*Por Raul Valentim
De acordo com a ciência atual, o Universo começou num ponto extremamente denso de energia. Os cientistas associam a este evento o termo singularidade, que pode ser entendida como uma ocorrência cientificamente inexplicável. Os conhecimentos científicos, hoje fartamente disponíveis, permitem encontrar outras ocorrências passadas, que podem ser também consideradas singularidades e que foram essenciais para a existência da vida na Terra.
O surgimento, no Big-Bang, da física e da mecânica quântica, com suas matemáticas, igualmente pode ser enquadrado como uma singularidade imprescindível para a geração da matéria com sua massa. O aparecimento, nestes primórdios do universo, das quatro interações fundamentais, também dotadas de suas respectivas matemáticas, pode ser enquadrado como outra indispensável singularidade. Os átomos de hidrogênio, formados em profusão imensurável, e a gravidade permitiram a posterior criação, em inúmeras estrelas, dos demais elementos químicos e de toda a química, essenciais para a vida na Terra.
Entre os pré-requisitos para a conformação vigente no Universo, que permitiram a geração e manutenção da vida, estão mais de vinte constantes universais, que são grandezas físicas cujos valores, singularmente, estão precisamente calibrados para viabilizar estes propósitos. A gravidade, como uma desta constantes, propicia apropriadas vinculações orbitais da Terra com o Sol e com a Lua, essenciais para assegurar energia vital e muitos outros benefícios cruciais para a persistência da vida terrena.
O eletromagnetismo, outra das quatro interações fundamentais, permite que a energia do Sol chegue à Terra na velocidade da luz, gerando diariamente claridade adequada e calor suficiente para manter a água líquida nos oceanos, rios e lagos. A vida deve ter começado nestes ambientes aquáticos. O eletromagnetismo, criado do nada, como uma preciosa singularidade, propicia também um eficaz campo magnético que protege a vida na Terra de prejudiciais ventos solares e radiações cósmicas.
O surgimento da vida, que perdura há mais de 3 bilhões de anos, pode ser considerado uma nova e destacada singularidade, agora já com forte vinculação à biologia. O organismo único que, segundo a ciência, deu origem a toda vida, teve a capacidade simultânea de viver, sobreviver e se reproduzir. Para sobreviver, precisou, de alguma forma, incorporar energia, como fazem as plantas através da fotossíntese. O aparecimento desta capacidade de absorver a energia luminosa e gerar moléculas que armazenam energia química (glicose) certamente é uma outra autêntica singularidade inexplicável.
As capacidades de reprodução desse primeiro ancestral (LUCA) e, posteriormente, de sua diversificação, em uma grande multiplicidade de espécies, constituem-se em novas e altamente enigmáticas (indecifráveis ou incompreensíveis) singularidades. A complexa criação de genes e células, com suas extraordinárias características, também merece ser enquadrada como singularidade, que pode ser racionalmente atribuída a uma Entidade suficientemente criativa e inteligente, idealizadora e criadora do Universo.
Singularidades inexplicáveis podem ser identificadas nas várias etapas da evolução da vida na Terra. Assim ocorreu na passagem dos mares para a terra. Os vegetais precisaram criar condições de sobreviver no novo ambiente. Necessitaram captar carbono do ar, através das folhas, e nutrientes minerais, incluindo a água, por meio das raízes. Conseguiram realizar estas façanhas singulares incorporando novas informações no nível genético. Para isto, cada célula das plantas atuais possui três genomas.
Um destes genomas comanda o processo de fotossíntese para incorporar carbono, prestando o magnífico serviço ecológico de reduzir o dióxido de carbono na atmosfera terrestre, e para absorver energia solar, liberando oxigênio suficiente e essencial para a sobrevivência dos animais. O outro genoma encarrega-se do armazenamento da energia absorvida na forma de glicose, também essencial para a vida animal. O terceiro genoma ocupa-se da viabilização de todas as funcionalidades para o crescimento, a sobrevivência e a reprodução da planta, em cada uma das milhares de espécies que existem ou já existiram na Terra.
Este terceiro genoma, sabe gerar raízes, caules, flores, frutos e sementes. Para executar estas complexas tarefas, conhece toda a biologia da respectiva espécie, relativa a seu gênero, quando não é hermafrodita. Sabe física e química suficientes para executar todas as tarefas biológicas que demandam tais saberes. Assim sabe quais nutrientes são necessários para o período de florescimento, encomendando das raízes e das folhas as quantidades apropriadas no devido tempo. Conhece e aplica toda a complicada logística necessária para que a respectiva planta sobreviva e se multiplique para assegurar a preservação de sua espécie.
No reino animal, a complexidade tornou-se ainda maior. Os sistemas sensoriais, necessários para controlar deslocamentos e movimentos, tornaram necessárias inúmeras outras singularidades. As células, com dois genomas, precisaram incorporar, também no nível genético, saberes de física e de química mais avançados. Os sistemas visuais, diferenciados em diferentes espécies, absorveram saberes de ótica. Os sistemas auditivos anexaram múltiplos conhecimentos de acústica. O tato, tanto nas peles envoltórias como nas línguas, precisou da termodinâmica para tratar de temperatura e calor. Os olfatos e paladares precisaram incorporar saberes muito especiais de química.
Os sistemas sensoriais, criados na evolução da vida animal, apresentam múltiplas singularidades inexplicáveis, como as precisas conversões, em cada tecido, da energia química, absorvida em diferenciadas alimentações, em energia térmica apropriada para manter estável, em diferentes valores, a temperatura corporal em cada uma das 16 mil espécies de animais homeotérmicos existentes, que inclui os humanos. As conversões da energia química disponível em impulsos elétricos apropriados para o pleno funcionamento dos sistemas nervosos vinculados com cada um dos sistemas sensoriais, incluindo as sensações de dor, também configuram autênticas singularidades em cada uma das espécies existentes.
O imenso conhecimento genético imerso nos genomas dos seres vivos, dentro da diversidade de milhões de espécies e de suas múltiplas variedades, como é o caso dos cachorros, permite levantar questionamentos racionais sobre a validade do atual paradigma ateísta que ainda vigora na comunidade científica. A contestação de divindades religiosas pode ser compatibilizada com uma postura agnóstica mais condizente com o atual estágio dos conhecimentos disponíveis.
*Raul Valentim é professor aposentado do CTC/UFSC
Artigo recebido às 13h do dia 9 de junho de 2026 e publicado às 15h17 do mesmo dia
