Os barbudos do clima (1)

*Por Armando Lisboa

“Se a economia enfeitiça, é preciso aprender a exorcizá-la” (Bruno Latour)
“O problema não é a superabundância de humanos, mas uma escassez de humanidade” (Sam Kriss; Mae O’Hagan)
(2)

Os catadores, apesar do manto da invisibilidade que paira sobre vosso honroso trabalho, são, reservadamente, reconhecidos por muitos como os “heróis não celebrados da modernidade” (Zygmunt Bauman), anjos que recolhem materiais reaproveitáveis, mas rejeitados pois obsoletos (ou qualquer outro motivo), abrindo espaço para o volume cada vez maior de coisas mais novas a serem consumidas. E não é só por amenizarem o problema ecológico, como bem expressou Bauman (3): “A sobrevivência moderna – a sobrevivência da forma de vida moderna – depende da destreza e da proficiência na remoção do lixo”. Para além desta nobre missão, vocês contribuem também para aliviar a consciência dos demais cidadãos, que podem continuar a manter uma aura de inocência sobre seu modo de vida, e assim permanecerem descartando, sem sombras e dúvidas, as sobras dos crescentes materiais consumidos. 

Ora, o acirramento das mudanças climáticas e o recrudescimento do drama ecológico da humanidade agigantam ainda mais a vossa força simbólica e espiritual perante o conjunto da sociedade. Talvez vocês não percebam o quão poderosos vocês hoje são, pois, por um lado, sendo a ponta inicial – e por enquanto a mais frágil – da cada vez mais importante cadeia da economia circular, são ainda muito mal remunerados pelo vosso duro trabalho.

Portanto, na prática, ao invés de serem reconhecidos como heróis (através de leis que diferenciem tributariamente vossos empreendimentos), vossa classe é destratada, pois trabalha, em geral, sob alto risco nas mais insalubres condições. Vossa importância simbólica não se traduz significativamente em ganhos materiais. Caso os catadores tenham mais força política, há um grande espaço para avanços e conquistas. Traduzindo: há que amplificar e robustecer a vossa organização enquanto classe de trabalhadores e empreendedores.

Por outro lado, e de forma ambivalente, infelizmente também cresce uma repulsa ao pobre, ao imigrante (sem dinheiro), considerados escória desprezível e ameaçadora. Da mesma forma como o “inútil lixo” se descarta e se quer ocultar, destinado a ser varrido para locais distantes (não visíveis) e fétidos, também os pobres, vistos com medo, aversão e desprovidos de valor, devem ficar escondidos, afastados e esquecidos, para que sua feiura não macule a reluzente paisagem urbana.

Assim, o medo dos pobres como vilões faz crescer, paradoxalmente, a proposta de incineradores, pois, através deles, se elimina a incômoda presença dos humildes catadores percorrendo ruas…

Voltemos à raiz da potência simbólica do vosso trabalho: o problema ambiental. O âmago do mesmo é a saturação da capacidade da natureza de decompor, limpar e absorver os gigantescos volumes de gases (especialmente o dióxido de carbono, CO2) e resíduos (plásticos, tóxicos, e mesmo orgânicos) que produzimos, provocando rupturas nos ciclos naturais. Ou seja, os sumidouros naturais (oceano e atmosfera) – o ralo – estão entupidos.

O diagnóstico mais fácil deste problema estaria no consumismo. O consumo aqui é visto de forma extremamente negativa e pecaminosa, como se fosse possível viver sem consumir. Os críticos supõem que o consumo é um ato vazio, que apenas busca preencher ilusoriamente o lugar oco de nossa alma. 

Sobre este lugar vazio, uma bela ilustração poética é a música “infinita highway” dos Engenheiros do Hawaii:

“Estamos sós e nenhum de nós sabe exatamente onde vai parar. Mas não precisamos saber pra onde vamos. Nós só precisamos ir. Sem motivos, nem objetivos …”.

Esta aparente falta de alicerces e propósitos – a superfluidade – da atual condição humana é muito criticada. Os que deploram esta fuga diversionista como um perigo mortal sugerem que esta futilidade seja substituída com atividades com forte conotação moral. Papa Francisco, por exemplo, convida a todos a realmar a economia, devolvendo a alma a mesma através de uma economia mais franciscana, sóbria, includente e ecológica.

Mas, centralizar a questão ecológica na crítica ao consumismo (e a ela se reduzir) é uma abordagem moralista e equivocada. E não apenas pela afirmação errônea de que o consumo não tem alma: ele tem! Ele nos completa. Uma sociedade sem espaços lúdicos, sem diversão, seria monótona e intolerável. Já no séc. XVII, Blaise Pascal percebeu que, antropologicamente, como seres incompletos e insuficientes que somos, sem divertimento esta realidade seria insuportável. Mais recentemente, os Davids Graeber e Wengrow demonstrarão que “somos criaturas de excessos, e é isso que nos torna a mais criativa e ao mesmo tempo, mais destrutiva entre todas as espécies” (4).

O consumo é, sem dúvida, parte do problema, especialmente quando uniformizado (sem vínculos espaciais e temporais), massivo e banalizado. Ou seja, quando formatado como escolha individual descomprometida de preocupações coletivas. Neste formato hedonista, ele gera uma (in)sensibilidade estereotipada e bruta (Pasolini/Safatle). 

Mas ele não se reduz apenas à face de “vilão” com a qual é retratado. Trata-se de um fenômeno muito mais complexo e ambíguo, possuindo inclusive uma face libertária, de protesto tanto contra o repressor puritanismo, quanto a recusa do estreito e asfixiante domínio do labor produtivista (Marcuse). 

O consumo é também uma forma de se integrar e se distinguir na sociedade (Veblen/Canclini), e não somente um lugar de irracionalidade alienante e atos compulsivos. Afinal, até os catadores também consomem e querem fazer parte deste universo, correto?

Se o consumo tem um papel central na formação da identidade, ele se torna um “lugar de valor cognitivo e útil para pensar e agir significativa e renovadoramente na vida social” (5). Os exemplos das cooperativas de consumo e as práticas de boicote (recusar-se a comprar) como estratégia política são ações de politização do consumo que demonstram que consumo e cidadania também se articulam (Hirschman). Não resta dúvida da grande influência dos movimentos de consumidores, como desponta no poder do lema dos 3 Rs – reduzir, reutilizar e reciclar – que pauta o consumo consciente.

Todavia, por mais influentes que sejam, estas práticas são insuficientes (circunscrevem-se aos privilegiados, punindo cinicamente os mais pobres ao impedi-los de participar da festa) se desatrelados de outras batalhas – especialmente as situadas no âmbito da produção: é vital que ocorra uma supressão no uso dos combustíveis fósseis, responsável pelo aquecimento global e mudanças climáticas! O consumo responsável e cidadão não é, portanto, substituto da ação política clássica para responder à crise ecológica (tanto porque a luta contra a resistência fóssil já está posta; quanto os custos para uma transição de paradigma na economia exigem uma maior intervenção estatal…).

A questão não é nem condenar e estigmatizar o consumo, nem apostar apenas na moralização do mesmo, mas adentrar na disputa sobre seu significado e desvendar o metabolismo que o impulsiona, para, assim, quebrar seu feitiço.

Como Pepe Mujica celebremente desvendou, o consumo é tão fascinante que acaba por nos possuir e enfeitiçar, levando-nos a sacrificar o tempo das nossas vidas para corremos cega e ilusoriamente na infinita highway.

Alexander von Humboldt, um dos primeiros ocidentais a compreender os povos tribais como não bárbaros, há mais de dois séculos anotou que os indígenas sul-americanos viam os europeus “sempre apressados’ e ‘acossados por demônios'” (6). E como se chamam estes demônios? 

“O capitalismo é como um bruxo que se sente forçado a jogar o mundo concreto como um todo no grande caldeirão da mercantilização para evitar que tudo pare. A crise ecológica não pode encontrar solução no quadro do sistema capitalista que precisa crescer sem parar e consumir cada vez mais matéria só para poder se opor à diminuição de sua massa de valor” (7).

Se não dissermos em claro e bom som o nome destes “demônios”, não poderemos exorcizá-los, nem desenfeitiçar a economia, correto?

Um exemplo simples ilustra porque o capitalismo é possuído por um espírito produtivista e tumoral. Um alfaiate confecciona uma camisa em uma hora. Com a introdução de máquinas, ele produz dez camisas por hora. Cada camisa valerá cerca de um décimo da hora de trabalho (seis minutos), barateando significativamente seu valor. Se a taxa de lucro for de 10%, o ganho por camisa reduz-se do equivalente a seis minutos (quando uma camisa por hora era produzida) para 36 segundos (pois cada camisa agora é produzida em 360 segundos). Com apenas um décimo do lucro anteriormente obtido, é preciso produzir e vender dez camisas (e, logo, consumir dez vezes mais recursos) para obter a mesma quantidade de valor.

Num mundo não capitalista, a melhoria técnica geraria, além de mercadorias mais baratas, mais lazer para o alfaiate. Mas no capitalismo, a concorrência intercapitalista impulsiona cada proprietário de capital a introduzir novas máquinas para sobreviver e até obter um lucro maior que seus concorrentes, engendrando um crescimento material em avalanche. Hannah Arendt soube captar, de forma lapidar, esta voracidade insaciável e satânica:

“Toda nossa economia se tornou uma economia de desperdício na qual as coisas precisam ser devoradas ou descartadas quase na mesma velocidade em que aparecem no mundo, para que o próprio processo não chegue a uma parada catastrófica” (“A condição humana”, 1958).

Ou seja, se continuarmos apenas focados na reciclagem, sem rever o metabolismo fabril que produz incessantemente mercadorias e resíduos, nem os hábitos decorrentes, seremos absorvidos pela indústria dos resíduos e da poluição, a qual vai se tornando a principal indústria do capitalismo (8). A importância do lixo como indústria (e como máfia!), aliás, fica visível nos mais de 30 prefeitos presos em SC, todos por canalhice no trato do mesmo. 

Portanto, se não parar a corrida insana e incansável pela produtividade que obriga a um aumento contínuo na produção/consumo, o crescimento incontrolável da economia continuará, como uma metástase cancerígena, a se reproduzir, se alastrar e destruir a vida planetária. Não reverter isto, e apostar apenas na reciclagem, é, na prática, enxugar gelo, isto é, apenas adiar sermos soterrados por uma montanha de objetos e refugos. 

Como vinculamos a ideia de liberdade com usufruir da abundância material cuja generalização se mostra ecologicamente impossível, a catástrofe não é apenas a ambiental, mas também a possibilidade da liberdade humana, do mundo como espaço político (Charbonnier).

A questão é virar o feitiço contra o feiticeiro. Como? O magnetismo do sistema é tamanho que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” (Jameson).

Todavia, nada é para sempre, como demonstra a história de todas as civilizações. Vejamos o caso dos astecas. Quando Cortez chegou à Tenochtitlan (cidade capital do Império Asteca), encontrou os astecas sacrificando seus prisioneiros para manterem vivo o sol. A chegada daqueles poucos barbudos brancos levou a derrubada dos ídolos e a demonstrar a macabra ilusão daqueles rituais, ao preço do fim da aventura mexica e do colapso daquele mundo.

Hoje, buscando insaciavelmente ostentar riqueza e poder, também sacrificamos nossas vidas – e justificamos seja as desigualdades extremas: “o desenvolvimento precisa ser desigualitário” (Arthur Lewis, premio nobel), pois o bolo se repartido não cresce (Teoria do Bolo) – seja o meio ambiente, pois a degradação ecológica é o ônus do crescimento, o qual depois a limpará (proclamam os economistas com a Curva Ambiental de Kuznets). 

Tudo é posto no altar de uma economia cujo único propósito é seu próprio crescimento exponencial, e não mais o “estudo do bem estar humano” como ocorria nos seus primórdios (Angus Deaton). A única economia que vislumbramos é a da fuga interminável para frente, a da corrida em velocidade cada vez mais rápida na highway… Sem sofrimentos e sacrifícios, tanto o sol não vai amanhecer, para uns; quanto o bem-estar vai colapsar, para outros.

Mas, “outros barbudos” acabaram de chegar. Hoje as caravelas chamam-se “mudanças climáticas”, as quais desnudam a necroilusão do feitiço do consumo, pois destrutivo da vida e corruptor do ideal de liberdade e emancipação. Elas obrigam a uma transformação econômica radical que reencaixe a economia na teia da vida. Constrangem a mudarmos de rumo e a formatar um metabolismo econômico assentado na interdependência regenerativa com a natureza, da qual fazemos parte. Pois, a natureza não é o outro, somos nós!

(1) Saudação a ser proferida na abertura da IV Exposul (Encontro Sul-Brasileiro de Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis), em 18.9.26.
(2) Apud David Wallace-Wells: “A terra inabitável”, p. 261.
(3) “Vidas desperdiçadas”, p. 39.
(4) “O despertar de tudo”, p. 147.
(5) Portilho: “Sustentabilidade ambiental, consumo e cidadania”, p. 195.
(6) Quem é Humboldt? É quem revelará, para o Ocidente, que “a natureza é um todo vivo”; que “tudo é interação e reciprocidade” – o que dará gênese ao vocábulo “ecologia” por um dos seus discípulos, Ernst Haeckel.
(7) Anselm Jappe: “Crédito à morte”. p. 190.
(8) Dostaler; Maris: “Capitalismo e pulsão de morte”. p. 116.

Referências:

Bauman, Zygmunt: “Vidas desperdiçadas”. Zahar, 2022.

Canclini, Néstor: “Cidadãos substituídos por algoritmos”. Edusp: 2025.

Charbonnier, Pierre: “Abundância e liberdade”. Boitempo, 2021.

Couto, Gabriela Albanás. “Aprendizagem social e formação humana no trabalho cooperativo dos catadores(as) em São Paulo”. USP, Dissertação de mestrado em Educação, 2012.

____: “’Eu tenho muito orgulho de onde a gente chegou’: um estudo da trajetória de uma família de catadores de materiais recicláveis em Santa Catarina”. UFSC, Tese  de doutorado em Educação, 2020.

Dostaler, Gilles; Maris, Bernard: “Capitalismo e pulsão de morte”. Contracorrente: 2025.

Graeber, David; Wengrow, David: “O despertar de tudo”. Cia. das Letras: 2022.

Hirschman, Albert: “De consumidor a cidadão”. brasiliense, 1983.

Jappe, Anselm: “Crédito à morte”. Hedra, 2013.

Latour, Bruno: “Onde estou?” Bazar do Tempo, 2021.

Marcuse, Herbert: “Eros e civilização”. Zahar, 1978 (7ª ed.).

Pondé, Luiz Felipe: “O homem insuficiente. Comentários de antropologia pascaliana”. Edusp, 2014.

Portilho, Fátima: “Sustentabilidade ambiental, consumo e cidadania”. Cortez, 2005.

Safatle, Vladimir: “A ameaça interna. Psicanálise dos novos fascismos globais”. Ubu, 2026.

Veblen, Thorstein: “Teoria da classe do lazer”. Conjuntura Actual, 2018.

Wulf, Andrea: “A invenção da natureza. A vida e as descobertas de Alexander von Humbolt”. Planeta, 2016.

*Armando Lisboa é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais do Centro Socioeconômico (CNM/CSE) da UFSC e ex-diretor da Apufsc-Sindical (2006-2010)

Artigo recebido às 7h54 do dia 23 de setembro de 2026 e publicado às 10h22 do mesmo dia