Sobre a coragem e outras virtudes: Um comentário ao texto do Prof. Fabrício

*Por Fábio Lopes

O Prof. Fabrício Neves acaba de escrever um artigo em que declara seu apoio ao Prof. Irineu. Não se pode dizer que lhe tenha faltado coragem para fazê-lo. Não é fácil assumir publicamente uma mudança tão brusca de posição. Resta saber, em todo caso, se o anúncio é algo mais do que corajoso. Afinal, a coragem desacompanhada de outras virtudes é só um nome pomposo para a ingenuidade ou, o que é pior, a desfaçatez.

Eu diria, para começar, que o texto dele é longo demais para não gerar suspeitas. Trinta anos de divã me ensinaram que, quando alguém enfileira tantas razões para justificar uma escolha, é provavelmente porque, no fundo, não acredita em nenhuma delas. Outro motivo para que eu desde logo desconfie das intenções do autor é o fato de ele usar a primeira pessoa do plural para se referir a si mesmo. Nós quem, cara pálida? Qual é esse coletivo que ele julga representar? Que sócios ocultos o acompanham em seu cavalo de pau ideológico?  

Isso posto, passemos à substância mesma de sua declaração de amor ao antigo arqui-inimigo.

Uma das características mais perniciosas da vida brasileira contemporânea é a ideia de que a ordem legal e os códigos de conduta são um restaurante: o sujeito se senta à mesa, escolhe os itens que lhe agradam, e danem-se todos os outros. Ora, o Prof. Fabrício acaba por infelizmente incorrer nesse vício escabroso. Para ele, a constatação de que, até onde se sabe, o Prof. Irineu não se locupletou em seu cargo é suficiente para torná-lo moralmente aceitável, como se não houvesse mil outras maneiras de ser sórdido. 

Por conveniência ou sabe-se lá que motivações, o Prof. Fabrício não se sente nem um pouco incomodado com o rosário de promessas vazias cometidas na última campanha pelo atual reitor. Em particular, não lhe causa espécie verificar que a mesma pessoa que hoje atribui todos os problemas à falta de recursos passou anos dizendo que o dilema da UFSC era fruto de má gestão, não de dinheiro curto.

Não o perturba minimamente o contraste entre o tamanho da ambição pessoal do Prof. Irineu e o seu vazio de ideias e projetos, a sua incapacidade de articular privada ou publicamente uma frase minimamente inspiradora, de dizer uma palavra que, por pouco que seja, transcenda a mediocridade, o lugar-comum, a falta grotesca e constrangedora de imaginação.

Não lhe desperta o menor sinal de náusea a aliança espúria que elegeu o Prof. Irineu – um acordo cujo caráter meramente eleitoreiro transformou um gabinete em si mesmo incompetente em cenário perpétuo de guerra entre duas facções. Não lhe ocorre que isso elevou ao cubo o drama da UFSC e fez do que já estava ruim algo muito pior. Não lhe passa pela cabeça que a sua própria adesão à recandidatura do Prof. Irineu tem tudo para ser uma nova temporada dessa mesma série, a começar pelo fato de que o namoro com o atual reitor começou justamente quando do rompimento definitivo com o grupo da vice-reitora. Será o Prof. Fabrício incapaz de perceber o quão imprudente e leviano é querer sentar-se em uma cadeira que mal esfriou e alberga em seu couro o vírus do carreirismo e do oportunismo?

Mas o pior mesmo nem é isso. O mais grave é a falta de memória do Prof. Fabrício no que se refere à destruição sistemática da institucionalidade na UFSC pela atual reitoria.

Acaso ele se esqueceu dos rituais mensais de humilhação dos diretores de centro, obrigados que eram a se reunir com o reitor para ouvir sempre a mesma conversa mole, as mesmas desculpas esfarrapadas? Acaso esqueceu-se ele da violência sistematicamente perpetrada contra o regimento do CUn, o estatuto da UFSC, o bom senso? 

Pois eu continuo a me lembrar de tudo isso, Prof. Fabrício. Recordo-me, por exemplo, da ocasião em que, no microfone, para gáudio de uma plateia ensandecida, um conselheiro fez piada de sua defesa de métodos heterodoxos de tratamento da COVID: “Um diretor de centro”, disse ele, “é a favor da cloroquina e até da ozonioterapia – neste último caso talvez porque goste da forma como o produto é aplicado.” 

Que o Sr. agora perdoe essa barbaridade homofóbica e confraternize com seu agressor é um problema seu. Só que ambos sabemos que isso não foi exceção, mas parte de um longo processo de corrosão das regras elementares de convivência e decência na UFSC. Ambos sabemos que a brutalidade praticada contra o Sr. é a mesma que, em maior ou em menor grau, atinge o conjunto da comunidade universitária. Ambos sabemos que isso é método, é estratégia de intimidação, é a boa e velha violência stalinista em sua forma hoje possível. Do mesmo modo, ambos sabemos que o reitor nada fez contra seu agressor (assim como nada fez contra todas as outras agressões, inclusive a que nos obrigou a escoltar conselheiras mulheres até seus carros ao fim de uma das sessões do CUn) porque ele disso se beneficiava eleitoralmente.

Dói em meus ouvidos o seu apelo a deixarmos de lado o passado recentíssimo e superar diferenças. Olvida-se o Sr. do quanto tentamos fazer isso mas fomos pela reitoria rechaçados quase a pontapés? Olvida-se o Sr. de que desistimos colaborar com a gestão não porque quiséssemos mas porque simplesmente não éramos ouvidos? A polarização – esse conceito frágil e desgastado que o Sr. invoca  – nunca existiu na UFSC. O que há por parte da reitoria é um projeto pessoal de tal modo carente de ideias, propostas e soluções que só pode se sustentar ao preço da destruição sistemática do outro. Um projeto que, a rigor, é a destruição sistemática do outro.

Parece que, tendo desistido de se opor a essa marcha autoritária, o Sr. resolveu escapar ao risco da própria aniquilação unindo-se aos perpetradores. Não vou lhe desejar boa sorte porque isso seria desejar um destino funesto para mim e sobretudo para a nossa amada UFSC.

*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC

Artigo recebido às 19h38 do dia 2 de fevereiro de 2026 e publicado às 8h14 do dia 3 de fevereiro de 2026