Resíduos foram encontrados no prédio onde funcionou o DOI-Codi, em São Paulo
A pesquisadora Maryah Elisa Morastoni Haertel, técnica de laboratório de Física do campus Blumenau da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi responsável pelas análises que identificaram resíduos biológicos compatíveis com sangue humano no prédio onde funcionou o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo, durante o período da ditadura militar.
A descoberta foi realizada por meio de um projeto de pesquisa interinstitucional, coordenado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e com participação da UFSC Blumenau, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de São Paulo (USP). A equipe de arqueologia era composta somente por mulheres e o resultado da pesquisa foi publicado recentemente na Forensic Archaeology, Anthropology and Ecology.
Durante a década de 70, o complexo do DOI-Codi de São Paulo foi o principal centro de repressão da ditadura militar, com mais de sete mil pessoas detidas no local e pelo menos 52 mortes documentadas. O prédio de três andares, localizado na Rua Tutóia, no bairro Vila Mariana, foi um dos mais ativos centros de tortura, interrogatório, assassinato e desaparecimento do país.
O estudo combinou investigação arqueológica, análise das intervenções realizadas no edifício ao longo dos anos e diferentes técnicas de ciências forenses para examinar vestígios encontrados em espaços historicamente associados à detenção, ao interrogatório e à tortura. As amostras biológicas foram coletadas no DOI-Codi em agosto de 2023 e a análise foi realizada entre 2024 e 2025, nos laboratórios da UFSC Blumenau.
Maryah explica que, para a análise em campo, foram utilizadas luzes forenses, luminol e um sistema óptico desenvolvido por ela mesma especificamente para o rastreio de vestígios biológicos. “Todos esses métodos são presuntivos, ou seja, apontam a possibilidade mas não confirmam o achado. Os positivos desta etapa foram obtidos no segundo andar, com ênfase em salas de interrogatório, e na enfermaria”, conta.
Segunda etapa
As amostras que tiveram resultado positivo em campo foram então submetidas a análises laboratoriais, onde foram utilizados espectroscopia de fluorescência e métodos químicos (Teste de Kaslte-Meyer e Teste dos cristais de Takayama). A pesquisadora conta que enfrentou três tipos principais de dificuldades para fazer as análises: instrumental, base de dados e cadeia de custódia. No quesito instrumental, foi necessário separar e encontrar métodos que poderiam confirmar a presença de sangue tão antigos.
Já no quesito base de dados, foi a dificuldade de achar estudos que analisavam sangue tão antigo. “Eu ficaria muito feliz se tivesse encontrado pesquisas com mais de dez anos. Na grande maioria dos trabalhos, o interesse é sangue recente (até 60 dias ou até, no máximo, dois anos). Saber como o sangue se degrada, em condições ambientais, após 40 anos da deposição, foi um desafio. Não há bases de dados de comparação atualmente”, relata Maryah.
No quesito cadeia de custódia, a equipe teve que ter um cuidado muito grande com os vestígios encontrados, pois o prédio não ficou fechado nos anos 90, ele foi tombado como patrimônio histórico apenas em 2014. “Foram realizadas alterações arquitetônicas importantes, e nada que estivesse visível poderia ser ligado diretamente aos crimes cometidos nas décadas de 60, 70 e 80. Por isso, um estudo histórico e arquitetônico foi realizado, para identificar qual era o piso da época e chegar até ele, escavando camada por camada. Ou seja, não foi chegar e coletar qualquer coisa: teve toda uma parte documental antes, para entender o prédio e o que, de verdade, poderia ser encontrado lá”, explica Maryah.
Além desses obstáculos técnicos, a equipe também teve dificuldade para manter o sigilo dos resultados, que chegaram a vazar na imprensa na época. “As análises presuntivas nos animaram, mas não era possível confirmar sangue. Essa confirmação só pode ser realmente feita agora, após todo o processo de análise, assim como após passar pelo escrutínio da comunidade científica e ser publicado. Agora sim, posso falar: achamos restos hemáticos”, afirma a pesquisadora.
A equipe do projeto tentou ainda realizar a análise de DNA das amostras, buscando cruzar informações de pessoas presas ou desaparecidas durante o período da ditadura militar. No entanto, não foi possível fazer nenhum tipo de identificação porque os vestígios estavam muito degradados. “Detectar sangue, por si só, já é algo muito importante e muito difícil”, explica Maryah.
Pesquisa histórica
Maryah conta como foi para ela participar dessa pesquisa, tão importante e esclarecedora para o país. “É muito legal perceber a evolução tecnológica em ciências forenses, e mostrar que análises antes inimagináveis agora podem ser realizadas. Ainda precisamos de pesquisas, ainda precisamos de desenvolvimento e de gente trabalhando na área. Mas é possível investigar crimes com mais de 50 anos e tentar dar materialidade aos eventos discorridos por várias testemunhas. Mas não se enganem achando que o trabalho é simples: garantir toda a metodologia utilizada foi um desafio, principalmente quando algo assim nunca foi feito no mundo”, avalia.
Por causa dos achados, em novembro de 2025 foi realizada mais uma parte de campo no DOI-Codi, levando a melhorar as análises na sala da enfermaria. Novamente foram utilizadas luzes forenses, luminol e métodos imunocromatográficos no local, (todos presuntivos). Agora esse material está novamente na UFSC Blumenau para mais análises.
Além da etapa de arqueologia forense, o projeto interinstitucional atuou em outras frentes, como pesquisa documental, coleta de testemunhos, arqueologia da arquitetura e ações de arqueologia pública. Uma equipe de filmagem acompanhou os trabalhos e futuramente um documentário deve ser lançado. Os resultados apresentam provas materiais sobre a repressão vivida durante o período, ajudando a apoiar políticas de memória e justiça.
Fonte: UFSC Blumenau
