*Por Carlos Soares
Essa frase foi dita e repetida várias vezes pelo Prof. Romeu Bezerra, atual secretário da Apufsc e candidato a presidente da entidade, durante o debate entre os candidatos para a Diretoria da entidade.
Tenho escrito em vários textos publicados no site Apufsc – Opiniões sobre como a atual Diretoria da Apufsc cria factoides (como a afirmação de que o Andes tenta empurrar sua dívida para a Apufsc) e falsas narrativas (Fatos e Versões I e II), na tentativa de manipular os fatos. A mais nova versão, o mais novo “biombo” criado para se esconderem atrás, é este: “A Apufsc é plural“.
Ora, todos nós defendemos que o sindicato não apoie partidos políticos nem candidatos. No entanto, isso não quer dizer, e não deve significar, ser neutro politicamente. O sindicato nunca foi neutro; sempre tivemos lado. Sempre nos orientamos por princípios fundamentais: contra o racismo, a favor das cotas nas universidades, contra a misoginia e a favor da democracia. Defendemos a universidade pública e gratuita, assim como o serviço público, entre tantas outras bandeiras. E uma das pautas mais atuais em discussão é a nossa soberania, a soberania do país. Nós, que somos docentes de universidades públicas e pesquisadores, acreditamos que uma das formas mais eficazes de defender a nossa soberania é por meio da defesa do desenvolvimento científico e tecnológico. Trata-se da defesa do nosso trabalho de pesquisa e, obviamente, das nossas condições de trabalho.
E, neste momento, é isso que deveria orientar as nossas escolhas, tanto no âmbito pessoal quanto como coletivo de uma universidade pública. Quem nos representa politicamente? O sindicato deveria. Em outros tempos, ele assumia essa tarefa e a executava de maneira muito clara e eficaz. Agora, ele é plural… A senha para dizer: “não vamos fazer nada”. É o biombo usado para se esconder e não arriscar desagradar aos setores mais conservadores dos docentes, que, atualmente, sustentam politicamente essa Diretoria. Foi exatamente isso que ela fez quando decidiu entrar com uma ação judicial contra a decisão do CUn/UFSC em relação à resolução que regulamentou o novo calendário de volta às aulas no pós-greve. Foi isso, também, que ela fez durante a recente campanha eleitoral para a Reitoria.
O problema é que a situação política nacional é a mais grave possível, e nós, docentes, não podemos nos omitir. Todos os setores democráticos da sociedade estão se mobilizando para tentar evitar a tragédia que se avizinha. E um dos principais instrumentos de ação é (ou era) a via sindical.
Ora, Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, pretende fazer um corte bilionário na educação pública, caso seja eleito. As propostas apresentadas por ele preveem a redução de recursos para a área, atingindo programas sociais como o Pé-de-Meia, além de institutos federais, universidades públicas e o financiamento da pesquisa científica, entre outros pontos. Há, inclusive, a intenção de colocar as universidades públicas sob a gestão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. E a Apufsc é plural… Não vai organizar a resistência?
Enfrentamos, claramente, uma ameaça às instituições públicas e uma retórica golpista. Uma das principais preocupações, expressa em artigos de opinião amplamente divulgados na imprensa, refere-se à retórica de Flávio Bolsonaro em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF) e às instituições democráticas. Até mesmo jornais tradicionais, defensores das elites econômicas e sociais, como O Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo, têm dado destaque a esses temas.
Diversos articulistas e veículos associados ao sindicalismo (como os citados pelo Instituto Humanitas Unisinos e pelo Brasil de Fato em setembro e outubro de 2026) descrevem o projeto econômico da campanha de Flávio Bolsonaro (chamado de “tesouraço”) como uma “grande ameaça, um risco, um perigo real”. A preocupação recai sobre a coordenação econômica da campanha (composta por ex-membros da equipe de Paulo Guedes) e sobre as promessas de “revisitar” reformas trabalhistas, cortar recursos de serviços públicos e tentar frear pautas como o fim da escala 6×1.
Nós precisamos ter lado diante dessa barbárie. O sindicato tem o dever de organizar essa mobilização na UFSC. Contudo, parece que, para que isso aconteça, a única possibilidade é mudar a direção política da entidade.
É obrigatório que a Diretoria da Apufsc convoque uma assembleia de docentes para discutir e organizar os enfrentamentos que estão colocados e necessários.
Sermos plurais é bom, mas temos lado, temos princípios.
*Carlos Soares é professor do Departamento de Bioquímica (CCB/UFSC)
Artigo recebido às 9h25 do dia 9 de outubro 2026 e publicado às 12h15 do mesmo dia
