Evento celebra 40 anos da IA na UFSC, relembra pioneirismo e debate desenvolvimento responsável

Professor aposentado Renato Antonio Rabuske, responsável por ministrar, em 1986, a primeira disciplina de IA da universidade, recebeu homenagem

A história da Inteligência Artificial (IA) na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi celebrada em evento na noite desta terça-feira, dia 15. Quatro décadas depois da criação da primeira disciplina dedicada ao tema na instituição, professores, estudantes, técnicos e gestores reuniram-se no auditório da Reitoria, no campus de Trindade, em Florianópolis, para relembrar a trajetória e refletir sobre o futuro da tecnologia.

Promovida pela Pró-Reitoria de Graduação e Educação Básica (Prograd), a conferência “A Inteligência Artificial no contexto universitário” abriu espaço para discutir as transformações provocadas pela IA, suas possibilidades de aplicação e os desafios éticos e pedagógicos.

O evento contou com homenagem ao professor aposentado Renato Antonio Rabuske, responsável por ministrar, em 1986, a primeira disciplina de IA da UFSC. O reitor Amir de Oliveira e o professor Aldo von Wangenheim entregaram uma placa de reconhecimento à contribuição de Rabuske para a área. Ele estava acompanhado da esposa, a também professora aposentada da UFSC, Márcia Aguiar Rabuske, cuja atuação na área da Computação e no Departamento de Informática e Estatística (INE) também foi evidenciada.

O professor aposentado Renato Antonio Rabuske foi o responsável por ministrar, em 1986, a primeira disciplina de IA da UFSC, e recebeu homenagem do reitor (Fotos: Gustavo Diehl/UFSC)

Rabuske disse que recebeu “com muita surpresa a comunicação dessa homenagem”. “Quero dividi-la com todos os professores que me apoiaram e incentivaram durante a minha jornada na universidade”, completou. Ao recordar a reforma curricular realizada na década de 1980, o professor ressaltou o apoio recebido de colegas. “Estávamos convictos de que o curso não produziria bons resultados sem um bom planejamento e um bom currículo. Pensávamos em algo capaz de ir além do preparo de mão de obra para o mercado de trabalho existente, propondo novos desafios e apontando novas possibilidades para a sociedade”.

Foi nesse contexto que surgiu a proposta de incluir a inteligência artificial no currículo. Rabuske observou que a decisão representava uma aposta acadêmica, pois a área atravessava um período de descrédito internacional e ainda não apresentava as perspectivas que possui atualmente.

O professor explicou que, naquela época, as limitações tecnológicas eram significativas. Ao chegar à universidade, na década de 1970, encontrou uma estrutura computacional com capacidade muito inferior à disponível atualmente. Ainda assim, participou do desenvolvimento de sistemas institucionais.

Apesar das restrições de infraestrutura, financiamento e pessoal, Rabuske identificava possibilidades concretas de pesquisa. “Mesmo dentro de nossa limitada realidade local, havia espaço e ferramentas para desenvolver sistemas especialistas. Incluir a inteligência artificial já representava um avanço importante”. Os resultados práticos, entretanto, foram inicialmente modestos. Conforme relatou, faltavam recursos financeiros e pesquisadores, e poucos estudantes demonstravam interesse em desenvolver trabalhos de conclusão de curso sobre IA. Rabuske lembrou, contudo, algumas iniciativas que ajudaram a manter o campo de investigação ativo na UFSC.

“Nós, pioneiros, desbravamos e semeamos, mas a colheita costuma tardar e ficar para as gerações seguintes, como a nossa realidade atual comprova”, interpretou o professor.

Nova fase da IA

Ao tratar do atual desenvolvimento da tecnologia, o professor Rabuske defendeu que a sociedade procure obter da inteligência artificial o maior benefício possível, sem ignorar seus riscos. Ele considerou legítimas as preocupações sociais provocadas pelas transformações tecnológicas e lembrou que grandes invenções e descobertas também despertaram reações semelhantes em outros momentos da história.

Entre os desafios mencionados estão a expansão dos centros de dados, o aumento da demanda por energia e, principalmente, as questões éticas e de segurança. Rabuske alertou para o temor de que o desenvolvimento tecnológico avance sem mecanismos suficientes de supervisão humana.

Segundo o professor, o momento exigiria cautela, vigilância e articulação internacional. “As empresas conhecem os riscos, mas dizem estar presas à disputa pela sobrevivência no mercado. O momento exige extrema cautela e coordenação internacional”. Rabuske ressaltou ainda que “para o bem e para o mal, esses sistemas de inteligência artificial estão sendo disponibilizados diretamente ao grande público, o que torna seus usos e impactos difíceis de prever”.

Ao encerrar sua manifestação, o homenageado dirigiu uma mensagem de incentivo tanto aos pesquisadores que já atuam com inteligência artificial quanto àqueles que pretendem ingressar nesse campo. “A todos os que já estão envolvidos com a inteligência artificial, e àqueles que ainda se aventurarem nessa fantástica área, desejo muito sucesso”.

Na sequência, a conferência foi conduzida pelos professores Aldo von Wangenheim e Jônata Tyska, ambos do INE. Durante o encontro, os palestrantes apresentaram uma visão geral da IA, passando por seu desenvolvimento histórico, principais termos e conceitos e pelo avanço recente da chamada IA generativa.

O debate também abordou as discussões e normativas existentes no Brasil e em outros países, além de evidências científicas sobre os efeitos do uso dessas tecnologias na aprendizagem e no ambiente universitário. Os riscos, os limites éticos e os impactos da inovação estiveram entre os assuntos discutidos.

Assista na íntegra:

Fonte: Notícias UFSC