Direito de resposta

Por Danuza Meneghello

Vejamos a história de R. 

Hoje.

Do banheiro, escuta a notícia entre o escovar os dentes e pegar o álcool: duzentos e noventa e seis mil mortos por COVID no Brasil.

Saiu. Máscara no rosto. Agarrada na bolsa como se fosse uma boia salva-vidas. Contou. Seis no ponto. Dois ônibus. No primeiro foram em 20. Tinha o motorista e o cobrador, 22. Vinte e uma possibilidades. Forçou-se a manter os olhos na rua. Acreditar na tal normalidade. No segundo ônibus foram em menos, uns 15. Mas o rapaz, três bancos na frente com a máscara arriada na boca, agoniou.

Desceu.

Na entrada mediram a temperatura no punho, nunca entendeu o negócio do punho. Continuou. O lugar era o mesmo: portas, escadas, banheiros, vassouras, baldes, tudo já conhecido. Mas mesmo assim quando o sinal tocou deu um pulo. Sinal de quê? Pra quem? 

Sinal de anunciação: volta às aulas. 

Seguiu pela rampa, viu as crianças. Rostos semitapados escondendo o riso. Os olhos muito abertos procurando amigos. Todas muito próximas. Se afastem, pensou. 

Tinha trabalho pra ser feito: varreu, e os que vieram e os que voltaram passaram pelo pó. Escovou, e outros tantos se desviaram de seu corpo, suado. Ariou, molhou, enxugou, lustrou e a máscara teve que ser trocada. 

Seguiu do corredor para os banheiros e entre uma porta e outra olhava as salas: 10, e em outra 15, e mais adiante, 2. Duas mascaradas, quase náufragas, boiando à deriva. O professor, distante, falava algo sobre animais e parques.  

Sinal. Pausa. 

Pelas portas, as crianças foram saindo. 

Encontros acontecem. Breves toques. E é neste momento, quando se despem de suas pequenas proteções, quando fazem seus lanches, e mais animadas contam as novidades que R. é tomada pelo medo. Lembra da casa. Da mãe e das filhas. Dez e quatro anos. Manteve as duas em casa. Insistiu nisso. Disse: não, não. As minhas meninas vão ficar em casa. Pior mesmo, seu diretor, é perder a vida. Minhas filhas ficam é em casa.

Ela não. A escola deu o sinal: vamos voltar.

No banheiro, bem miudinha, agachada entre a parede e o bacio, chorou. Era uma covarde. Estava tomada pela covardia. Afinal, toda noite pensava em proteger suas filhas e sua mãe, coisa que só uma pessoa covarde pensaria. A cada manhã esperava um decreto, uma fala de alguma autoridade que dissesse aos trabalhadores iguais a ela: terão um auxílio digno durante o período mais mortal da pandemia: fiquem em casa. Covarde, covarde, covarde. 

E quando ouvia os entendidos da saúde, os médicos explicando para que quem pudesse ficasse em casa, concordava. Achava que tinham razão. Seriam como ela? Covardes? 

Em vários momentos na escola teve a forte sensação de que alguma coisa não estava certa. Aquelas crianças, pareciam tão, tão, como se estivessem fora de lugar. E os professores, circulando entre uma sala e outro, tendo contato com mais de 20 pessoas em um único período, pra quê? E ela chorando no banheiro: covarde. 

Saiu. Máscara no rosto. Agarrada na bolsa como se fosse uma boia salva-vidas. Contou. Dez no ponto. Dois ônibus. No primeiro foram em 25. Tinha o motorista e o cobrador, 27. Vinte e seis possibilidades. Forçou-se a manter os olhos na rua. Acreditar na tal normalidade. No segundo ônibus foram em 20. Mas o rapaz, três bancos na frente com a máscara arriada na boca, agoniou.

Desceu. 19 horas.

Acovardada demorou pra entrar em casa. Não sabia se voltava só.

Uma semana depois das escolas abertas foi dada a notícia que 10 crianças foram hospitalizadas e uma foi a óbito. Faltou fazerem a principal lição: para se ter direito à educação é preciso estar vivo. No mesmo período, trabalhadores terceirizados também perderam suas vidas: por incompetência e covardia”.

Direito de resposta.

“Qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência?”

Professora do Centro de Educação – Colégio de Aplicação

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