Por Emeson Tavares da Silva*
Chamar quem se forma em Educação do Campo de egresso parece simples, mas carrega uma limitação simbólica e política. O termo, usado com naturalidade em relatórios, documentos institucionais, colegas de curso e pelos próprios egressos, define apenas uma condição administrativa — que não mais pertence a um grupo; que se retirou que se afastou. Mas, na Educação do Campo, ninguém sai. O que se produz nesse espaço formativo é pertencimento, continuidade e compromisso com o território e com a transformação social.
Foi ao recordar o dia dos professores e das professoras que me ocorreu o quanto se faz necessária uma reflexão sobre o modo como nomeamos e reconhecemos os/as professores/as formados/as pela Educação do Campo. As palavras que escolhemos para dizer quem são esses sujeitos também dizem muito sobre o valor que lhes atribuímos e sobre o lugar que ocupam nas lutas pela educação pública e popular.
A Educação do Campo nasceu das lutas concretas de trabalhadores e trabalhadoras que reivindicaram o direito de aprender sem precisar sair da terra. Como lembra Roseli Caldart (2004), trata-se de um projeto político-pedagógico que emerge dos movimentos sociais, especialmente do MST, das escolas famílias agrícolas e das organizações camponesas. Essa história ganhou força com o PRONERA, ainda nos anos 1990, e encontrou nas universidades públicas um espaço de parceria, diálogo e resistência. Cada turma, cada estudante, cada professor e professora representam sementes plantadas em terras antes negadas ao saber do povo.
Por isso, reduzir esse percurso à palavra egresso é apagar a travessia coletiva que a formação representa. Esses professores e professoras não “deixam” a universidade: eles/as a carregam consigo — nos cadernos amarelados, nas aulas improvisadas nas escolas do interior, nos mutirões e nas assembleias das comunidades. São educadores e educadoras do território, intelectuais populares, continuadores de um sonho coletivo de emancipação.
Miguel Arroyo (2012) nos lembra que o campo não é um espaço atrasado que precisa ser civilizado pela cidade, mas um território de saberes, de cultura e de resistência. É nessa perspectiva que a Educação do Campo transforma a docência em gesto político e poético. Cada professor/a formado/a é também um contador de histórias, um semeador de memória e um construtor de futuro.
A palavra egresso, no entanto, carrega o peso da saída, da ruptura, da conclusão. E a Educação do Campo é o contrário disso: ela é recomeço permanente, é enraizamento. Como diz Paulo Freire (1987), “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”. Essa comunhão é o que dá sentido à formação: ela não termina com o diploma, mas continua na escola da comunidade, no assentamento, no quilombo, na cooperativa, no sindicato, na aldeia e na vida.
Também é preciso compreender que as palavras são instrumentos de poder e de resistência. Como ensina Nêgo Bispo em A terra dá, a terra quer (2023):“Vamos pegar as palavras do inimigo que estão potentes e vamos enfraquecê-las. E vamos pegar as nossas palavras que estão enfraquecidas e vamos potencializá-las” .
Chamar de egresso é usar a palavra do outro, a palavra do colonizador — aquela que desliga o sujeito de sua terra e de sua história. Potencializar as nossas palavras significa reconhecer quem esses professores realmente são: professores/as, educadores/as do campo, formadores/as de territórios, guardiões/ãs de saberes e semeadores/as de futuro.
Mais do que um ajuste semântico, trata-se de um gesto político. Nomear é também reconhecer, e reconhecer é empoderar. Quem se forma em Educação do Campo não é alguém que sai — é alguém que segue em movimento, cultivando futuro, fortalecendo a vida e afirmando o direito de existir e de educar com a terra, e nunca sem ela.
Referências
ARROYO, Miguel G. Outros sujeitos, outras pedagogias. Petrópolis: Vozes, 2012.
BISPO, Antônio (Nêgo Bispo). A terra dá, a terra quer. São Paulo: UBU, 2023.
CALDART, Roseli S. Pedagogia do Movimento Sem Terra: escola é mais do que escola. Petrópolis: Vozes, 2004.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
*Emeson Tavares da Silva é professor do curso de Educação do CED/UFSC
