Estátuas que caem… outras tantas que vão cair

Por Waldir José Rampinelli

O revisionismo histórico é uma corrente que tem por finalidade rever a história, olhando-a, analisando-a, escrevendo-a de baixo para cima; ou seja, na visão de Walter Benjamin, “escovar a história contra o pelo” para que as cicatrizes apareçam. A tarefa do historiador crítico, do partidário do materialismo histórico é fazer a narração no contra-sentido, não aceitando juntar-se ao cortejo triunfal.

Walter Benjamin nas teses “Sobre o conceito de história” faz uma impressionante crítica revolucionária da doutrina do progresso e das concepções conformistas da história que se identificam com o campo dos vencedores. Para esta historiografia, a história é uma grande marcha, participando dela os vencedores de ontem, avançando e pisando sobre aqueles estão embaixo. O botim do cortejo são os “bens culturais”. “Cada documento de cultura é ao mesmo tempo um documento de barbárie” (Tese VII). 

Contra a História narrada pelos vencedores – os senhores de escravos, os latifundiários, os banqueiros, os ditadores, os empresários, os políticos –, Benjamin propõe uma concepção oposta: a tradição dos oprimidos, ou seja, o ponto de vista dos vencidos que são as vítimas permanentes do sistema de dominação. Tais pessoas têm resistido, têm lutado, têm se levantado, mas têm sido sistematicamente derrotadas. Para o historiador Michelet: “Dar voz e vez aqueles que sofreram, trabalharam, definharam e morreram sem terem a possibilidade de descrever seus sofrimentos”.

As lutas de libertação do presente se inspiram no martírio dos antepassados (Tese XII). Não é à toa que os dominadores tentam, por todas as maneiras, borrar da memória dos pobres suas batalhas, suas vitórias, seus líderes. Na história de Santa Catarina, por exemplo, os heróis do Contestado foram demonizados. O livro “Guerra do Contestado – A Organização da Irmandade Cabocla”, de Marli Auras, é fundamental para entender este conflito de classe, que o oficialismo quando não logrou esconder, tentou mostrar ser apenas uma disputa territorial entre dois Estados da União. Historiadores de plantão, adeptos do “intimismo à sombra do poder”, se prestaram a jogar tanta tinta fora caracterizando uma luta de classes como se fosse um embate religioso, ou um levante de fanáticos, ou um ataque de jagunços. “Optei”, diz Auras, “por trabalhar o Contestado reconstruindo a história dos vencidos”.

A proposta de Benjamin, diz Michael Löwy, sugere um novo método, um novo enfoque, uma perspectiva desde baixo, que se pode aplicar em todos os campos das ciências sociais: na História, na Antropologia, na Política.

As classes dominantes se apropriam da nominação de cidades, de praças, de edifícios, de pontes, de escolas. A paisagem geográfica não coincide com a paisagem histórica. Tem-se, então, uma sensação de irrealidade, de coisa estratosférica, sem contato entre o passado e o presente. Por isso, muitas vezes, a história que se ensina aos nossos estudantes e é difundida oficialmente, desumaniza a própria história, tornando-a odiosa.

A história é por demais complexa para que dela se ocupem apenas os historiadores “acadêmicos”.

Então, que venham abaixo as estátuas.

Professor do Departamento de História | UFSC

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