A neutralidade não defende direitos: por que a Apufsc precisa se posicionar?

*Por Maria Helena Lenzi, Cristina Scheibe Wolff, Joana Maria Pedro, Paulo Pinheiro Machado

Escrevemos como professoras e filiadas para perguntar à Diretoria da Apufsc: o que o Sindicato tem a dizer sobre o segundo turno das eleições presidenciais? 

A questão não se resume a preferências partidárias. O que está em jogo nesta eleição diz respeito diretamente àquilo que um sindicato de docentes existe para defender: a universidade pública, o serviço público, a liberdade de cátedra, a ciência, o financiamento da pesquisa e os direitos civis que sustentam o trabalho de quem ensina, pesquisa e produz conhecimento neste país. Já vimos, em passado recente, o que significa o contingenciamento de recursos, os ataques à produção do conhecimento e a desqualificação de servidores e servidoras. Não precisamos imaginar os riscos, porque conhecemos seus efeitos de perto. 

Há, ainda, uma dimensão que diz respeito diretamente à própria categoria: os direitos trabalhistas e previdenciários dos docentes. As reformas da Previdência, as ameaças de precarização do serviço público, as políticas de reajuste salarial e as condições de aposentadoria não são abstratas. Afetam concretamente a vida de professores e professoras, ativos e aposentados. 

As duas candidaturas em disputa representam projetos políticos distintos também nesses campos, e cabe a uma entidade sindical examinar essas diferenças à luz dos interesses de seus representados. Quais são os compromissos de cada candidatura com a valorização da carreira docente, a preservação dos direitos previdenciários, a recomposição salarial e o fortalecimento do serviço público? Que riscos e perspectivas cada projeto apresenta para a categoria? 

É precisamente diante dessas questões que se espera de um sindicato capacidade de análise, posicionamento e mobilização. Um sindicato de trabalhadores e trabalhadoras não é uma entidade neutra diante das condições que tornam o trabalho possível. Sua história é a de quem se organizou para intervir no espaço público quando direitos estavam ameaçados. Por isso, a ausência de um posicionamento público não pode ser tratada automaticamente como prudência ou respeito à diversidade da categoria. A categoria tem o direito de saber se houve deliberação sobre o tema, quais argumentos foram considerados e por que a Diretoria entende ser adequado, ou não, manifestar-se. 

Não pedimos à Diretoria que fale por todos e todas, mas que fale à categoria. Que convoque assembleia, abra o debate, submeta uma posição à votação e a torne pública, com argumentos e transparência. A diversidade de opiniões é inerente a qualquer organização democrática e não impede que decisões coletivas sejam tomadas. Se a ausência de unanimidade fosse razão suficiente para o silêncio, sindicatos dificilmente deliberariam sobre qualquer questão relevante. A pluralidade interna se respeita deliberando, e não calando. 

Quando estão em disputa a universidade pública, a liberdade de ensinar e os direitos da classe trabalhadora, o silêncio também é uma posição. E a Apufsc precisa responder à sua categoria sobre a posição que escolhe ocupar.

*Maria Helena Lenzi, Cristina Scheibe Wolff, Joana Maria Pedro, Paulo Pinheiro Machado são docentes do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH/UFSC)

Artigo enviado às 12h29 de 9 de outubro de 2026 e publicado às 12h51 do mesmo dia