Sobre o medo e a esperança

*Por Adriano Luiz Duarte

O que acontece quando as ideias faltam ao encontro? Quando não temos realizações a apresentar? Quando não conseguimos apresentar uma proposta razoável ou justificar nossas falhas e contradições? A reação mais comum é atacar quem nos joga na cara as nossas limitações, quem evidencia nossas fraquezas, quem, ao nos colocar diante do espelho, revela que não somos tão bons, tão bonitos, tão chiques e tão limpinhos como imaginávamos.

Estamos assistindo a esse filme nesse segundo turno da campanha eleitoral para reitor, um misto de terror e comédia, com um diretor de segunda categoria, coadjuvado por um roteirista que parece perdido em suas próprias contradições (um futuro luminoso e um passado a esconder), e cujo elenco lembra as chanchadas de segunda categoria da boca do lixo.

Como o diretor não tem um projeto para apresentar, não tem um legado para chamar de seu, não tem uma conquista institucional que possa ser oferecida como alavancagem para a universidade, recorre ao mais velho dos truques de prestidigitação: ataca seus adversários para evitar o confronto com suas ideias, agride aqueles que mostram sua inescapável pequenez, seu vazio e a tragédia do seu filme, rotulando-os com a única arma que lhe resta: a mentira!

Ele repete diuturnamente: ou votam em nós –mas por favor, esqueçam tudo o que deixamos de fazer, esqueçam tudo o que prometemos e não realizamos, esqueçam as mazelas que produzimos, ou o monstro do saco vai pegar vocês! Nesse momento, o temível monstro do saco é o fantasma da direita.

Esse é o discurso mais miserável e medíocre (entre tantos outros produzidos pelo diretor da companhia) que poderia ser brandido num ambiente acadêmico, de respeito a ideias, valores, debates e princípios. São várias as razões para execrar tamanha patranha. Em primeiro lugar, esse é um discurso falso, porque evita responder aos seus próprios equívocos, transferindo para seus adversários a origem dos males, bem como ataca as pessoas e não responde a suas ideias. Em segundo lugar, é um discurso que estimula o ódio e a divisão (o que evidencia que o seu slogan de campanha é uma profunda hipocrisia). Em terceiro lugar, revela sua pobreza de ideias, ao imaginar que a solução para tamanhas dificuldades de uma instituição gigantesca e complexa como a universidade se resume ao conto infantil esquerda x direita. O eles contra nós.

Mas para nós, que somos de esquerda, o recurso a essa miséria moral e intelectual é ainda mais excruciante porque nos obriga a uma reflexão sem medo: por sermos de esquerda, não podemos nos atribuir nenhuma superioridade moral ou técnica sobre aqueles que classificamos como nossos adversários de direita. Precisamos reconhecer o óbvio: nós temos um passado muitas vezes sinistro com o qual precisamos continuamente ajustar contas. Negar isso é tapar o sol com a peneira da simplicidade. Muitas vezes, nossas gestões de universidades, cidades e estados, por despreparo, excesso de confiança, ou falta de clareza e mesmo de conhecimento, foram ridiculamente ruins. Mais do que isso, é preciso reconhecer que todas as gestões universitárias, nos últimos trinta anos na UFSC, que se definiram “como de esquerda” deixaram muito, muito a desejar, para dizer o mínimo. As melhores gestões universitárias foram aquelas que sequer colocaram essa dicotomia em tela.

Deveríamos, portanto, nós de esquerda, termos a honestidade de dizer em alto e bom som: devem votar em nós, não porque somos de esquerda, mas porque apresentamos o melhor projeto, o plano socialmente mais abrangente, a ideia mais democrática, o projeto mais universal no sentido da manutenção e ampliação dos direitos. Do mesmo modo, deveríamos ter vergonha de dizer apenas: não vote no outro porque ele é de direita! Nosso procedimento deveria ser o contrário: não vote neles poque nós temos o melhor plano, a solução socialmente mais generosa, democraticamente mais ampla e coletivamente mais justa.

Na última semana, o diretor do nosso filme de horror gravou um vídeo, usando uma camiseta negra (lembremos as camisas negras eram símbolos do fascismo italiano), um fundo negro, numa imitação nada sutil do deputado do PL de Minas Gerais, Nikolas Ferreira. A ameaça, o ultimato eram explícitos, o apelo ao medo e o discurso de ódio os instrumentos da chantagem política: ou votam em nós, ou vivam o retrocesso! O bem e mal, nós contra eles, o santo guerreiro contra o dragão da maldade. Quanta simplicidade tosca! Alguém já disse que a história acontece duas vezes, na primeira vez como tragédia (lembremos que o vídeo original do deputado teve 3 milhões de visualizações); na segunda, como farsa sórdida. Irinikolas não é um substantivo, é um adjetivo. Quem namora a estética fascista deve ter por ela alguma simpatia, como aprendemos com Leni Riefenstahl. A gestão da universidade é uma coisa muito complexa que depende de conhecimento técnico, planejamento eficaz, clareza política, tenacidade e muita capacidade de aproximação com forças distintas, suscitando sua colaboração. Afinal, isso aqui se chama universidade não por apego ao nome, mas porque expressa uma junção de forças díspares, socialmente e politicamente. Todas as forças da universidade devem ser chamadas a atuar, desde que estejam comprometidas com a defesa da sua manutenção como uma instituição pública, de qualidade, socialmente referenciada. Esse é compromisso da chapa 41, por isso apoio Amir e Felipa para que os adultos que não acreditam no homem do saco, no bicho papão, na perna peluda, voltem a gerir a nossa universidade! A esperança há, mas uma vez, de vencer o medo.

*Adriano Duarte é professor no Departamento de História e ex vice-presidente da Apufsc-Sindical

Artigo recebido às 7h30 do dia 14 de abril de 2026 e publicado às 9h25 do mesmo dia