Uma curva de aprendizado lenta

*Por Nilton da Silva Branco

Em artigo publicado em 02/02/2026 no site da Apufsc, nosso colega Fabrício de Souza Neves enumera razões para apoiar a atual gestão da Reitoria na próxima eleição. Certamente respeitamos a opinião do colega e, obviamente, incentivamos a exposição de todas as opiniões e argumentos sobre os temas universitários, eleições incluídas. Entretanto, não nos pode fugir à observação o argumento do colega sobre o sucesso administrativo da atual Administração Central da UFSC.

Em particular, é citado por ele o contrato de manutenção de aparelhos de ar condicionado. Sobre este problema me alongo.

Devido à pandemia e à consequente insegurança administrativa em nossa instituição, um dos pontos delicados para nossa volta às aulas presenciais em 2022 foi a questão dos aparelhos de ar condicionado. Assim, no início da atual Administração Central da UFSC, em julho de 2022, com os aparelhos há anos sem manutenção, pedimos à Reitoria, em nossa primeira reunião conjunta, urgência na resolução, total ou parcial, deste problema. A gestão central então começou o processo de licitação, a qual foi agendada para março de 2023. Devido aos altos valores envolvidos, esta licitação teve auditoria automática e foi suspensa. A Reitoria então prometeu (mais uma!!) máxima urgência, mas sobre o assunto nada vimos nos meses seguintes, apesar de termos reiteradas vezes trazido o problema à discussão.

Em janeiro de 2024 (!!!!), em reunião dos diretores de centro com a Reitoria (na pauta não constava o problema dos aparelhos de ar condicionado), mais uma vez levantamos a questão e um colega diretor sugeriu a “carona” em ata de outro órgão. Esta é uma forma do ente público fazer compras com alguma urgência, sem o atraso devido ao processo de licitação. A Reitoria apenas nos respondeu na reunião seguinte, acatando a sugestão e, de forma otimista, dizendo que todos os aparelhos em sala e laboratórios didáticos estariam com a manutenção em dia ou, se fosse o caso, consertados no início das aulas (março de 2024).

Como sabemos de experiência própria, isso não aconteceu. Pelo contrário: nenhum aparelho foi verificado até o início das aulas e, no CFM, especificamente (centro do qual eu era diretor, à época), nenhum aparelho foi adequadamente mantido e a empresa contratada deixou de visitar vários dos ambientes supostamente priorizados.

As temperaturas mais altas em Florianópolis, em média, ocorrem em fevereiro ou março, mas a necessidade de usar ar condicionado pode se estender até abril ou maio. Assim, por dois anos o primeiro semestre de aulas na UFSC ocorreu sem as devidas condições para a comunidade.

Mas em 2025…… o mesmo problema ocorreu. Em 2025-1, após o fim de meu período na direção, voltei a dar aulas e encontrei as salas com aparelhos sem funcionar ou funcionando de forma inadequada. Pela terceira vez, estudantes, professores e servidores técnicos da UFSC foram expostos a ambientes insalubres e tiveram prejudicadas sua saúde e a qualidade do seu aprendizado.

Quero enfatizar que este problema não é apenas uma questão de conforto: aparelhos sem limpeza trazem sérios riscos à saúde (Sérgio Motta, ex-ministro de FHC, faleceu devido à contaminação no ar condicionado de seu gabinete; em atendimentos aos alunos em minha sala na UFSC, uma aluna precisou se ausentar duas vezes da discussão, devido a problemas de rinite, agravados pelo aparelho sem manutenção), por causa de fungos localizados nos aparelhos e nas paredes das salas úmidas (sim, a limpeza adequada também nunca foi o forte nestes últimos 4 anos).

Fica também seriamente prejudicado o aprendizado, em ambientes desconfortáveis, sem temperatura e umidade adequadas.

Deixo ao leitor a conclusão se o processo que expus acima, mais de 3 anos para a construção de uma licitação, a qual não requer um centavo de orçamento, se configura como aquisição progressiva de experiência com o processo ou como total incapacidade de realizar uma tarefa corriqueira para a qual servidores foram apontados e para os quais foram alocadas gordas CDs.

E realço que o que temos para 2026-1 são apenas promessas: o ar condicionado em minha sala foi vistoriado, mas a agenda de conserto está prometida para daqui a 60 dias (ou seja, meio de abril). Eu apostaria que passaremos mais um semestre em situação totalmente inadequada para o aprendizado e o trabalho dignos e seguros.

Ainda em relação a ameaças à segurança, deve-se citar mais um problema totalmente trivial que ameaça a boa parte da comunidade. Em visita como candidato ao CFM, em março de 2022, o atual reitor foi informado que o prédio administrativo do CFM, em construção, não estava cercado por tapumes. O reitor então nos informou que isto era ilegal, que qualquer obra tem, por força de lei, que estar cercada. Bom, quase 4 anos após, com a UFSC sob administração do professor que nos informou da alegada ilegalidade, a obra continua aberta, sem o cercamento por tapumes, apesar de inúmeras solicitações da administração do CFM anterior e da atual.

Por ali passam crianças e adolescentes do Colégio de Aplicação, membros da comunidade e visitantes da UFSC. É desnecessário dizer o risco que elas correm, com um prédio em construção aberto no meio do campus.

Também nos perguntamos se a aquisição progressiva de experiência está ocorrendo e, caso esteja, se a velocidade de aquisição é adequada.

Espero não ter cansado o leitor com problemas tão banais, mas eles trazem um panorama resumido da situação inédita e preocupante da UFSC. Felizmente, no início do semestre 2026-1 poderemos optar em mudar o estado de abandono e o pouco caso com que a nossa instituição vem sendo tratada por quem mais deveria cuidar dela.

*Nilton da Silva Branco é professor do Departamento de Física (CFM/UFSC)

Artigo recebido às 11h49 do dia 20 de fevereiro de 2026 e publicado às 12h11 do dia 20 de fevereiro de 2026.