Política de Trump de restringir direito ao voto chega à UFSC?

*Por Nilton da Silva Branco

É de conhecimento amplo que a popularidade do presidente Trump, dos EUA, está em uma baixa histórica: 36% de aprovação em pouco mais de 14 meses de mandato. Este ano, há eleições de meio de mandato e tudo aponta para uma derrota importante do Partido Republicano. Uma das estratégias do governo Trump é restringir o voto de setores da sociedade que tendem a votar no Partido Democrata. Esta restrição viria na forma da exigência de algum documento com foto e no impedimento de votação pelos correios (o mais próximo que eles têm de uma votação remota) em eleições federais. Por motivos históricos, as populações de baixa renda ou negra têm motivos para não querer a identificação na hora do voto. Além disto, os documentos necessários seriam ou o passaporte ou a certidão de nascimento, que requerem pagamento de valores relativamente altos para sua emissão, fragilizando o direito ao voto de uma porcentagem da população americana (de novo, na maioria negros e pobres). Felizmente, está havendo uma resistência a estas tentativas e até agora esta manobra não teve sucesso.

Dê-se um pulo geográfico para a UFSC e vemos que, infelizmente, situação semelhante se apresenta nas atuais eleições para reitor. Na Comeleufsc há um debate sobre modalidades de votação (presencial em urna versus votação remota): três entidades (Sintufsc, DCE, APG) defendem votação presencial, enquanto a Apufsc propõe votação remota (e-Democracia ou e-Voto do TRE).

Está claro que a intenção da Apufsc é estender o voto a todos que têm este direito. Já os argumentos contrários à votação remota (raramente apresentados!) fogem deste ponto e incluem: insegurança do sistema, suposta falta de politização e possível interferência indevida no ato de votação. Ora, todos estes argumentos são facilmente desmontados. Faz-se eleições pelo e-Democracia na UFSC há anos, para chefes de departamento, coordenadores de curso, diretores de centro e mesmo para reitor (primeiro turno da eleição de 2022), sem que qualquer incidente tenha sido reportado. A suposta falta de politização reflete, na verdade, uma visão autoritária do processo, na qual apenas a ida até uma urna garantiria uma reflexão mais adequada. Toda a campanha, seja a votação remota ou presencial, terá o mesmo caráter e imaginar que a necessidade de um deslocamento até um local específico garantiria mais informação e uma opção mais refletida não tem qualquer amparo na realidade, a menos que se pense que alguma pressão pode ser exercida no caminho até o local de votação. Finalmente, interferências indevidas podem acontecer em ambas as formas de eleição; em particular, nós que participamos de eleições na UFSC há décadas sabemos de vários exemplos de boca de urna indevida em eleições presenciais.

Mas, mais grave que a fragilidade dos argumentos apresentados contra a votação remota, é a clara tentativa de desviar o foco deste ponto central no conflito atual dentro da Comeleufsc. Pode-se consultar a ata da reunião desta comissão com o TRE, na qual o diretor deste tribunal faz quase que um apelo dramático ao voto remoto, elencando várias vantagens desta forma de votação. O único argumento utilizado para usar as urnas eletrônicas é de que elas “educariam” a comunidade para seu uso e consolidariam a sua utilização e a sua segurança. Ora, um sistema que é utilizado em todo o país há 30 anos já faz parte de nossa bagagem cultural e tem toda a confiança da imensa maioria da população.

::: Ata da reunião com o TRE

Muito mais importante que estes argumentos quase desrespeitosos, é a total ausência de discussão sobre a extensão da garantia do direito ao voto possibilitado pela votação remota. Não parece haver qualquer intenção do Sintufsc, do DCE e da APG em garantir que todos os membros da comunidade que assim o desejem possam votar. Panorama análogo aconteceu na sessão do CUn de 17/03/2026, que poderia ser utilizada como material didático em um curso de Lógica ou de Análise do Discurso, dada a quantidade de espantalhos, falsas verdades, mentiras inteiras, mudanças de metas (“changing the goal post”), etc. O que não houve nesta sessão: argumentos de por que a votação presencial seria mais adequada.  Gostaria que tivéssemos a chance de reverter esta triste manobra, que manchará esta eleição, mas parece que não temos a mesma resistência que os americanos têm a Trump. Na impossibilidade, quero então chamar à consciência a comunidade universitária: reflita sobre esta tentativa de impedir colegas da comunidade de exercerem seu direito ao voto. Ela alijará milhares de membros da UFSC do processo eleitoral: alunos de EaD, servidores técnicos e docentes em licença, colegas doentes, etc. Você pode não ser afetado agora, mas, se a chapa que se beneficia desta manobra vencer, você poderá ter este prejuízo no futuro. Procure saber que chapa é essa.

*Nilton da Silva Branco é professor do Departamento de Física (CFM/UFSC)

Artigo recebido às 13h44 do dia 25 de março de 2026 e publicado às 8h10 do dia 26 de março de 2026.