Fenômeno tem duração de nove a 12 meses e impactos em todo o globo terrestre
Marcado no Brasil por chuvas mais volumosas na região Sul, seca nas regiões Norte e Nordeste, e verão muito quente no Sudeste, o El Niño já está estabelecido e se intensificando, segundo a agência científica dos Estados Unidos que monitora o fenômeno, a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). No último comunicado, emitido nesta quinta-feira, dia 13, a NOAA afirma que, entre outubro e dezembro de 2026, há 69% de chance de que ocorra “um evento histórico” que seria mais forte que qualquer El Niño registrado desde 1950.
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, associado a mudanças na circulação atmosférica. Ele pode ser classificado como fraco, moderado, forte ou muito forte, conforme a intensidade desse aquecimento.
Para a NOAA, a probabilidade de que ocorra um evento muito forte entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027 é superior a 90%. A agência considera histórico um El Niño cujo aquecimento superaria 2,5ºC na média de três meses.

Segundo Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora de três grupos de trabalho do World Climate Research Programme (WCRP) sobre riscos climáticos e ondas de calor marinhas, algumas previsões indicam para um aquecimento de até 4º acima da média, o que para ela é “muito assustador”.
Apesar de ponderar que as previsões às vezes falham, principalmente no que diz respeito à intensidade do fenômeno, ela destaca que, neste momento, a temperatura do oceano está acima das registradas no mesmo período em El Niños fortes anteriores. “A temperatura em julho, agosto, quando eles começam, é de meio grau só, o pico de 2º fica lá em janeiro, dezembro. Ele começa assim e geralmente vai subindo, esse já tá com 1º”, explica a pesquisadora.

Além disso, a distância entre esses eventos tem diminuído. Conforme Regina, em 1979 foram colocados satélites que possibilitaram um melhor mapeamento da temperatura do mar do globo. Desde então, ela conta que foram registrados quatro El Niños considerados fortes, em que “o aquecimento não só fica acima de 2º, mas pega uma área muito maior do Pacífico até chegar à costa da América do Sul”.
Entre o primeiro, em 1982-83, marcado pelas enchentes do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, e o segundo, em 1997-98, passaram-se 15 anos, intervalo parecido com o seguinte, de 2015-16. Já entre esse último e o de 2023-24, quando ocorreram as inundações no Rio Grande do Sul, foram nove anos. Agora, forma-se outro apenas três anos depois. “Isso é um problema sério, porque antigamente esses fortes eram mais espaçados”, argumenta Regina.
O ciclo de um El Niño geralmente inicia entre julho e agosto de um ano, durando de nove a doze meses, com o pico entre dezembro, janeiro e fevereiro e impactos em todo o globo.
Risco de catástrofes

como uma das 101 brasileiras que “ajudam a antecipar o amanhã”
(Foto: Divulgação)
Professora da área de Oceanografia Física e Clima da UFSC, Regina Rodrigues afirma que, apesar de ser um El Niño mais forte, isso não indica necessariamente que ele terá impactos mais severos no Brasil. A ocorrência de catástrofes, por exemplo, depende também de condições locais. Ela recorda, inclusive, que historicamente o período de chuvas mais intensas no Sul do país acontece na primavera e no outono, fora do pico do El Niño.
“Se fosse só relacionado a temperatura, as catástrofes viriam a ocorrer no verão, e não é o caso. Então, não é atrelado exatamente à intensidade do aquecimento [do fenômeno em si] e sim à maneira como a água quente se movimenta, que gera ondas na atmosfera, essas ondas se propagam para a América do Sul e aí tem situações e locais que combinam para gerar uma catástrofe”, detalha Regina.
No caso dos vendavais que atingiram o Sudeste nas últimas semanas, a pesquisadora explica que, apesar de não ser uma ocorrência comum neste evento climático, o fato de o El Niño estar adiantado contribuiu para os episódios registrados.
“O vento é uma resposta da diferença de temperatura entre a frente fria, que é uma massa de ar frio que está vindo e batendo com uma massa de ar quente. Se ela ocorre na primavera, esse ar frio não é tão frio. Mas como ocorreu antes, porque esse El Niño está adiantado, ocorreu no inverno e a massa de ar frio era muito mais fria. Então quanto maior a diferença do frio para o quente, o vento é muito mais intenso e catastrófico”, destaca.
Diante desse cenário, Regina alerta que, pela previsão do tempo, só é possível identificar com mais precisão, com cerca de 10 dias de antecedência, quando e onde exatamente vão ocorrer eventos que podem ser extremos. Por isso, governos, estados e municípios precisam estar preparados com medidas de curto e longo prazo.
A professora, que contribuiu para um dos últimos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) e fez parte do corpo editorial do relatório 10 New Insights in Climate Science 2025/2026, destaca como necessárias desde ações básicas, mais “enxuga-gelo”, como limpar bueiros e melhorar a drenagem de vias, até soluções efetivas baseadas na natureza, como não permitir o desmatamento das áreas de mananciais.
“A gente não pode parar um evento climático. O El Niño vai acontecer, as consequências vão vir. Se vier uma chuva forte, a gente não tem como parar, mas a gente teria como reduzir o impacto”.
A Defesa Civil de Santa Catarina afirma que mantém o acompanhamento contínuo das condições atmosféricas e oceânicas e das projeções climáticas para os próximos meses, com atenção aos possíveis impactos do fenômeno no estado. O órgão orienta a população a consultar diariamente as previsões meteorológicas, os boletins e os avisos oficiais, principalmente diante da possibilidade de chuva intensa, temporais, vento forte ou granizo. A Defesa Civil de SC mantém uma página especial sobre o El Ninõ.
Karol Bernardi
Imprensa Apufsc
