Big Bang. Como, no Universo, nada se cria e tudo se transforma; a matéria-prima de todos os seres vivos, que habitam ou já habitaram a Terra, estava de alguma forma presente no início do Universo.  

A energia inicial, também por milagre, passou a gerar matéria. O fantasmagórico bóson de Higgs apareceu para gerar massa. Do nada, surgiram as físicas, quântica, de Newton e de Einstein, que estão até hoje matematicamente incompatibilizadas. As forças nucleares, fraca e forte, e a força eletromagnética, que também apareceram milagrosamente no bojo do Big Bang, permitiram uma milagrosa formação de átomos de hidrogênio, com suas múltiplas partículas subatômicas.  

A gravidade, a quarta força fundamental que também apareceu milagrosamente no Big Bang, foi a responsável direta pela formação das estrelas. Graças a ela e com apoio da física, surgiram nas estrelas tanto os elementos químicos como a própria química, formando partes essenciais da existência da vida na Terra. O Sol, que fornece a energia vital para a natureza terrestre, é uma das crias da gravidade.

A misteriosa força de gravidade, que me parece simples no modelo de Newton e complicada na física de Einstein, conseguiu milagrosamente manter unidos, ao longo de bilhões de anos, a mãe Terra orbitando o pai Sol, tendo como companheira perene a dindinha Lua e formando um trio essencial para a preservação da vida.

As leis da física e a gravidade permitem uma vida que pode ser considerada tranquila enquanto a Terra gira a 1600 km/h, deslocando-se a aproximadamente 100.000 km/h em torno do Sol, que se move na galáxia a cerca de 850.000 km/h. A matemática milagrosamente imersa na física e na química rege todo o sistema solar que nos abriga.

A física, em suas múltiplas configurações, e a química, nascida nas estrelas, foram devidamente reunidas, pela chama milagrosa da vida, para formar a biologia. A imensa diversidade das espécies de seres vivos que habitam e especialmente daquelas que já habitaram a Terra, com formas e comportamentos significativamente diferenciados, apresenta-se como outro grande milagre no Cosmos.

Os fótons, partículas e ondas igualmente milagrosas, conseguem transportar luz e calor do Sol para gerar dias maravilhosos, ventos e chuvas preciosos para a vida. Os vegetais estão dotados da clorofila e dos cloroplastos, também milagrosos, que conseguem absorver a energia da luz solar, gerando e armazenando energia química que é aproveitada também pelos animais que ingerem as plantas. 

A milagrosa química fornece carbono, oxigênio e água. Propicia moléculas como o DNA e as complexas proteínas essenciais para a vida na Terra. A bioquímica, em associação com a física quântica, viabilizou a existência dos seres vivos. A disponibilidade de elementos e substâncias químicas essenciais para os seres vivos por toda a superfície da Terra pode também ser considerada um verdadeiro e inestimável milagre.

Nesta manifestação o termo milagre foi utilizado com a acepção de um acontecimento inusitado, inexplicável pela lógica humana usual.  Em termos probabilísticos, refere-se a eventos com probabilidade nula de ocorrência em condições que possam ser consideradas normais.

Raul Valentim da Silva é professor aposentado da UFSC

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