*Por Fábio Lopes
Há alguns meses, quando aconteciam as primeiras movimentações rumo à composição de chapas para reitor, escrevi neste mesmo espaço um artigo intitulado O adulto na sala.
O texto era dirigido às ousadias de um jovem colega que, provavelmente impelido por ambições pessoais, deixara a militância aguerrida na oposição para abrigar-se sob a beca branca do atual reitor. O cavalo de pau ideológico fora dado à vista de todos, sem maiores pruridos. A manobra, de resto, acontecia logo depois de a vice-reitora romper com seu chefe. Como na célebre frase de Hamlet a respeito do comportamento surpreendente e apressado de sua mãe, “as carnes do funeral nem haviam esfriado e já estavam sendo servidas no banquete de casamento”.
No parágrafo final de meu comentário sobre as deselegantes escolhas políticas do moço, eu o prevenia de que o adulto na sala o observava e não estava gostando nem um pouco do que via.
Por um breve tempo, tudo pareceu correr bem para suas pretensões. Sorrisos e abraços nas redes sociais indicavam que os novos amigos o perdoavam por seu extenso currículo como conservador e adversário. Ele se mostrava convincente no papel de progressista e benemérito de facções esquerdistas estudantis que não existem em nenhum lugar da Via Láctea, a não ser na UFSC.
Notícias que chegavam aos sussurros davam conta de que sua debandada arrastaria consigo gente graúda nos campi.
Eis, no entanto, que tudo enfim se revela um sonho de uma noite de verão. O adulto na sala, como avisei desde o início, tomou as providências necessárias com aquela serenidade que só a idade provecta é capaz de providenciar.
O personagem em questão vê-se isolado em sua opção de frequentar o que uma célebre canção dos anos 1980 chamava de “festa estranha com gente esquisita”. Pior: ele experimenta agora a angustiante espera pela sua confirmação como candidato a vice do atual reitor.
Não deve ser fácil para alguém tão notadamente açodado conviver com a proverbial lentidão do Prof. Irineu em tomar decisões. E o mais desagradável nessa história toda é suportar esse ritmo de cágado sabendo que seu cacife desmorona um pouco mais a cada dia sob o peso de promessas de apoios e acordos políticos que não se cumprirão.
Me entendam bem: não é que o projeto do jovem colega não possa se realizar. Não é nada impossível que o reitor afinal o contemple e que, ato contínuo, ele seja eleito.
O problema é que, mesmo que isso aconteça, ele já começaria seu mandato desmoralizado e, além disso, tendo que se adaptar a um lugar de docilidade e renúncia que não parece minimamente compatível com sua personalidade inquieta. Que o diga a atual vice-reitora (alguém, aliás, com alma perturbadoramente semelhante à do novo pleiteante a seu cargo): há quatro anos, ela se viu exatamente nessa posição e hoje amarga um inferno astral decerto bem remunerado, mas amargo como fel.
*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC
Artigo recebido às 12h23 do dia 30 de janeiro de 2026 e publicado às 12h48 do dia 30 de janeiro de 2026
