O que subjaz às eleições e à retórica por polarizações

Por Edmundo Lima de Arruda Jr.

Até outubro tudo está por se definir. Não se trata simplesmente de um jogo de truco entre direita e esquerda em nome do progresso ou do retrocesso. O buraco é mais embaixo. Em jogo o esgotamento de modelos ideológicos (liberalismo, socialismo), a descrença nas instituições, a partir dos quais a reação, mesmo nos termos da regressão em curso, podem ser pensadas – e não reduzidas, como o querem as torcidas deste ou daquele candidato, a uma polarização “fascismo” versus democracia, na qual bons e maus se constituem, reciprocamente, como inimigos a serem extirpados do jogo.

Há uma cultura, ou melhor, uma ausência de cultura democrática suficientemente estabelecida no imaginário político vigente, tanto nos setores subalternos quanto nas elites que protagonizam a luta social.

A chance de derrotar Bolsonaro não está numa pressuposta sociedade civil organizada ou na crença de uma consciência superior ou projeto democrático da oposição lulopetista, avançando na história. Não. O povo não engole sequer discutir o aborto. Tem aversão a tudo que mito ou não reporta-se ao significante comunismo (acabar com a propriedade, perseguição a igrejas, controle de mídias, destruição da família). Parcelas importantes desse povo pensam que a corrupção é parte do cinismo igualitário da esquerda, pois esta se colocou como paladina da ética por décadas e se envolveu numa série de escândalos. O povão, mas somente ele, não admite a relativização identitária. Tem asco de gays, travestis, transsexuais, etc.

Mas a “traição” de parte significativa de simpatizantes de Bolsonaro somente poderá ocorrer até outubro por força da inflação de dois dígitos. Esse o vetor do “progresso”. E o desespero do atual governo.

Estamos num mundo no qual a insegurança reavivou o sentimento de família, de Deus e da religião, de Pátria, etc, e voltou a a acreditar em líderes salvadores. Estes não precisam obedecer à Lei e às instituições. Ambas fazem parte da podridão da desordem, segundo o COMUM. Então, a figura do autocrata não precisa da democracia liberal. O STF dá uma ajudazinha para turbinar essa visão. Trata-se de uma legitimação natural. A desinformação? Ela é parte do jogo político, para alienar e ” desalienar” alienando à sua maneira, no padrão populista também, mesmo sob a retórica progressista. Tivessem os governos populares desalienado e emancipado não teriam perdido para um candidato inexpressivo, sem horário eleitoral e grana para mídia.

Isso tem que estar bem claro. Seja para entender uma possível vitória de Bolsonaro, ou não. Ganhe Lula, o quadro da sociedade autoritária mudará pouco, muito menos por força de uma vanguarda que causa repulsa. E não se pode deduzir que Santa Catarina, um reduto bolsonarista, é reacionário. Ou concluir, apressadamente, que a Bahia e muitos estados do Nordeste representam a autoconaciência do progresso? Essa percepção é enviesada, plena de truísmos.

Então, se estamos no fio da navalha, a sinuca de bico é de todos nós. Que as eleições possam provocar reflexões mais profundas sobre nossas inautenticidades e déficits históricos para superar os hiato entre ideários e práticas. Mais que isso, que as próprias doutrinas liberais e socialistas possam ser objeto de radical crítica social. Seus usos e abusos no século XX permitiram a alternância de disputas por uma política menor, travada entre falsos liberais e socialistas, escorados em mantras sobre o mercado volatizado nos interesses mega financeiros e na utopia igualitária capturada pelos substratos de uma visão positivista de mundo em nome da evolução social.

Engatinhar é preciso. Mas é hora de levantar e dar os primeiros passos para uma política maior, desinfantilizando os espaços públicos.

Edmundo Lima de Arruda Jr. é professor aposentado do CCJ/UFSC

Compartilhar