Dados indicam que o temor de uma fuga de cérebros não encontra respaldo nas estatísticas
Apenas 1,2% de 254,9 mil doutores formados em instituições brasileiras entre 2013 e 2024 tinha residência fora do Brasil declarada em março de 2025, segundo uma análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada em maio. Os dados indicam que o temor de uma fuga de cérebros, como é chamada a perda de pessoal com alta qualificação para países com boas oportunidades de trabalho e melhores condições de vida, não encontra respaldo nas estatísticas, ao menos no recorte que observa as pessoas que concluíram doutorado no país.
O estudo revela que, entre os 3.145 doutores titulados no Brasil que emigraram, 20% foram para os Estados Unidos, 8,9% para a Colômbia, 7,9% para a Alemanha, 7,7% para o Canadá e 5,4% para a França. Quase um terço deles (972) era de estrangeiros que vieram fazer sua formação no Brasil e, desses, 904 representam casos de imigração de retorno, ou seja, pessoas que voltaram para o país de origem. Entre eles, a maioria veio da Colômbia (29,84%), seguido do Peru (9,57%) e de Moçambique (9,26%).
“Um problema crônico das análises sobre fuga de cérebros é a falta de dados sobre o volume e o perfil dessas pessoas”, explica o economista e coordenador de métodos e dados do Ipea, Daniel Gama e Colombo, autor do estudo, publicado no boletim Radar. A análise levantou os nomes dos doutores titulados nos últimos 10 anos no país em uma base de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e verificou os locais onde residem por meio do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) da Receita Federal. “Esses dados indicam que o país apresenta uma taxa de fuga de cérebros baixa, o que pode sinalizar que o investimento feito na formação desses profissionais permanece beneficiando principalmente a sociedade e a economia do país”, destaca Colombo.
Segundo o estudo, outros países têm taxas de emigração de doutores bem superiores – cerca de 13,4% nos Estados Unidos, mais de 20% na Suíça e em torno de 8% no Reino Unido. Colombo aponta que é difícil fazer uma comparação direta, uma vez que os países utilizam métodos de coleta de informações diferentes. Além disso, a circulação de profissionais altamente qualificados nesses países do Norte global é frequente – entre nações da União Europeia, por exemplo, é bastante comum. “Esse movimento é facilitado por acordos que simplificam questões burocráticas, pela reputação internacional das universidades e pelo peso do diploma obtido nessas instituições”, observa Colombo.
O economista usou como recorte os pesquisadores que se formaram em universidades brasileiras com o intuito de avaliar o retorno ou a perda do investimento público que o país fez na formação dessas pessoas. Colombo levanta a hipótese de que a taxa de emigração reduzida também pode indicar dificuldades de inserção internacional de parte dos doutores brasileiros. Um dos dados do estudo que reforça essa ideia é de que a taxa de emigração aumenta quanto mais alto for o conceito dos programas de pós-graduação que os doutores frequentaram.
Leia na íntegra: Revista Fapesp
