Vida longa à Apufsc-Sindical

Por José Fletes*

Ingressei na UFSC em março de 1977 como professor colaborador e lembro que ao assinar o contrato, o servidor do departamento de pessoal, Sr Madaloni, me alertou que junto com o contrato acompanhava ficha de filiação à ASUSFC (Associação dos Servidores da UFSC) apoiada pela gestão da universidade à época e o reitor “sugeria” a assinatura “voluntária” dos dois documentos, pois a APUFSC (Associação dos Professores da UFSC) era considerada oposição à reitoria. Me negue a assinar a ficha argumentando que a ficha de filiação apresentada não era documento legal. Após a assinatura do contrato, me dirigi à sede da APUFSC que tinha sido criada em 24/6/75 (sede do Campus, única naquele ano) para filiação, obtendo a inscrição de nº 407 e recebendo as boas-vindas por parte do Presidente Hamilton Schaefer que se encontrava na sede no momento, tomando um cafezinho no Senadinho (a igual que o café do calçadão). Logo após, também me associei à ASUSFC (como servidor docente) e à AAVUFSC (Associação Atlética dos Volantes da UFSC) que também aceita filiação de servidor docente.

Embora considerada de oposição por parte da reitoria, a APUFSC no seu início apenas era uma entidade mais de caráter associativo (no meu entender, um Clube Social). É decorrente dessa forma de atuação que, em 1978 um movimento liderado pelo Prof. Osvaldo de Oliveira Maciel do CCB (R.I.P) encabeça a Chapa “Luta e Independência”, com o Prof. Jorge Lorenzetti do CCS como Vice-Presidente e lembro da composição plural do ponto de vista ideológico, entre os quais, a Profª Zuleika Mussi Lenzi do CFH, o Prof. Sílvio Coelho dos Santos do CFH (R.I.P), o Prof Longuinho da Costa Machado Leal do CTC, o Prof. Ayrton Roberto de Oliveira do CCB (R.I.P) e o Prof. Valmir Martins do CFH. A chapa obtém uma grande vitória, pois precisava de um instrumento de luta para reivindicações latentes que os docentes demandavam e fazer frente aos desmandos do regime militar às sombras do AI-5.

Nas décadas de 80 até final do século, o movimento docente ganha as ruas e participamos ativamente das diversas lutas, tanto a nível local, regional e nacional. Em novembro de 1980 se dá a 1ª Greve das Federais Autárquicas e a APUFSC atua de forma incisiva, culminando em 1982 com a articulação do 1º Congresso em Florianópolis e a participação de mais de 600 professores de todo o país, que cria o ANDES- SN, sendo eleito como Presidente o Prof. Osvaldo Maciel com uma composição plural e progressista. Uma série de movimentos grevistas ocorrem ao longo desses anos, com muitas vitórias em prol da melhoria da carreira docente e salariais, mas também muitas derrotas que servem de experiência para amadurecer o processo de encaminhamentos de decisão por um número representativo e significativo da categoria, para a entrada em movimentos de paralisação.

Um fato marcante, da importância do instrumento de defesa e luta da categoria, ocorreu em 13 de agosto de 1982 quando a Polícia Federal avisa o reitor (à época o Prof Ernani Bayer_CCJ) apresentando-lhe um mandato de apreensão e busca contra minha pessoa, emitido pelo Ministro da Justiça (Ibrahim Abi-Ackel) por portar material subversivo (documentos sobre a guerrilha do Araguaia). Me encontrava em aula às 13:30 no CTC, mas sou avisado que haviam invadido minha residência no Córrego Grande, Conjunto Guarani. Suspendi imediatamente a aula e ao chegar em casa, se encontravam, além da PF, estudantes de jornalismo, procurador Fagundes da UFSC, advogado pela APUFSC (Prof Ubaldo Balthazar, isso mesmo, atual reitor) a pedido do Presidente Prof Raul Günther (R. I. P), advogados do Sindicato do Engenheiros e da OAB que não permitem ser conduzido no camburão e me acompanham até a delegacia no Estreito, gestionando por mais de quatro horas a minha liberação, mas marcando depoimento para segunda-feira às 14h (16 de agosto).

Outro fato interessante de registrar, foi o da participação na 1ª eleição direta paritária para reitor, final do ano de 1983, onde a disputa se dá apresentando lista sêxtupla (regras do jogo à época a ser apresentada ao Cun) confrontando pela reitoria uma chapa encabeçada pelo Prof Rodolfo Joaquim Pinto da Luz_CCJCCJ (que ocupava o cargo de Pró-Reitor de Administração na gestão do Prof Eernai Bayer) e pelo movimento da comunidade universitária (articulado pela APUFSC, DCE, APG e à época ASUSFC – atual SINTUFSC) com uma composição plural e liderada, lembro, pelos Professores Osvaldo de Oliveira Maciel_CCB, Arno Bollmann_CTC, Marco Aurélio da Rós_CCS e mais três que ora não lembro. Perdemos essa eleição por pequena margem da paridade, vencendo no voto universal, mas demonstrando quão forte é o poder estabelecido. O Prof Rodolfo assume de 1984 a 1988 sua 1ª gestão praticamente de sobrevivência devido aos parcos recursos e problemas estruturais que demandariam mudança de estatuto. Participa nessa gestão o Prof Sílvio Coelho dos Santos_CFH como Pró-Reitor de Graduação e Pós-Graduação (que à época era uma só).

A nossa entidade tem-se pautado, em sua maioria, por ter diretorias que defendem princípios que primam pelas composições ideológicas de caráter plural, de lutas e ação independente e autônoma perante as gestões administrativas com relação respeitosa e de respeito às reivindicações e demandas da categoria que representa. Daí seu crescimento e fortaleça em congregar todas as ideologias e posturas políticas partidárias, sem confundir seu papel de entidade de ampla representação primando no respeito às instâncias deliberativas para encaminhar as decisões essenciais em defesa do ensino público e gratuito de qualidade, bem como os interesses da categoria docente.

No meu entender, nos últimos anos do século passado e início deste, aflora uma forte partidarização e aparelhamento da entidade nacional e aqui, na APUFSC muitos insatisfeitos realizam um movimento de pressão por uma decisão de desfiliação da nossa entidade, que ocorre em 2009 com uma votação estrondosa: 60,37% pela desfiliação e 39,63% contra a desfiliação. Decorre dessa decisão, uma fuga dos derrotados, optando por constituir uma entidade paralela com a tentativa de se opor à APUFSC que mantém diretorias por alguns anos num processo que, praticamente retoma as origens de sua criação (o Clube Social predominando), entrando num imobilismo entre 2010 e 2018, quando o movimento liderado pelo Prof Carlos Alberto (Bebeto) Marques do CED encabeça uma Chapa plural, como Vice-Presidenta a Profª Patrícia Plentz do CTC e mais colegas das diversas unidades, propondo a participação de representação dos Campi através do Grupo Especial para atividades sindicais (que não é contemplado pelo estatuto) e se consiga a retomada da entidade para reintegrá-la na luta docente, requerendo muita paciência de expor um plano de trabalho que contemple os anseios da categoria, considerando os ativos e inativos.

Estamos na 2ª gestão “Avançar nas Lutas” sob a liderança do Prof. Bebeto (2020-2022), Prof. Camilo Araújo do Colégio de Aplicação como Vice-Presidente e uma diretoria, também de composição plural, com participação de alguns colegas ex-integrantes do movimento de Andesianos que judicialmente se viram obrigados a fechar a entidade paralela. Está no programa, a partir da atual conjuntura, a necessidade de discutir e decidir sobre o processo iniciado em 2019, finalizar o processo de deliberação sobre Filiação Nacional (se ao Proifes-Federação ou ao ANDES-SN) e para o qual precisa aprofundar todos os aspectos gerais do Estatuto e principalmente a questão da Carta Sindical, bem como a processo de filiação/fusão/dissolução/incorporação segundo a portaria 17.593/MEC/2020 e os detalhes necessários de quórum de votação. A categoria precisa participar ativamente das decisões fundamentais com toda informação para decidir o futuro da entidade! Vida longa a uma APUFSC plural, independente, suprapartidária e de luta!


Professor do CTC–INE e diretor de assuntos de aposentadoria na gestão 2020-2022.

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